Muitos pais, muitos miúdos, muito desporto a começar o dia. Se no Pavilhão João Rocha não era um sábado qualquer, com o recinto a ser preparado na última semana para afinar todo o processo eleitoral do Sporting (o que fez com que algumas equipas tivessem de atuar noutros locais nos derradeiros compromissos), a zona do Multidesportivo de Alvalade tinha um sábado como qualquer outro: os pequenos atletas do triatlo todos juntos nas suas bicicletas para seguir a marcha, outros atletas das equipas da formação a juntarem-se, outros ainda a passar a parte dos torniquetes antes ou depois de um treino. Num universo com dezenas e dezenas de modalidades, o início da manhã trazia a habitual azáfama. A dois minutos a pé, a porta de entrada para o palco das outras decisões já tinha fila. Umas 50 pessoas até à curva, mais umas 100 na continuidade.
Não houve propriamente uma pontualidade britânica mas, ainda antes das 9h10, todos puderam começar a entrar no Pavilhão João Rocha. Como a entrada podia ser feita por três caminhos que davam à mesma porta, houve fila para votar durante menos de cinco minutos. Aliás, essa foi mesmo uma exceção num dia de total tranquilidade, que abrandou a cadência de entradas no recinto ao início da tarde devido à chuva, que não teve qualquer tipo de nota extra ou “incidente” e que teve pouco a ver com aquilo que se passara em 2018 e em 2022. Por um lado, e olhando para a realidade de 2018, era um Sporting que atravessava uma das maiores crises institucionais da sua história e tinha um número recorde de seis candidato. Por outro, e comparando com 2022, era um Sporting que jogava em Alvalade às 20h30 para o Campeonato (Arouca).
Foi por isso que, desde cedo, todas notas sobre votantes, votos e recordes começaram a ser arrumadas pela cadência de associados que iam surgindo em Alvalade, todos a terem logo na zona da entrada o encontro com uma figura conhecida de todos e que parece continuar a somar clubes para apoiar: Fernando Jorge Santos, adepto mais conhecido por Emplastro que há largos anos aparece atrás dos jornalistas em muitos jogos e momentos relevantes dos principais clubes, estava junto ao Pavilhão João Rocha tendo consigo o cartão de sócio… do Benfica. Há muito que foi identificado como adepto do FC Porto, surgiu várias vezes no Sporting (e em espaços ligados ao clube como o Cantinho do Sá, por exemplo), agora “virou” para as águias. Ainda assim, nem por isso deixou de ir cumprimentando alguns sócios mais “mediáticos” nessa zona.
Ainda nessas horas iniciais, quando João Palma, presidente da Mesa da Assembleia Geral que orientava o seu último grande momento como número 1 por estar de saída dos órgãos sociais, dava conta de 1.000 votantes na primeira hora, passaram pelo Pavilhão João Rocha figuras como os antigos atletas Miguel Garcia (futebol) e Augusto Baganha (basquetebol), vários elementos da atual formação de andebol como os irmãos Martim e Kiko Costa, Salvador Salvador, Ricardo Costa, Ricardo Candeias ou Carlos Carneiro, entre outros, que estavam acompanhados pelo vice Miguel Afonso, os ex-dirigentes Paulo Andrade e Aureliano Neves ou António Dionísio, sócio que ficou em coma durante alguns dias em 1995 no episódio da queda do varandim de Alvalade que acabou por vitimar dois adeptos verde e brancos, José Gonçalves e Paulo Ferreira.
Bruno Sá foi o primeiro dos candidatos a votar no Pavilhão João Rocha. Acompanhado da família, de mão dada com a filha (com um Jubas XL ao colo) e ao lado da mulher, Andreia, e da mãe, chegou também com alguns elementos da lista, votou e regressou depois à zona destinada a toda a imprensa para falar sobre a relevância do dia. “É um dia muito importante para o Sporting e para mim. É uma alegria muito grande ver esta romaria de sócios ao Pavilhão e à volta deste clube, é a grande essência do Sporting. Venho apelar ao voto e à democracia, é muito importante que venham votar hoje, pelo Sporting, sempre. O que é possível ter? Acho que não é altura de estarmos a falar sobre isso. Acho que é bonito ver isto e de haver novamente democracia no Sporting. Questões sobre os boletins de voto? Hoje é importante os sócios virem aqui votar. Depois, o futuro mostrará as outras coisas todas”, começou por dizer o empresário de 45 anos.
