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(A) :: De boas intenções está o inferno cheio

De boas intenções está o inferno cheio

Não é por sermos bem-intencionados que cedemos e chegamos a acordo. O actual impasse político com três partidos com a mesma força não se ultrapassa com boa vontade, mas com a derrota de um deles

André Abrantes Amaral
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Perante o impasse político em que três grandes partidos receiam ser o primeiro a ceder, paira no ar a ideia de que, com Seguro, o nó se desfaça e que as famosas reformas avancem de vez. O segredo para tamanho sucesso? A capacidade de diálogo de um presidente sensato e bem-intencionado. Basicamente, uma boa pessoa. Infelizmente, e porque não sou nem suficientemente cínico nem suficientemente ingénuo, não como essa história. Bem pelo contrário, na espargata que fará para unir as pontas soltas, creio que o mais provável é que Seguro se magoe.

Não o digo por mera descrença ou por considerar que os políticos não são capazes de, com bom senso e boa vontade, chegarem a entendimentos. Pelo contrário, são precisamente as boas intenções dos líderes partidários (que querem melhorar a vidas pessoas, quanto mais não seja porque é dessa forma que ganham votos) que me leva a não acreditar num efeito positivo que resulte da mera boa vontade de Seguro. A verdade é que, se Luís Montenegro, André Ventura e José Luís Carneiro acreditam no que defendem, se acreditam que as suas propostas são positivas para os portugueses e que as dos seus adversários são negativas, farão o possível para que as suas ideias sejam aprovadas e que as dos outros acabem reprovadas.

Dito de forma ainda mais simples: a inflexibilidade não nasce da má vontade; manifesta-se porque há divergências. Mesmo entre pessoas de boa vontade. E na política, essas divergências, quando tão acentuadas, só terminam com a derrota do adversário. Ou porque este não conseguiu convencer a maioria do eleitorado, ou porque falhou redondamente na implementação das suas propostas.

Pode acontecer que, perante um impasse que se torne intolerável, os partidos cheguem a um entendimento. É o chamado consenso. Só que nessa altura, enquanto a discussão pode ter ficado suspensa, o problema persiste. E continua porque, além de não se ter resolvido também não se testaram as diferentes propostas, de modo que nenhuma foi bem-sucedida ou posta em causa. Todas continuam válidas. Mais: ao recorrerem a uma amálgama de pontos de vista e de estratégias cujos efeitos se anulam, nenhum político assume responsabilidades porque não há créditos a receber nem contas a prestar. É verdade que, no meio do descomunal trabalho que dá agradar gregos e troianos, os responsáveis por tais negociações se convençam que fizeram um bom trabalho. E tê-lo-ão feito se a ênfase for colocada na dificuldade do projecto. Se, porém, nos focarmos no resultado, a avaliação é negativa.

Em política é normal e desejável que se façam cedências. No entanto, para que os efeitos produzidos sejam atribuídos a alguém é preciso que um dos lados prevaleça. Que uns cedam mais que outros. Ora, perante a actual situação política do país isso é pouco provável que aconteça. A boa vontade, o trato fácil e o se ser boa pessoa fica-se pela boa vontade, pelo trato fácil e por se ser uma boa pessoa.

Entre as múltiplas frases que lhe atribuem, Napoleão terá dito que “para compreendermos um homem, temos de saber o que se passava no mundo quando ele tinha vinte anos”. É a altura da vida mais feliz e mais marcante da maioria das pessoas. António José Seguro não tinha vinte anos quando fez parte do governo de António Guterres, mas essa foi a sua experiência política mais feliz. Se soubermos ou recordarmos o que se passou nessa época compreendemos como funciona António José Seguro: um presidente que dá destaque à boa vontade e à facilidade no trato. E diga-se de passagem que faz muito bem. Só que isso não é um fim, mas um meio. Por si só não resolve nada se não houver mais. Se não existir conteúdo. Se ninguém acreditar em soluções e se bater por elas. É que os problemas são objectivos, logo precisam de soluções objectivas. Não dependem de estados de alma e nem de palmadinhas nas costas. Seguro pode não perceber isto porque era feliz quando a bipolarização era regra e António Guterres primeiro-ministro. Mas quando há três partidos de força equivalente, o impasse só se resolve quando um deles colapsar.