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(A) :: Mafalda Simões vence Sangue Novo com tricots e crochets e Francisca Nabinho domina o Pátio da Galé com o seu gangue colorido

Mafalda Simões vence Sangue Novo com tricots e crochets e Francisca Nabinho domina o Pátio da Galé com o seu gangue colorido

Cinco designers na Workstation, duas vencedoras no Sangue Novo e uma sala que já não chegava para as fãs de Francisca Nabinho. Os jovens criadores apostam na herança familiar e moda sustentável.

Sâmia Fiates
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Na primeira noite de ModaLisboa, os grupos andam como se fossem gangues pelo Pátio da Galé. Os que se vestem todos em preto, com casacos de cabedal; as raparigas com saias armadas curtas, collants e corsets; e até as inspiradas nas portuguese girlies, com cores, mistura de padrões e acessórios no cabelo. A influência Carolyn Bessette parece não ter aterrado no Terreiro do Paço: aqui as pessoas vêm para serem vistas. No meio da multidão que já se aglomera à porta, um espaço vazio — é um cão que passeia preso à trela. Passada a fila que dá acesso à sala de desfiles, nos minutos que antecedem o início da apresentação, há uma claque em particular que monopoliza os flashes: as fãs de Francisca Nabinho.

Para um desfile da plataforma Workstation, em que divide o espaço e o tempo com outros três designers, a impressão é que a criadora já seria capaz de encher uma sala. Vestidas em Francisca Nabinho estão figuras públicas como as atrizes Bárbara Branco, Joana de Verona, Sónia Balacó ou Vera Moura. O vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Gonçalo Reis, trouxe a família, e a jovem designer também tem o pai, o galerista Miguel Nabinho, na plateia. A nova coleção, Lucky, é como um consolidar da imagem da marca. Modelos com perucas coloridas, faixas de miss e coroas de princesa exibem looks que misturam cores e sobreposições, em peças com cortes clássicos desconstruídos.

Criações que refletem a história da própria Francisca. “Tem a ver com esta sorte de nós podermos experimentar, podermos errar, podermos aparecer na escola vestidas de princesa e a seguir, se quisermos aparecer com uma meia de cada cor, também vamos. Sempre fui muito privilegiada nesse sentido e pude fazer e passar por todas as fases, desde pintar o cabelo aos 15 anos e ir vestida de princesa para a escola quando era mais nova”, explica a designer ao Observador, minutos depois do desfile, que contou com duas colaborações. “Ter podido fazer as peças dos pés à cabeça, todas desenhadas e pensadas por mim, fez uma grande diferença. Tenho as joias da Joalharia do Carmo, que é uma coisa espetacular, todas feitas à mão em filigrana certificada portuguesa, desenhadas por mim. Tirei a joia de filigrana tradicional de um contexto mais sério e coloquei num ambiente muito mais inesperado. Depois os sapatos também, com a Helena Mar, foi espetacular, desenhados por mim. E acho que esse crescimento foi mesmo muito importante.”

Entretanto a passerelle do Pátio da Galé já havia sido estreada por outra designer, que regressa à plataforma Workstation depois de ter passado pelo concurso Sangue Novo. Dri Martins apresenta-se com a marca Drionadream. Das aplicações em 3D e tecidos com efeito latex, a designer passa para uma imagem mais ligada aos corsets, com direito a anquinhas, seguindo a narrativa da roupa justa e feminina. Numa visão mais clássica, ARNDES traz à ModaLisboa uma coleção com o tom minimalista dos anos 1990. “Cada um tem sempre um período ou uma altura na moda que acaba por ficar na cabeça. Acho que as minhas referências são muito por aí. Era uma elegância mas num tom muito discreto”, começa por dizer Ana Rita de Sousa, o nome por trás da marca. “Inspiro-me muito nos materiais que vou recolhendo para a coleção”, diz a designer, que usa muito peles, sedas e malhas, e também fez uma colaboração com a marca portuguesa de calçado JJ Heitor.

Çal Pfungst traz uma coleção que traduz a sua “grande obsessão pelos clássicos do traje, bem como pela contemporaneidade e pelo trabalho de modelação”, diz o designer, que é também figurinista, e costuma apresentar coleções com um toque teatral — seja pela música, a maquilhagem artística, ou também pelas peças.”Peguei um bocado no riding coat e transformei-o, desdobrei-o.” Os casacos vieram em veludo vermelho, junto com coordenados em bombazines rosa e azul e casacos, ou capas de burel. “Tento deixar-me influenciar ou inspirar por livros, filmes, música, e neste caso houve assumidamente o inspirar nestas formas mais clássicas, da época vitoriana”, afirma o criador.

