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Batalhas perdidas e pecados dos Óscares: 11 vezes em que a Academia falhou

Um ano atrás do outro, teme-se que se repita. Entre os nomes desprezados estão génios como Hitchcock, Scorsese, Kubrick e até Spielberg. Num ano de algumas dúvidas, recordamos grandes falhanços.

Joana Stichini Vilela
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Olha-se por um lado, olha-se pelo outro, e o número não muda. Quando muito, pode aumentar, com um olhar mais prolongado. Acusada de ceder a pressões políticas, comerciais ou, apenas, vistas curtas a Academia atribui os prémios mais populares e polémicos do cinema. Entre as vítimas, estão alguns dos maiores nomes de sempre.

Há algo de podre no reino de Hollywood

1999 e “A Paixão de Shakespeare”

Quer primeiro a boa notícia ou as más? Vários estudos indicam que a maior parte das pessoas prefere começar pelas más. Por exemplo, que num ano em que se esperava a consagração de Steven Spielberg pelo épico O Resgate do Soldado Ryan (primeiros 27 minutos com bilhete direto para o Olimpo do Cinema) ou que teria sido apreciada uma vitória do bem regressado Terrence Malick A Barreira Invisível (favorito de Scorsese e de todos os fãs de Dias do Paraíso), ambos sobre a Segunda Guerra Mundial, pejados de grandes atores, e abordagens tão originais como eficazes a mostrar o horror da guerra, a Academia coroou uma comédia romântica bem esgalhada, espirituosa, sabor único: água com açúcar.

Não se lembra do nome? Não se preocupe. De novo, está com a maioria. A mesma que, com grande probabilidade, recordará a interpretação sublime de Cate Blanchett no papel de Isabel I, “a rainha virgem”, em Elizabeth, com que varreu os prémios para melhor atriz que antecedem os óscares, mas também do papel da vencedora, Gwyneth Paltrow, quando ouviu o seu nome e improvisou um agradecimento emocionado e ininteligível. Sendo justos, foi comovente. Também a protagonista do filme da noite estava incrédula com a vitória.

Ao todo, em março de 1999, A Paixão de Shakespeare ganharia sete óscares, secundada pelos cinco de O Resgate do Soldado Ryan, a maior parte em categorias técnicas. Com sete nomeações e zero distinções e seis nomeações e apenas uma subida ao palco (Melhor Caracterização), a A Barreira Invisível e Elizabeth, respetivamente, juntar-se-iam à 7.ª arte e aos cinéfilos em geral como grandes derrotados da noite. Pouco se especularia sobre as razões para a sucessão de desaires, porque o motivo, de uma forma ou de outra, tinha chegado a todos os que acompanham os bastidores da cerimónia: a arrasadora campanha de marketing feita nas semanas anteriores pelo produtor Harvey Weinstein.

Quanto à boa notícia, Spielberg ganhou o segundo Óscar para Melhor Realizador, depois de A Lista de Schindler. Diz a ciência que acabar com as notícias positivas deixa as pessoas mais bem-dispostas. Resultou?

O melhor filme de sempre sai derrotado

1942 e “Citizen Kane”

Até pode não concordar, mas basta consultar jornais, revistas, sites ou livros sobre cinema e constatará que existe uma quase unanimidade em torno daquele que será o melhor filme de todos os tempos. Só não vale a pena recorrer à lista de vencedores dos óscares, porque, apesar de nomeado em nove categorias, Citizen Kane só ganhou numa, Melhor Argumento Original (Orson Welles e Herman J. Mankiewicz – eternizado na sua obra e no biopic Mank ). De resto, perdeu nas categorias para Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhor Direcção de Arte, Melhor Som, Melhor Banda-Sonora, Melhor Actor (Orson Welles), Melhor Realizador (Orson Welles) e Melhor Filme (Orson Welles).

