Foi uma espécie de imagem de marca do dia, dos próprios candidatos a centenas de pais e avôs que, na altura de rumar a Alvalade para aquilo que foi descrito por Frederico Varandas como “o momento mais importante da vida de qualquer sócio”, agarravam nos filhos e nos netos pela mão e entravam pelo Pavilhão João Rocha. Ali estava o espelho daquela que foi a maior vitória do líder leonino: a par do quadriénio com mais sucesso no futebol das últimas sete décadas, a par da reestruturação financeira e recompra dos VMOC, a par daquilo que as modalidades foram conseguindo fazer, “ganhou” uma nova geração de adeptos, num fenómeno que tem reflexos no aumento exponencial do número de sócios e que trará outros “rendimentos” para a frente. Agora, eleito para um terceiro mandato como não acontecia desde os tempos de João Rocha em que as gerências eram mais curtas, tem pela frente desafios extra futebol que vão atravessar várias gerações.
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Se naquela que é a mola real do clube deverá haver novidades em breve, com a renovação de Rui Borges e a preparação da próxima temporada com essa nuance de ser ano de Campeonato do Mundo que mexe sempre com os timings das contratações, há projetos maiores que terão agora o seu desenvolvimento a começar pela renovação do Estádio, Alvaláxia e zona envolvente, que já custou 50 milhões e vai ter ainda um investimento de mais 150 milhões – daí ter sido contraído um financiamento de 225 milhões –, a par dos empréstimos obrigacionistas que vencem em 2027 e 2028 e o processo de centralização dos direitos de TV.
“A primeira palavra vai para o concorrente Bruno Sá, que entendeu candidatar-se. Sai derrotado, mas quando se vem à luta, nunca se perde. Tentou trazer ideias. A segunda vai para os sócios. O Sporting é um clube de sócios, sócios felizes por viverem uma das fazes mais felizes da sua história. Vivemos dos sócios mas sobretudo do seu ativismo. Estas eleições mostraram que querem manter o rumo iniciado em 2018. Muito orgulho, muita responsabilidade, acima de tudo humildade de termos vencido com este resultado expressivo. Vencer com 90% ou 51%, a nossa responsabilidade é a mesma. A nossa humildade tem de ser a mesma e a missão também, fazer o Sporting crescer, ganhador e que faça os sócios muito felizes. Espero, daqui a quatro anos, ter os sócios tão felizes como eu”, começou por apontar no discurso de vitória.




“Mais sócios a votar na nossa lista? Isso tem a ver com um trabalho de oito anos mas também com o facto de existirem mais sócios e mais sócios que votam. A responsabilidade é a mesma. Não vou dormir eufórico. Lembro-me de, há oito anos, estar lá fora, ver gente ao meu lado muito feliz e estar focado na missão do primeiro lugar, conquistar mais títulos desde 2018. Vou-me deitar da mesma forma. Rui Borges? Não vamos misturar os assuntos… Recebemos um voto de confiança, é sinal da vitalidade e saúde do Sporting. É preciso recuar muito tempo para encontrar uma direção com 12 anos de mandato e isto é uma premissa fundamental para o nosso sucesso. A tranquilidade e o sucesso fazem com que os sócios não venham tanto mas fiquei muito feliz com a quantidade que votaram. Os sócios hoje sentem que somos um clube estável. Não fomos durante décadas. Os sócios são garante desta estabilidade e são eles que decidem quanto tempo estamos aqui. Antes de nós, a média era de dois anos e pouco de mandato, era uma loucura…”, apontou.
“Quando nos decidimos recandidatar não foi a pensar em nenhuma renovação de treinador ou jogadores. Iniciámos um processo de requalificação do nosso património, de investimento. Serão três anos exigentes para cumprir, um game changer, mas que vamos cumprir. Em 2029 teremos um Alvalade simplesmente fantástico. Exige trabalho, dedicação mas faremos. Tenho duas prioridades: títulos e crescer no número de sócios. Mas para isso, precisamos de crescer em vários setores, como o património, melhorar a experiência do adepto, aumentar a receita e, assim, poder investir mais”, concluiu Varandas.
Renovação com Rui Borges, renovação do plantel e a “renovação” da formação
No imediato, existe uma pasta que vai avançar nos próximos dias: a renovação de Rui Borges. Apesar de ser uma decisão há algum tempo ponderada e tomada no plano interno, Frederico Varandas quis deixar sempre de parte o técnico neste período eleitoral para, em caso de reeleição, como aconteceu, nunca encarar esse passo como algo que não fosse visto como uma “bandeira”. Em paralelo, e enquanto chegarão todas as grandes decisões entre oitavos da Liga dos Campeões, Campeonato e Taça de Portugal, a nova temporada vai continuar a ser preparada, havendo já contactos exploratórios tendo em vista reforços para o próximo plantel de 2026/27 depois de um 2025/26 que, no plano contabilístico, envolveu o maior investimento de sempre.