“Discurso preparado para o final da noite? Não penso nisso agora, a essência do meu projeto e da minha ideia é devolver o clube aos sócios e à democracia. Se hoje vou abrir o restaurante? Não sei, não vou lá estar. Hoje vou passar o dia com a minha família. Têm sido meses muito desgastantes, a ouvir muita gente e quase sempre fora de casa. É importante haver democracia. É importante ver os adeptos em torno do clube e sentirem que fazem parte, é isso que defendo e é por isso que eu estou aqui. Como já perceberam, eu sou uma pessoa de pessoas, com câmaras fico um bocadinho nervoso, mas quem me conhece sabe o que pode contar de mim e o quanto o Sporting importa para mim”, prosseguiu Bruno Sá, antes de falar de Rui Borges.
“Temos de avaliar no final da época, não sou eu quem vai tomar as decisões, ainda não está decidido. Acho que não é importante falar sobre isso agora e criar essa narrativa. Peço desculpa aos sócios porque tinha uma série de perguntas para fazer no debate, queria muito fazê-las, por eles, por mim. Queria expor as minhas ideias, mas o importante é que tenham lido o meu programa e que hoje decidam e que decidam bem. Eles sabem a minha forma de estar. Hoje, o foco é estar nos sócios. Recandidatura em 2030? Os sócios é que decidem, já disse que o mais importante são os sócios. Eles é decidem, são os mais importantes. Para mim, o mais importante é voltar a reunir a família leonina”, concluiu o empresário depois de votar.
Várias figuras foram continuando a passar pelo Pavilhão João Rocha, num ambiente que poderia ser quase considerado “estranho” tendo em conta muitos outros atos eleitorais dos leões este século. Aliás, aquilo que se via era sobretudo pequenos grupos de pessoas amigas mais a aproveitar para colocarem a conversa em dia do que propriamente para estarem a falar sobre o presente e o futuro do clube. Hilário, jogador com mais encontros oficiais pelo Sporting, o antigo hoquista Pedro Gil, o treinador do basquetebol Luís Magalhães com o adjunto Ivan Kostourkov, o antigo líder do Grupo Stromp Tito Arantes Fontes, o ex-diretor do hóque em patins Gilberto Borges, o ator Pedro Granger, a apresentadora Vanessa Oliveira, o antigo líder da Mesa Rogério Alves, o ex-judoca João Pina, o antigo conselheiro leonino Zeferino Boal ou os técnicos do futsal Nuno Dias e Paulo Luís foram votar ao final da manhã, tal como os antigos candidatos João Benedito, acompanhado de outros elementos da lista apresentada em 2018, e Pedro Madeira Rodrigues.
Estava a chegar a hora do outro candidato, neste caso o atual presidente, Frederico Varandas. Depois de ter dado alguns autógrafos e de ter tirado algumas fotografias ainda na zona do Multidesportivo, desceu até ao Pavilhão João Rocha com a mulher, Katarina Larsson, também ela antiga atleta do triatlo verde e branco, e dos filhos, Santiago e Petra, que levava pela mão. Desta vez sem fato e gravata, com uma roupa mais casual de fim de semana, o líder leonino que procura avançar para o terceiro mandato falou antes de votar, num discurso com muitos pontos de contacto com o que tivera em 2022, quando foi reeleito.
“Espero que os sócios compareçam em força. Este é o dia mais importante enquanto sócio porque é o dia em que decidem quem vai governar o clube nos próximos anos, independentemente de o momento do clube ser bom ou mau. Este é o dia mais importante de toda a sua atividade enquanto sócio, votem na lista A ou na lista B. A principal missão de um sócio é cuidar do seu clube. Que os sócios façam o seu julgamento, a sua análise, porque precisamos de um Sporting forte e competente. Discurso da vitória? Não, nunca escrevo esses discursos”, apontou de forma resumida, “fugindo” depois à questão sobre a renovação de Rui Borges.