Também derrotado saiu outro futuro clássico, um dos 25 primeiros filmes escolhidos para a Biblioteca do Congresso e um marco absoluto na definição do film noir americano, O Falcão Maltês. Com três nomeações, incluindo Melhor Filme, a estreia de John Houston na realização, protagonizada por Humphrey Bogart, não ganharia qualquer prémio.

Num ano de grandes filmes, houve um terceiro perdedor: Sargento York, de Howard Hawks, outro incontornável da realização, que, dos nove óscares para que foi nomeado, ganhou apenas dois, Melhor Ator para Gary Cooper e Melhor Montagem.

Já John Ford, com O Vale era Verde, faria do duo de óscares que já tinha (O Informador, 1935, e As Vinhas da Ira, 1940) um trio. Lenda viva dos anos de ouro de Hollywood, Ford chegaria ao tetra da realização com Depois do Vendaval (1952). Quase tantos prémios como os atribuídos à adaptação do romance do galês Richard Llewellyn, cinco: Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Ator Secundário e, lá está, Melhor Realizador e Melhor Filme.

“Obrigado”, disse Hitchcock

1958 e “Vertigo”

A 7.ª arte tem muito a agradecer a Alfred Hitchcock, mas o mestre do suspense pouco ou nada ficou a dever à Academia. Apesar de nomeado cinco vezes na categoria de Melhor Realizador, nunca ganhou, mesmo quando Rebecca – A Mulher Inesquecível, de 1940, foi considerado o melhor do ano, com óscares para Melhor Filme e Melhor Fotografia.

Em 1955, Janela Indiscreta recebeu quatro nomeações, incluindo a quarta de Melhor Realizador para Hitch, mas perdeu em todas as categorias. Há Lodo no Cais, de Elia Kazan, com Marlon Brando, seria o vencedor da noite. Seguir-se-iam clássicos como Ladrão de CasacaO Homem Que Sabia DemaisVertigo – A Mulher Que viveu Duas Vezes, Intriga Internacional, Psico e Os Pássaros, de um total de 50 fitas realizadas ao longo de mais de 50 anos.

O caso mais escandaloso será o do thriller psicológico Vertigo, com críticas contraditórias à época, nomeado em duas categorias técnicas (Direção de Arte e Som) e hoje considerado não só o mais importante do britânico como um dos melhores de todos os tempos. Vale a pena espreitar o vencedor desse ano, com nove vitórias nas nove categorias para que foi nomeado: Gigi, uma comédia romântica e musical de Vincent Minnelli, um marco no género.

Sobretudo durante o século XX, os membros da Academia foram acusados de tacanhez. Thrillers, fossem eles cómicos, negros ou psicológicos, ainda mais com finais tantas vezes inquietantes, tinham um selo invisível a dizer, “radioativo”. Mesmo que fossem protagonizados por estrelas como James Stewart, Grace Kelly, Cary Grant e Kim Novak. Já para não falar nas bandas-sonoras de Bernard Herrman, extraordinárias, sim, indissociáveis, sem dúvida, mas tão perturbantes. Centrando-nos em Vertigo, a obsessão, o fetichismo e, no limite, a necrofilia, talvez não fossem temas que a Academia quisesse eternizar.

Já em França, os nomes maiores da Nova Vaga foram dos grandes responsáveis por chamar a atenção para o génio tortuoso de Hitch, com destaque para o interesse de François Truffaut pela obra do britânico. O ápice seria o livro de conversas Hitchcock/Truffaut.

Em 1968, tentando remediar falhas passadas, a Academia atribuiria ao cineasta um Óscar Honorário. O discurso de aceitação, aqui transcrito do início ao fim, diz tudo, “Obrigado”

Academia de Olhos Bem Fechados

Hollywood e Stanley Kubrick

Se dependesse de si, o que escolheria:

  • Dr. Estranhoamor ou My Fair Lady?
  • 2001, Odisseia no Espaço ou Oliver!?
  • Laranja Mecânica ou Os Incorruptíveis contra a Droga?
  • Barry Lyndon ou Voando Sobre um Ninho de Cucos?