Há vários contextos em cima da mesa para tomar essas opções. Olhando para fora, o FC Porto conseguiu a época de redenção que procurava com a chegada de Francesco Farioli para corporizar a ideia do presidente André Villas-Boas e o Benfica deverá voltar a uma época de aposta face à falta de títulos nos últimos anos de Rui Costa, o que aumentará a competitividade pelo título, ao mesmo tempo que, por ser ano de Mundial, o mercado de transferências deverá ganhar diferentes critérios de timing. Em termos internos, o final da época poderá trazer a saída de algumas peças chave, casos de Morten Hjulmand e Diomande ou Gonçalo Inácio (que pode também valorizar caso seja opção de Roberto Martínez no verão), além de outros nomes que têm peso nas opções como Morita. É nesse sentido que será preparada uma renovação do grupo, que começou com as chegadas de Luis Guilherme (substituto “direto” de Geovany Quenda) e Souleymane Faye e deverá ter agora continuidade com mais uma unidade na frente e uma aposta forte no meio-campo.

Não deixando de ambicionar o tricampeonato, a entrada nos dois primeiros lugares do Campeonato é um passo importante dentro daquilo que tem sido desenvolvido para manter a possibilidade de entrar na Liga dos Campeões com o impacto que isso confere em termos financeiros – a atual campanha já rendeu um total de 67, 1 milhões de euros só de prémios desportivos da UEFA. Existindo sempre essa vontade de ganhar o máximo de troféus possíveis no plano nacional, o terceiro mandato de Frederico Varandas visará aquilo que é uma “consolidação” do Sporting na discussão “real” de todos os títulos em termos internos, numa mudança de paradigma face a um tempo até à quebra do jejum em 2000 que vai frisando em vários discursos de quando os leões estavam fora da corrida do Campeonato no Natal e andavam atrás dos rivais.
Há depois de uma outra parte do futebol que será alvo de atenção no terceiro mandato de Varandas: o setor da formação. Aliás, se existe um ponto em que o período 2022-2026 teve menos resultados visíveis do que a fase 2018-2022 foi exatamente a capacidade de fazer subir de forma constante jovens talentos ao plantel principal, algo que nos últimos quatro anos aconteceu apenas com Geovany Quenda, Mateus Fernandes (que foi vendido ao Southampton e está agora no West Ham) e João Simões. Existe uma ideia clara na Academia, que assenta no Modelo Centrado no Jogador, existe uma aposta na aceleração do talento colocando os mais promissores a jogar em escalões acima para tomarem mais cedo contacto com o futebol profissional mas, a par de falta de títulos que não constituem agora uma “prioridade” (os últimos remontam a 2022, nos Sub-17 e nos Sub-15), fica a ideia de que a qualidade média das recentes gerações não é a mesma das anteriores.
O grande projeto de futuro financiado por 225 milhões e os dois empréstimos obrigacionistas
Este será um ponto chave do mandato. Aliás, este será “o” ponto chave do mandato. Se no primeiro mandato existia um objetivo claro de Frederico Varandas em estabilizar o clube nos planos desportivo, financeiro e sobretudo institucional (embora todos estivessem ligados uns com os outros), se no segundo mandato havia essa meta de recolocar o Sporting como um crónico candidato ao título e a ganhar como há muito não se via, o terceiro mandato tem como grande “baliza” a reformulação do clube através das infraestruturas – e depois de 12 milhões de euros investidos na Academia mais três milhões que servirão para requalificar a parte dos leões no Polo do Estádio Universitário de Lisboa, o foco está no Estádio José Alvalade, no Alvaláxia e em toda a zona envolvente. Para foram “colocados” no recinto 50 milhões; para a frente, serão mais 150 milhões.
A par da reabilitação de um espaço inaugurado em 2003 que nunca teve a manutenção necessária, a par dos jogos que irá receber no Mundial de 2030, a par do boom esperado na zona com a conclusão do projeto Campo Novo que conta com 80.000 metros quadrados de construção, quatro edifícios de escritórios, três de apartamentos (245) e 2.424 lugares de estacionamento entre outras mais valias, o projeto a dez anos do Sporting até 2034 nomeado de “Future is Coming” coloca todas essas infraestruturas como um fator potenciador de receitas capaz de duplicar o valor de 2024 para um total a rondar os 170 milhões de euros em 2034. “O mercado deu razão ao Sporting, que estava na altura ideal de o fazer. Tivemos procura de nove vezes mais, dois mil milhões que quiseram investir. Falamos de investidores internacionais de referência e o crédito de risco foi avaliado em credit investment rate“, destacou Varandas no último debate.

Esse será o grande desafio deste terceiro mandato, tendo em conta tratar-se de um projeto que levou a que fosse assinado um financiamento de 225 milhões de euros numa operação conduzida pelo banco JP Morgan com obrigações com um prazo de maturidade até 28 anos com uma taxa de juro fixa de 5,75%. No passado, o Sporting já teve outras movimentações estruturantes a médio/longo prazo com este nível de investimento que, na sequência de fatores extra que impediram a obtenção dos resultados pretendidos e que estavam projetados, levaram a que a SAD tivesse quase duas “equipas” para a pagar entre futebol e juros.
