“Deixem as crianças em paz” é um daqueles slogans que parecem irresistíveis até ao momento em que se pensa no que realmente significam. Neste caso, convinha dizer precisamente o contrário: não deixem as crianças em paz. Não as deixem entregues à negligência dos adultos, à preguiça moral das instituições e à fantasia contemporânea segundo a qual a exposição precoce a tudo seria uma forma superior de educação.
A investigação do Público, a que se prestou escassa atenção, tendo em conta a gravidade do que revelou, identificou cerca de oitenta escolas que, nos dois últimos anos lectivos, receberam influenciadores ligados a conteúdos sexuais em campanhas para associações de estudantes. Chamei-lhes “influenciadores”. Corrijo: “pornógrafos”. É assim que passarei a referir-me a eles. O caso já motivou inquéritos e levou o Ministério da Educação a anunciar orientações para proibir actividades contrárias aos fins educativos.
O que inquieta não é apenas a natureza de quem entrou no espaço escolar. É a reacção dos adultos a quem compete velar pela sanidade do espaço escolar. Em Ferreira do Zêzere, a directora-adjunta Elizabete Costa trivializou a presença de Gonçalo Maia, um dos nomes associados ao levantamento do Público, conhecido por publicar vídeos explícitos em plataformas de acesso livre como o X. O detalhe não se inventa: ao ver o pornógrafo em tronco nu em pleno pátio da escola, a preocupação que lhe ocorreu foi o frio que o sujeito pudesse estar a sentir. E quando soube das suas actividades “cinematográficas”, limitou-se a dizer que ali se tinha portado “muito bem”. A própria investigação do Público ligou ainda o mapa das escolas às redes de Zezinho e Gonçalo Maia. A lógica foi quase sempre a mesma: os alunos organizam, os adultos não fazem ideia, a escola não tem nada a ver com assunto, e quem está mal, mude-se.
Durante muito tempo, quando os adultos se distraíam, imaginava-se que os mais novos fizessem asneiras proporcionais à sua idade. Que batiam uns nos outros, ou atiravam uma pedra para o vidro errado. Mas isso era dantes. Hoje, quando os adultos andam ocupados com os seus assuntos (e andam sempre), as crianças são deixadas diante de pornografia, promessas de fama instantânea, e toda a voracidade de lixo moral apresentado como diversão, autenticidade ou sucesso.
Noutros tempos dizia-se aos filhos para terem cuidado com as más-influências. Hoje é preciso dizer para ter cuidado com os influenciadores. A própria designação é sinistra. Já não caracteriza quem nos educa, mas quem vive de moldar o nosso desejo e parasitar a imaginação alheia. E quando essa economia da influência assenta na obscenidade, ou na exploração comercial da impressionabilidade juvenil, a escola não pode fingir que é neutra.
A justificação mais reveladora é, porventura, a mais perigosa: a ideia de que “também faz bem” aos alunos ver “o que é bom e o que é mau”. É difícil imaginar forma mais confortável de um adulto se demitir. Pois foi essa uma das reacções de um dos membros de uma das direcções escolares que falaram ao Público. Em vez de proteger, transfere-se, assim, para a criança, o peso de um discernimento para o qual não tem ainda maturidade.
Byung-Chul Han, autor lido e citado em todos os quadrantes ideológicos, ajuda a perceber o alcance do problema. Na chamada “era pós-sexual”, escreve ele, a pornografia radicaliza-se até se converter em “carografia” (de “caro”, carne em latim); e o que destrói a sexualidade “não é a negatividade da proibição”, mas “a positividade da superprodução”. Noutra formulação sua, a patologia do presente não nasce da carência, mas da abundância.
É exactamente isto que o caso dos pornógrafos nas escolas ilustra de um modo tão eloquente quanto trágico. O problema do nosso tempo não é uma escola fechada de mais. É uma escola tão desarmada perante o excesso que já não sabe dizer não. Não se trata de um lapso pontual, nem de um pequeno desvio administrativo. Estamos perante a sistematização da desistência. E é assim, quando já não se distingue entre autonomia e omissão, que uma crise civilizacional entra, fisicamente, na escola.
Há uma ideia mais ou menos instalada na direita de que a escola devia apenas ensinar e não educar. Lamento, mas isso sempre foi uma ficção. Queira-se ou não, a escola educa. Sempre e inevitavelmente. Pelo que ensina, pelo que tolera, pelo que normaliza, por tudo aquilo a que abre as portas e deixa entrar. A verdadeira questão nunca foi essa, mas saber sob quais critérios o faz. Se são adultos, claros e exigentes, ou se se limita a ser o espelho da imundície dos tempos.
Haverá certamente quem aproveite para dizer que isto prova a necessidade de mais educação sexual e mais Cidadania; porém, antes de educar para interpretar a imundície, é preciso impedir que a imundície seja legitimada pela própria escola. É aí que estamos. E, se há matéria capaz de unir pessoas sensatas da esquerda à direita, devia ser precisamente esta.
As crianças não podem ser deixadas sozinhas diante de tudo. Nem diante da pornografia, nem diante da exploração do corpo feminino transformado em espectáculo, nem diante do tráfico permanente de ilusões que hoje se apresenta como linguagem juvenil.
Não deixem, por isso, as crianças em paz. Vigie-se. Filtre-se. Exclua-se, se necessário for. Assuma-se o peso ingrato da autoridade adulta. Quando os adultos saem do caminho não é a liberdade nem a autonomia que triunfam, mas a força agressiva dos tempos.