Podem parecer, mas não são decisões fáceis. E nem sequer é por, na cerimónia de 1965, além de My Fair Lady (Minha Linda Senhora, em Portugal), também estar na corrida para Melhor Filme Mary Poppins (Mary Poppins, em Portugal).

Sempre que teve um título nomeado para Melhor Filme, o britânico Stanley Kubrick perdeu para filme convencionais, mas aclamados pela crítica e hoje, cada um à sua maneira, clássicos. À distância, são evidentes a longevidade e o impacto da sátira negra em torno da Guerra Fria Dr. Estranhoamor, mesmo que a adaptação ao cinema da peça de George Bernard Shaw, Pigmaleão, seja pelo menos tão encantadora como a protagonista, Audrey Hepburn.

Na cerimónia de 1969, o vanguardista 2001 – Odisseia no Espaço nem sequer esteve na corrida para Melhor Filme, apenas para Melhor Realizador, numa altura em que se comentava que era impossível assistir às duas horas e 29 minutos deste épico de ficção científica sem a ajuda de aditivos. Ainda assim, valeria a Kubrick o seu primeiro e único óscar, mas pelos Efeitos Visuais. O vencedor desse ano seria outra adaptação de um clássico, Oliver Twist de Charles Dickens, versão musical.

Hoje, ao mesmo tempo que 2001 é ensinado nas universidades, com exibições de cenas e transições, o último capítulo de 2001 vai sendo recordado sempre que se fala da desregulação na área da IA. Quanto ao filme mais visto no Natal, já há muito que deixou de se passar na Inglaterra vitoriana para passar a ser Sozinho em Casa.

Conhecido pelo perfeccionismo obsessivo, pela criatividade técnica, pela atração pelos abismo mais negros da humanidade, e pela transversalidade nos géneros cinematográficos, do terror de Shining à brutalidade de Nascido Para Matar, até ao thriller erótico De Olhos Bem Fechados, Stanley Kubrick é um dos maiores e mais influentes cineastas da história do cinema. Entre 13 nomeações para os óscares, quatro foram para Melhor Realizador. A Academia nunca lhe concedeu a honra.

“Pulp Fiction” perde para “Forrest Gump”

E Tarantino continuaria a perder

Forrest correu tanto por essa América fora, que alcançou seis óscares, muitos nas categorias principais: Melhor Filme, Melhor Realizador (Robert Zemeckis), Melhor Ator (Tom Hanks), Melhor Argumento Adaptado, Melhor Edição e Melhores Efeitos Visuais. Seria difícil um filme mais – adaptando um termo apreciado pelos locais – “quintessencialmente” americano. Na história, no protagonista, no realizador, no cumprimento das convenções clássicas de Hollywood e no ideário que transmite.

Pelo caminho ficou um quase estreante, ainda que recém-equipado com uma Palma de Ouro, vinda de Cannes. O trunfo vale é pouco quando se chega ao reino de Hollywood, o que se confirmou na cerimónia de 1995. Já o filme, faria história. Nomeado em sete categorias, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador (Quentin Tarantino), Melhor Ator (John Travolta), Melhor Atriz (Uma Thurman) e Melhor Ator Secundário (Samuel L. Jackson), Pulp Fiction ficou-se pelo óscar para Melhor Argumento Original, mas nos anos que se seguiram tornou-se um dos objetos mais influentes e estudados da cinematografia contemporânea.

Único na estrutura não-linear, nos longuíssimos diálogos, nas referências à cultura pop, na violência gráfica, e em tantas outras idiossincrasias que o próprio criador atribui a uma formação, não universitária, mas enquanto funcionário Video Archives, um clube de vídeo na Califórnia, Pulp Fiction confirmou Tarantino como uma revelação – e a Academia como capaz dos maiores falhanços. Tarantino voltaria a ganhar um óscar para melhor argumento original com Django Libertado, mas, apesar das já quatro nomeações, nenhuma distinção para Melhor Realizador.

