No domingo passado foi Dia da Mulher.
Surpreendentemente, abrindo a primeira página do jornal Público, a notícia em destaque era: “Como o Chega usa as mulheres contra a igualdade”. A base deste artigo é um estudo de uma investigadora preocupada, que analisou duas Deputadas do Chega e, com base nessa monumental amostragem, parece insinuar, entre outras coisas, que só poderiam estar a ser manipuladas para continuarem nessas andanças.
Mas, mais irónico ainda, era ver as notícias que se seguiam, logo por baixo: “Portugueses ciganos – quatro vidas que mostram que o futuro pode ser diferente” e “Guerra (no Irão) ameaça economia global e desfere golpe na reputação dos países do Golfo”.
Ou seja, no Dia da Mulher, o Público optou por três escolhas editoriais muito claras i) sugerir, de forma velada, que as mulheres que trabalham ou votam no Chega carecem de qualquer espírito crítico e são meros instrumentos anti-feministas usados pelos machistas, ii) celebrar a cultura cigana, conhecida e documentada por ter casamentos forçados de meninas, à margem da lei, algumas com 10 anos de idade, e iii) não fazer nenhuma referência (mais uma vez) às corajosas mulheres Iranianas, vítimas de um regime facínora que restringe os seus direitos há 47 longos anos.
No conjunto de todos estes artigos conseguimos vislumbrar uma versão de machismo de que se fala pouco: aquela que é sorrateira e que retira às mulheres o poder de terem vontade, ideias próprias e, acima de tudo, discernimento.
O paradigma é curioso: as mulheres de direita são crédulas, frágeis, manipuláveis. As de esquerda, fortes, “empoderadas”, autónomas. As crianças ciganas que são forçadas a casar são uma verdade inconveniente, que se varre para debaixo do tapete, sob o manto diáfano da fantasia da multiculturalidade e de uma tolerância intolerável. E das mulheres no Irão não convém sequer falar, porque sofrem na pele o resultado directo do Islamismo, na forma da lei Sharia, descrita tantas vezes no debate público como algo culturalmente benigno e perfeitamente compatível com sociedades ocidentais.
O objectivo do feminismo sempre foi – ou deveria ser – dar às mulheres liberdade de escolha: de serem de direita, de esquerda, de trabalharem, de irem à escola. De não serem obrigadas a casar nem a cobrir a cabeça para não perturbar os homens. E, também, de não pensarem todas da mesma forma, mesmo quando isso é inconveniente.
Parafraseando Orwell: todas as mulheres são iguais, mas algumas são mais iguais do que outras.