Em paralelo, e numa fase em que todos os exercícios da SAD e do clube têm fechado sempre com lucros (a exceção neste elenco desde que assumiu uma época do início ao fim foi a temporada marcada pela Covid-19), houve uma recuperação de capitais próprios e todas as vertentes de receitas operacionais, merchandising ou quotização estão em crescendo, a sociedade terá outros desafios neste particular ao longo deste mandato, nomeadamente o pagamento do empréstimo obrigacionista 2023-2027 de 50 milhões de euros com taxa de 5,75% e de um outro empréstimo obrigacionista 2024-2028 de 40 milhões com taxa de 5,25%.
Esvaziar “peso” dos resultados, a venda de parte da SAD e a centralização dos direitos
Havia algo que distinguia João Rocha de figuras como António Ribeiro Ferreira ou Joaquim Oliveira Duarte, outros dois presidentes com maior longevidade e sucesso do Sporting em décadas distintas da vida do clube: a capacidade de ser valorizado acima daquilo que eram os resultados desportivos. Ao longo dos 13 anos de reinado, que começaram em 1973, o empresário foi sempre alguém muito próximo do futebol mas conseguiu “apenas” três Campeonatos, três Taças de Portugal e uma Supertaça (que teve início em 1980) num período marcado também pelo crescimento do FC Porto e pela ascensão de um Benfica numa era pós-Eusébio. Eram tempos com muita guerrilha, onde todos os jogos eram uma “armadilha”, onde os leões não conseguiram manter a cadência de conquistas do passado. A isso juntava uma singular capacidade de estar sempre a dinamizar todo o movimento desportivo no clube, numa fase em que as modalidades aumentaram e muito o seu palmarés internacional, e de procurar novas receitas depois de ter visto cair por terra a grande ideia que tinha da Sociedade de Construções e Planeamento (SCP), primeiro projeto de um clube-empresa.
Se dúvidas ainda existissem, quando Marcelino de Brito desafiou a era Rocha em 1984 por considerar que a seca de títulos no futebol depois da dobradinha de 1982 não era aceitável, a resposta dos sócios não podia ter sido mais expressiva numa fase em que o número de associados já tinha triplicado para 130 mil face aos 40 mil de 1973. Saiu em 1986, por vontade própria devido a razões de saúde, e ficou como o “presidentes dos presidentes”, com uma longevidade que ainda hoje o coloca como o líder que ficou mais tempo no cargo. Agora, com a reeleição, Frederico Varandas ficará apenas a um ano desse longo reinado, superando a figura de Joaquim Oliveira Duarte (cerca de dez anos e meio entre duas gerências), mas tem como principal objetivo procurar esse patamar de “confiança” que o coloque acima dos resultados desportivos pelo “projeto”.

Apesar do início complicado de primeiro mandato, sobretudo nos dois anos que se seguiram à eleição no ano de 2018, Varandas “goleou” no sufrágio de 2022 com pouca oposição pelo que conseguira no futebol depois de ter quebrado o maior jejum sem títulos em 2021 e consolidou a liderança no mandato com mais sucesso em sete décadas pelo número de troféus e pelos três Campeonatos em cinco anos. Questão: se a bola “não entrar” tanto, continuará a ser visto da mesma forma por tudo o resto? Esse é um dos desafios de Frederico Varandas, sabendo também como é a vida interna do clube, como foram os últimos 40 anos dos leões e como há uma veia quase autofágica que em alguns momentos ajudou a fraturar os leões por dentro.
Ainda no âmbito do Sporting, ou neste caso da SAD, o próximo mandato será um ponto importante para se perceber o que representa ou pode representar os atuais 88% da sociedade que pertencem ao clube, depois da operação fechada em 2025 com a recompra de todos os VMOC, primeiro ao Millennium BCP e de seguida ao Novo Banco. Os responsáveis leoninos assumiram a possibilidade de venderem parte desse capital social a um parceiro externo que fique cómodo com uma posição minoritária e possa alavancar aquilo que é o valor da SAD mas falta depois saber quem pode ser, que valor pode entrar, para onde será canalizada essa verba. A imprensa inglesa já abordou o interesse dos principais donos do Chelsea, Behdad Eghbali e Todd Boehly, existem mais sondagens no mercado para chegar a uma radiografia completa da sociedade depois do fecho da última reestruturação financeira e as próprias avaliações feitas a propósito do financiamento de 225 milhões de euros colocam este mandato com um momento chave para avançar em definitivo com essa pasta.
Em paralelo, olhando mais para fora, há desafios importantes transversais a todos os clubes nacionais numa fase em que, não havendo um corte de relações assumido entre Sporting e FC Porto, ambos estão de “costas voltadas”. O processo da centralização dos direitos audiovisuais é um exemplo paradigmático disso mesmo, entre o equilíbrio de adequar esse “bolo” da receita a todos os clubes da Primeira Liga para fazer evoluir a “classe média” da prova com outros argumentos em provas europeias como a Liga Europa ou a Liga Conferência e não perder verbas face ao que está nesta altura contratualizado com a NOS até 2027/28. Há também a reformulação dos quadros competitivos prevista pela Federação Portuguesa de Futebol bem como outras áreas onde a Direção de Pedro Proença pretender intervir ouvindo os clubes e associações de classe.