O pior espectáculo do mundo

1953 e “Serenata à Chuva”

“O pior” até pode ser um exagero, mas estamos a falar de um filme intitulado O Maior Espectáculo do Mundo, o que traz um certo equilíbrio à coisa. Considerada uma das fitas mais medíocres a ganhar o prémio maior da Academia, será também a única com esta distinção a figurar no livro The Official Razzie Movie Guide: Enjoying the Best of Hollywood’s Worst (Guia oficial dos Razzie: Apreciar o Melhor dos Piores de Hollywood). (Parêntesis de contexto: lado lunar dos óscares, os razzie premeiam os piores do ano.) A cerimónia de 1953 foi a primeira a ser transmitida pela TV, o que poderá explicar a escolha de um sucesso de bilheteira, ainda para mais uma produção megalómana de Cecil B. DeMille (mais uma), realizada pelo próprio, passada num circo. Ainda hoje, o filme é elogiado pelo trabalho dos duplos.

De entre os nomeados, o favorito da crítica seria O Comboio Apitou Três Vezes, de Fred Zinneman, um western controverso pela alegada mensagem anti-caça às bruxas. Nomeado em sete categorias, ganharia em quatro: Melhor Ator (Gary Cooper), Melhor Montagem, Melhor Banda-Sonora Orginal e Melhor Canção Original.

Realmente incompreensível é a não nomeação de Serenata à Chuva (Singing in The Rain, no original) para melhor filme. Obra-prima e intemporal do cinema, não apenas do musical, o filme realizado por Gene Kelly e Stanley Donen foi nomeado apenas nas categorias de Melhor Atriz Secundária (Jean Hagen) e Melhor Banda-Sonora para um Musical, perdendo em ambas. Em 1989, seria um dos primeiros 25 escolhidos pela Biblioteca do Congresso para serem preservados no National Film Registry. Talvez mais importante, ao longo das décadas entraria para as memórias individuais e coletivas de gerações sucessivas, tanto pelas canções, como pelas personagens e o enredo, ele próprio uma homenagem ao início do cinema falado em Hollywood.

Mais uma bronca

1989, ano louco em Hollywood

A tradução do título na versão portuguesa é boa demais para ficar de fora – Não Dês Bronca – mas naquela categoria do bom menos compreendida, aquela do “tão mau que é bom”. Por trás do disfarce onomástico está Do The Right Thing, terceiro filme de Spike Lee e o mais marcante da carreira do realizador. Também na cerimónia dos óscares, Do The Right Thing apareceu, não mascarado, mas discreto, com apenas duas nomeações (Melhor Ator Secundário – Danny Aiello e Melhor Argumento Original – Spike Lee) e nenhuma vitória.

A não nomeação em categorias como Melhor Filme e Melhor Realização torna-se tanto mais chocante quando Conduzindo Miss Daisy (foi uma época difícil na área da tradução) ganhou o Óscar para Melhor Filme – e, ainda, Melhor Atriz (Jessica Tandy), Melhor Argumento Adaptado e Melhor Maquilhagem. Apesar das boas intenções e das interpretações de excelência, Driving Miss Daisy apresentava uma visão das questões raciais muito mais convencional, já para não dizer menos atual ou revolucionária, do que o filme de Lee. Ainda mais difícil de entender seria a vitória de Green Book — O Guia, com o mesmo tipo de temas, daí a 30 anos. De novo, são muitos os membros da Academia e errar é humano. Ou, como se diz em latim, errare humanum est.

Este foi, aliás, um ano de belos filmes e pouca consistência – uma forma simpática de dizer umas quantas broncas. Se o óscar para Melhor Realizador foi para Oliver Stone, por Nascido a Quatro de Julho, o de Melhor Ator coube a Daniel Day Lewis por O Meu Pé Esquerdo e foi Denzel Washington quem ganhou o de Melhor Ator em Tempo de Matar. O único óscar para Clube dos Poetas Mortos foi o de Melhor Argumento. Já Campo de Sonhos saiu de mãos a abanar, mas inscreveu uma grande frase na cultura pop, “If you build it, he will come” (Se o construíres, ele virá). Nesta campeonato, contudo, o prémio de “Melhor Citação” é indiscutível. Nunca a expressão latina carpe diem esteve tão em altas como a partir de 1989. E ainda lhe chamam uma língua morta.

