Um grupo de manifestantes vandalizou e incendiou este sábado um escritório do Partido Comunista Cubano na cidade de Morón, no centro da ilha, numa da mais violentas e visíveis demonstrações de descontentamento contra o regime até ao momento, noticia a agência Reuters.
O protesto começou de forma pacífica na noite de sexta-feira, mas evoluiu para confrontos violentos durante a madrugada e culminou no ataque contra o edifício do partido, diz a agência, citando vários meios de comunicação locais.
Ao longo das últimas semanas, os cubanos têm protagonizado manifestações diárias contra o regime, particularmente fragilizado por uma crise energética que se tem traduzido em apagões frequentes e impedido a vida normal de trabalhadores e estudantes por todo o país.
A situação em Cuba agravou-se especialmente depois do ataque norte-americano contra a Venezuela — o principal aliado do regime cubano na região — e da captura do Presidente daquele país, Nicolás Maduro, em janeiro deste ano. Desde então, os EUA não só intensificaram as sanções económicas contra Cuba como também bloquearam o envio de petróleo venezuelano para o país, cortando a principal fonte de energia do território cubano.
Ao mesmo tempo, Donald Trump tem repetido as ameaças ao governo cubano, prometendo que, depois de intervenções na Venezuela e no Irão, Havana será a próxima a cair.
O agravamento da crise energética levou o governo cubano a implementar medidas de racionamento da energia e dos combustíveis (como, por exemplo, cancelando as aulas presenciais nas universidades), deixando os residentes à beira do desespero e levando-os às ruas para protestar contra o regime e para exigir mudanças.
Esta sexta-feira, o governo cubano assumiu já ter iniciado conversações com os Estados Unidos para tentar resolver a situação. “Estas conversações têm como objetivo encontrar soluções, através do diálogo, para as diferenças bilaterais entre os dois países”, afirmou o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, sublinhando que o objetivo é evitar uma “confrontação” entre Cuba e EUA.
A Casa Branca confirmou ter canais de diálogo abertos — e, esta semana, Trump chegou mesmo a dizer que poderá haver uma tomada de poder “amigável ou não” em Cuba por parte dos EUA.
Cuba “já não vive da Venezuela, que não lhes envia energia, combustível, petróleo, dinheiro nem nada”, disse Trump.
Com a crise energética a agravar-se, muitos cidadãos têm saído à rua para protestos — uma realidade relativamente rara em Cuba e, como diz a Reuters, e que é complexa do ponto de vista legal. Se em 2019, a constituição cubana deu aos cidadãos o direito de se manifestarem, a verdade é que esse direito ainda não foi regulamentado, criando um vazio legal.
Na madrugada deste sábado, um grupo de manifestantes envolvidos no protesto da noite de sexta-feira acabou por entrar em confrontos com a polícia e por atirar pedras contra a sede municipal do Partido Comunista na cidade de Móron. Depois, os manifestantes incendiaram algum mobiliário do edifício.
As autoridades garantiram que ninguém ficou ferido por armas de fogo, depois de circularem nas redes sociais vídeos que alegadamente mostrariam um manifestante atingido a tiro pela polícia.
De acordo com a Reuters, cinco pessoas foram detidas e um participante, sob o efeito de álcool, teve de receber tratamento hospitalar.