Quanto mais se fala de narrativas, menos as temos. Assim muito muito resumidinho, é o que Byung-Chul Han defende em “A Crise da Narração” (saiu há dois anos pela Relógio D’Água). Dá-se o paradoxo: a palavra “narrativa” torna-se familiar porque o seu conteúdo nos parece cada vez mais estranho.
A narrativa serve para pôr os pés das pessoas no chão. Somos habitantes desta terra quando temos histórias. Sem elas, apesar de aqui estarmos, é como se estivéssemos noutro lugar qualquer. Desenraizamo-nos. Perdemos o norte e o sentido. Vivemos sem significado.
Mais ainda. O problema não fica pessoal apenas. É colectivo também: sem histórias partilhadas, as comunidades não se podem formar. Podemos viver ao lado uns dos outros mas é como se fôssemos vizinhos que não se conhecem. Sem narrativas comuns, sócios não fazem sociedades.
O problema da ausência de uma narrativa comunitária é também do tempo, e tira-nos tanto o passado como o porvir. Han explica: “o futuro fica reduzido a um permanente update do actual”. Como pessoas, tornamo-nos depósitos de actualizações. Na internet podemos dizer que não somos robots mas a transformação já se deu.
Mas “narrar atribui um curso significativo ao tempo, um princípio e um fim”. O autor sul-coreano traz alguma esperança. Lembra-nos de que o cristianismo já nos ofereceu uma narrativa em que a existência das pessoas se concluía. Havia destinos eternos, havia algo que começava depois de terminar.
Esta é uma condição paradoxal do nosso tempo: ao ganharmos autonomia de Deus, a nossa existência deixou de ser bitolada pelo facto de ele ser eterno. Sair da casa deste pai celeste trouxe-nos uma vida que não depende de terceiros transcendentes mas que também não nos leva para outra. É tudo aqui e agora.
É como se, ao vivermos apenas esta vida, ela ficasse a meio. George Steiner dizia que não há mais inícios mas também já não há mais fins. Há apenas suspensões de assuntos que nos pertencem a cem por cento. Se formos o fim do que vivemos, nem grandes fins seremos: somos, vá lá, auto-interrupçõezitas.
Han não é muito optimista quanto às alternativas: a narrativa nacionalista bem se esforça mas não chega; a narrativa consumista bem se esforça mas não chega; a narrativa informativa bem se esforça mas não chega. Nunca estivemos tão politizados ou tão proprietários ou tão informados mas também nunca estivemos tão desorientados.
O conselho fica dado para a leitura de uma história que nos faça voltar a falar em voz alta com os outros. Uma espécie de desupdate com pernas. Precisamos de inícios e de fins, do fim do monopólio de cada um sobre si mesmo.