Só na América

1991 e “Tudo Bons Rapazes”

O cineasta nova-iorquino Martin Scorsese já tinha prática de perder. Mas uma coisa é ver Taxi Driver a ser preterido em favor de Rocky, em 1976, ou, em 1980, Raging Bull a seduzir menos gente do que Gente Vulgar, num ano em que também concorriam para melhor filme O Homem Elefante, de David Lynch, e Tess, de Roman Polanski. Outra, é um filme como Tudo Bons Rapazes ser derrotado por Danças com Lobos, produzido, realizado e protagonizado por Kevin Costner, que ganhou nas duas primeiras categorias e ainda nas de Melhor Argumento Adaptado, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Banda-Sonora e Melhor Mistura de Som, num total de sete. Para Goodfellas, um dos melhores filmes de gangsters de sempre e, na opinião de muitos, o ponto alto na carreira de Scorsese, sobrou uma estatueta, a de Melhor Ator Secundário, entregue a Joe Pesci.

Não é que o épico, onda western revisionista, assinado por Kostner tenha algum problema. Há quem lhe aponte imprecisões no retrato da tribo Lakota, detalhes. Mas também os outros nomeados para melhor filme estão cheios de virtudes: Ghost – O Espírito do Amor (Óscar de Melhor Actriz para Whoopy Gldberg); O Padrinho – Parte III, que encerra uma das grandes sagas de Hollywood; e Despertares, adaptação tocante do livro do neurologista Oliver Sacks. Tudo Bons Rapazes é que é fora de série.

Em 2007, Martin Scorsese veria por fim uma criação sua ganhar o Óscar para Melhor Filme e ele próprio ganharia o prémio de Melhor Realizador. O fim da malapata? The Departed: Entre Inimigos. Desde então, o nova-iorquino e uma das maiores figuras do cinema no ativo foi nomeado mais quatro vezes, não só pela realização, como pela produção, mas nunca ganhou.

O apocalipse de um filme

1979 e “Apocalypse Now”

Percebe-se a vitória em 1979 de Kramer Vs. Kramer, um grande filme sobre o divórcio, o impacto na vida dos envolvidos e a parentalidade. As interpretações de Dustin Hoffman e Meryl Streep são brilhantes, o argumento adaptado idem. O resultado, um filme próximo e comovente. Todos seriam, de resto, premiados, tal como o realizador, Robert Benton.

A única questão é que havia um outro nomeado na lista que, com o passar dos anos, foi crescendo em relevância, até se tornar um marco incontornável e acabar assimilado pela cultura popular. Quantas pessoas já terão repetido a frase, “Adoro o cheiro de napalm pela manhã” sem saberem de onde vem? Nomeado em oito categorias, o épico de Francis Ford Coppola sobre a guerra do Vietname, Apocalypse Now, seria o grande derrotado da noite, com prémios para Melhor Som e Melhor Fotografia.

De novo, um filme arriscado, brutal, vindo de Cannes com a Palma de Ouro, onde foi apresentado inacabado, depois de uma série de revezes durante a rodagem, incluindo cenários destruídos por tempestades, Marlon Brando aparecer com excesso de peso e sem qualquer preparação, e Martin Sheen sofrer um ataque cardíaco que quase o matou. Terminado pouco depois, Apocalypse Now é hoje um clássico indiscutível do cinema. Em 2019, 40 anos depois da estreia, Coppola lançou aquela que para ele é a versão final.

