Na terceira vez que foi a votos no PS, José Luís Carneiro teve uma votação que exprime “uma ampla vontade”, como o próprio descreveu. E que “atribui especiais responsabilidades” à sua liderança, mas também lhe confere uma habilitação “para no futuro ser candidato a primeiro-ministro” pelo partido. Depois de mais uma eleição sem adversários, mas certo de que eles podem vir a existir, o líder reeleito deixa já o aviso interno.
A contagem provisória (96% dos votos contados até à hora da publicação deste artigo), deram a Carneiro 97,1% dos votos (21.219), numas diretas onde a taxa de participação foi acima das últimas (em junho), ficando nos 55,3% (21.848) — foram registados 483 votos em branco e 145 nulos. O líder socialista teve mais votos absolutos do que em junho, quando votaram cerca de 18 mil socialistas e foi eleito com 95,4% (17.434 votos), tendo havido 701 brancos e 128 nulos, numa eleição com uma taxa de participação de 48,9%.
O resultado deste sábado permitiu a Carneiro sublinhar que é “o líder político mais votado de todos os líderes que se encontram na Assembleia da República” — na verdade também teve mais votos do que Luís Montenegro que foi eleito, em 2024, presidente do PSD com 16.179 votos. Numa altura em que o PS não lidera a oposição — lugar que perdeu para o Chega nas últimas legislativas –, o socialista agarra-se ao que pode.
Os números da votação destes dois últimos dias exprimem, diz o socialista, “uma ampla vontade, plural e diversa, mas convergente com a liderança do PS.” Também assume que “uma das principais” responsabilidades que vem com esta votação é “o respeito pela diversidade de opiniões e a pluralidade das expressões internas”.
Carneiro sabe que voltou a ir a votos sem adversários, mas que isso não quer dizer que eles não existam e não estejam apenas à espera de um momento mais propício. É para esses que também ficou o aviso, quando foi questionado sobre se espera ser ele a concorrer a legislativas (sejam elas quando forem). “Estou pronto para servir o meu pais e habilitando-me no futuro a ser candidato a primeiro-ministro”.
A sala estava cheia de apoiantes socialistas e também de cerca de duas dezenas de jovens estrategicamente sentados atrás do líder, quando o socialista os coloca com uma das suas prioridades. Dirigiu-se mesmo aos “140 mil jovens que não estudam nem trabalham“, para dizer que “Portugal não os pode deixar para trás” e prometer que “a partir de maio” o PS irá para o terreno, “num roteiro de empresas e formação profissional”. Aliás, o líder exorta mesmo os socialistas a irem para a rua, para recuperarem a “confiança” dos portugueses, “passo a passo, rua a rua”.
Mas já fez várias voltas ao país, desde que foi eleito pela primeira vez depois da demissão de Pedro Nuno Santos. A última foi agora, para estas diretas, e garante ter ouvido dos portugueses com quem contactou “uma grande desilusão” e “desencanto” com um Governo a que “tantos independentes deram o seu voto”, refere. “Desencanto com um governo que prometeu tudo a todos – e que agora, todos os dias, falha tanto a a todos”, afirmou.
Depois desta reeleição, disse também que espera agora uma reunião com o novo Presidente da República, em Belém, repetindo que está disponível “para construir soluções de confluência em áreas de soberania”, como a defesa ou a segurança interna. Na reforma laboral é que se coloca mais distante com o Governo, pelo menos em relação à proposta inicial que agora está a ser negociada em concertação social.
Não fala das suas expectativas para a reunião de segunda-feira entre Governo e parceiros sociais, mas vai avisando que o PS “nunca aceitará propostas que ofendam os direitos dos mais jovens, os direitos das mulheres trabalhadores e ofensas aos trabalhadores mais vulneráveis”. Só estará disponível, diz Carneiro, para validar o que contribua para para a adaptação da economia à transição digital e à inteligência artificial: “Estaremos naturalmente abertos para o diálogo”. Por agora, deixa o assunto nas mãos da concertação social.
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O “avé” de César a Carneiro
Na sede do partido em Lisboa foi ainda lida uma mensagem enviada pelo presidente do PS, Carlos César, que elogiou o percurso de Carneiro nestes nove meses. “Depois do nosso insucesso nas últimas eleições legislativas, foi muito importante a forma como reagimos, reunindo o partido na sua pluralidade e procurando contar com todos. É esse caminho que aprofundaremos no nosso Congresso”, disse César, já a preparar o encontro de Viseu, nos dias 27, 28 e 29 de março.
O presidente considera que tem existido debate interno suficiente — numa altura em que isso é questionado dentro do partido — e que também que a liderança de Carneiro “impulsionou” a “vitalização interna” e que isso “muito tem contribuído para a reabilitação do partido e para a mobilização em torno do PS de setores muito diversificados da sociedade portuguesa”.
Quanto à vitória deste sábado, revela a “confiança dos militantes no percurso” de Carneiro que diz estar a colocar o PS “como uma força de diálogo, conhecedora e próxima dos problemas do país, consciente do que nos falhou e no que não podemos voltar a falhar.” Acabou a mensagem lida no Largo do Rato a desejar um PS que seja “uma força de oposição que deseja o bom governo do país”, sobretudo quando o Governo em funções está “cada vez mais desligado do que aos portugueses mais importa” e que não tem “outra prioridade que não a de fazer oposição à oposição”.
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