Frederico Varandas voltou depois a ser o foco de todas as atenções quando saiu pela porta do lado contrário do Pavilhão (a par dos filhos, no caso de Santiago por levar a camisola 9 com o nome Thor e no caso de Petra pela boneca que levava sempre na mão que não estava com o pai), cruzando-se à saída com outra das caras conhecidas que passou este sábado por Alvalade, António Leitão Amaro. Um abraço, algumas palavras de circunstância com o ministro da Presidência, mais uns metros a ouvir palavras de incentivo por parte dos associados que estavam pela zona enquanto se encaminhava de novo para o Multidesportivo na esperança de regressar mais à noite quando fossem conhecidos os resultados oficiais.
A chuva que foi caindo não de forma insistente mas de uma maneira contínua começou depois a travar a afluência às urnas, com o antigo líder da Mesa, Eduardo Barroso, o diretor técnico da Academia, Tomás Morais, e o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, a passarem pelo Pavilhão João Rocha antes de uma fase, sobretudo a partir das 16h, em que começou de novo a haver mais associados. “Está a correr tudo muito bem. É verdade que a chuva veio incomodar agora um bocado mas parece que é passageira e os sócios poderão vir votar porque não apanharão chuva – e se apanharem, faz parte. Está a ser tudo dentro da maior das normalidades, num ambiente excelente de cordialidade”, apontava João Palma às 14h15.
“Estas eleições não são comparáveis às de 2018, na altura houve uma adesão grande. O Sporting passava por uma crise grave, os sócios sentiam-se incentivados a participar nas eleições e havia, presumo, três ou quatro listas [n.d.r. seis listas]. Agora só houve duas e as eleições ocorrem num momento absolutamente pacificado. Portanto, a responsabilidade que os sócios sentem agora poderá não ser tão intensa quanto dessa vez. Já votaram cerca de 5.500 a 5.600 pessoas pelos últimos números a que tive acesso. Só no fim é que saberemos quantos votantes e respetivos votos é que houve”, acrescentou nessa fase o líder da Mesa.
Mais tarde, pouco depois das 18h, a votação de 2022 já tinha sido superada pelos votos por correspondência, cerca de 6.000, a que se juntavam mais 10.000 votos presenciais. “Tem sido uma boa afluência apesar de não ser dia de jogo. Há fluidez, facilidade em votar, quem ainda não veio pode vir porque é um processo muito rápido deste à entrada até à saída. Foram enviados por correspondência cerca de 25 mil envelopes para os sócios que residem fora da Área Metropolitana de Lisboa. Recebemos 6.233 votantes. Em termos gerais, exerceram o direito de voto cerca de 16 mil sócios”, frisou João Palma, explicando que esses votos, mesmo havendo muitos que podiam não “contar” por não cumprirem todos os requisitos necessários, iriam sempre entrar na contabilidade final porque não deixava de ser uma expressão de vontade dos associados.
“Quando convoquei a Assembleia Geral Eleitoral para hoje [sábado] estava a contar que iria haver o jogo com o Tondela, jogo esse que, por bons motivos, teve de ser adiado. Estou convencido de que se tivesse havido jogo, a votação seria bem mais expressiva. Tendo em conta que não há esse jogo, considero razoável. Um presidente de Mesa nunca pode ficar contente porque num universo de 75.000 votantes a margem para crescer podia ser maior”, acrescentou nessa fase em que continuavam a entrar muitos sócios no Pavilhão João Rocha, por onde passaram à tarde João Simões, outros elementos do futebol como o diretor-geral Bernardo Palmeiro, o treinador Tiago Ferreira, o preparador Gonçalo Álvaro, o roupeiro Paulinho ou o antigo capitão Pedro Barbosa, além de Carmona Rodrigues, antigo líder da Câmara Mundial de Lisboa, entre outros.
No final, antes de serem conhecidos os resultados, conheceu-se o número total de sócios que exerceram o seu direito de voto de forma presencial ou por correspondência: 18.268 sócios, o que faz deste sufrágio o terceiro mais participado de sempre apenas atrás da primeira eleição de Frederico Varandas em 2018 (22.400) e da reeleição de Bruno de Carvalho em 2017 (18.755), superando o registo do ano de 2022 (14.795).