“Dark Knight” não é nomeado

2009 e o filme de Christopher Nolan

Revolucionário na adaptação do universo dos comics ao grande ecrã, The Dark Night é considerado um dos melhores filmes de super-heróis de sempre, referência indiscutível daí em diante. Valeu um óscar póstumo a Heath Ledger, inesperado Joker e primeira personagem de BD a ser distinguida desta forma. Nomeado em sete outras categorias, todas técnicas, ganhou o prémio para Melhor Edição de Som. A grande polémica veio de não ter sido incluído na corrida para Melhor Filme. O impacto foi tão grande que a partir da cerimónia seguinte a Academia passaria a escolher dez títulos. Por outras palavras, já sabe quem culpar.

O ano de 2009 foi o da consagração de Quem quer ser Bilionário? (Slumdog Millionaire, no original), realizado por Danny Boyle, também oscarizado. Foi também um ano de concorrência renhida, com os prémios principais distribuídos por vários filmes. Do de Melhor Ator para Sean Penn, em Milk, ao de Melhor Atriz para Kate Winslet em O Leitor, passando pelo de Melhor Atriz Secundária para Penelope Cruz em Vicky Cristina BarcelonaWall-E ganhou o prémio principal na animação, Departures o de Melhor Filme Estrangeiro e O Equilibrista/Man on Wire o de Melhor Documentário.

Quanto a Christopher Nolan, nem sequer foi nomeado para Melhor Realizador por The Dark Night, mas ganharia o prémio mais cobiçado em 2024 com o bem menos interessante Oppenheimer.

O “Tubarão” na sala

Spielberg e a Academia

Se há nome que é sinónimo do sucesso na indústria de Hollywood é o de Steven Spielberg. Pelos êxitos sucessivos, pela imaginação sem limites, pelos temas e géneros abordados. Mas nem sempre foi assim. Não pelos atributos, que sempre estiveram lá, mas pela falta de reconhecimento.

O primeiro elefante na sala data de 1976, quando o blockbuster Tubarão, apesar de nomeado para Melhor Filme, não vale ao realizador uma nomeação. Spielberg recebe até o elogio de Hitchcock, mestre incontestável do suspense, mas o que a Academia premeia é a montagem, a banda sonora (do quase inseparável John Williams) e o som.

A espera por uma nomeação não tarda muito. No ano seguinte, o milagre da ficção científica Encontros Imediatos do Terceiro Grau é indicado em nove categorias, incluindo realização. Ganharia os óscares para Melhor Fotografia e Edição de Som. O prémio para realização vai para Woody Allen por Annie Hall, que também ganha o óscar de Melhor Filme.

Em 1981, nova nomeação para melhor realizador e nova derrota, agora com um épico de aventuras, o primeiro da saga de Indiana Jones, Os Salteadores da Arca Perdida. E no ano seguinte, mais uma. Aliás, mais nove, para E.T. O Extraterrestre. O clássico intemporal e para todas as idades triunfaria nas categorias de Melhor Banda Sonora, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Som e Melhor Edição de Som. Já os prémios para Melhor Realizador e Melhor Filme voltariam a escapar, num ano em que até o grande vencedor, Richard Attenborough, com Ghandi, disse que deviam ter sido Spielberg e E.T. a levar os óscares. Em 1985, novo revés, com o drama histórico A Cor Púrpura.

Só em 1993, com A Lista de Schindler, é que Spielberg sobe por fim ao palco do Dorothy Chandler Pavillion para receber os óscares de Melhor Realizador e Melhor Filme, dois de um total de sete atribuídos a este épico histórico, sobre o industrial alemão que salvou mais de mil judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

As nomeações para Melhor Realizador e/ou Melhor Filme não ficariam por aqui. Ao todo, e incluindo a deste ano, como produtor de Hamnet, são dez. Já óscares foi só um, o de realização por O Resgate do Soldado Ryan, que ainda assim falhou o prémio de Melhor Filme. Esse foi para um dos maiores desaires de toda a história da Academia, A Paixão de Shakespeare.