Bárbara Atanásio fecha a participação da plataforma Workstation com o seu streetwear — muitas peças em ganga, sobreposições e misturas de peças oversized com padrões como o xadrez ou as listas, numa paleta de cores que ficou pelos castanhos, azuis e pretos. A coleção chama-se Fica-te Mal, inspirada pelo poema Ortofrenia, de Mário Cesariny. “Ortofrenia significa a arte de corrigir tendências intelectuais e morais. E foi isso aliado à questão da herança. Portanto, muito o que nós herdamos dos nossos pais e da sociedade, mas que ao mesmo tempo são os nossos pais e a sociedade que corrigem e dizem, não, não, isso fica-te mal, não devias fazer isso”, explica ao Observador a criadora. “Traduz-se nas muitas peças que vieram de roupas que os meus pais e os meus avós usavam. Por exemplo, os coletes, a questão do colete de pesca. Os materiais, uso sempre muita ganga, mas desta vez foi uma ganga com desgaste pela passagem do tempo, mas ao mesmo tempo com uma rebeldia que nos fica mal. Mas é muito um fica-te mal que nós assumimos como nosso. Eu sei que me fica mal e eu estou-me a cagar, sou eu, e eu quero fazer isto.”

Trabalho manual e upcyling premiados no Sangue Novo

A sexta-feira ainda foi dia de premiar os jovens designers do concurso Sangue Novo. Ariana Orrico foi a escolhida pelo juri para uma residência criativa de um mês na Burel Factory, com acompanhamento técnico e criativo da equipa de design, permitindo o desenvolvimento de peças em materiais da marca e a sua apresentação numa coleção em nome próprio na plataforma Workstation da ModaLisboa, além de uma bolsa de mil euros. Na passerelle a criadora de 22 anos apresentou uma coleção que desafia os limites da masculinidade. “Quis brincar um pouco com silhuetas e texturas, e usei muito a pele nesta coleção, uma experimentação para ver como é que este material, que é super tradicional, também pode ter outro aspeto, mais flexível”, diz a jovem, que está a concluir o mestrado em Design de Moda na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. Costuma usar material de upcycling e deadstock, que reflete a intenção desta geração em fazer uma moda mais sustentável. “Para além de ter essa procura de restos da indústria, também tenho a preocupação de procurar materiais como a pele, que é durável, dura uma vida inteira”.

Ariana vem de uma família de artistas e conta que o avô era alfaiate e fazia fardas para o exército. “Nunca o conheci, mas só pelas histórias e conversas, é algo que passou pela família”, recorda, sobre o interesse pela moda. E é também no saber de família que se apoia o trabalho de Mafalda Simões, a vencedora do prémio principal do concurso, um Master’s Program em Fashion Design Istituto Europeo di Design em Roma ou em Fashion Marketing em Milão, além de uma bolsa de 4 mil euros.

“Todas as mulheres da minha família tricotam e fazem crochet, fazem imensas atividades manuais. Sempre estive cercada por essas atividades, mas só comecei realmente a praticar na quarentena”, diz ao Observador a jovem designer, que já fez um programa de estágio com Constança Entrudo, onde desenvolveu ainda mais a habilidade. “A minha coleção é sobre a necessidade de continuar a criar, mesmo quando o ambiente a nossa volta é opressivo. E fala do corpo humano como o material mais resistente e mais forte. O corpo humano é magoado, é reprimido, é esticado e volta sempre ao lugar, e é um pouco uma metáfora que eu tento passar com as minhas malhas”, explica Mafalda. Na plateia, a criadora tinha a família a apoiá-la, incluindo a mãe, que não conteve a emoção quando a filha recebeu o aplauso do público. Vestia um casaco que Mafalda tricotou há um ano. “Foi das minhas primeiras peças”, assume. Cada peça foi confecionada entre a faculdade e a própria casa. E a mãe, afinal, também teve um papel importante nesta coleção. “Na verdade estas técnicas são construídas à volta de comunidades. Há imensa gente de várias idades que conhece, que aprecia e que oferece ajuda”. O seu trabalho manual traduz-se em camisolas estruturadas com volume, e textura, com fios coloridos e uma apresentação mais feminina e romântica. Um estilo que pode conquistar um grupo de fãs próprio — e garantir também a Mafalda Simões um gangue para a próxima edição.