O aumento dos custos da energia na Europa após a crise desencadeada pela guerra na Ucrânia, em 2022, penalizou a competitividade da indústria do continente face aos Estados Unidos e a várias economias asiáticas, segundo especialistas.
O economista João Borges de Assunção explicou à Lusa que “o diferencial de custos energéticos pós-2022, com gás mais caro e volátil, penalizou a indústria europeia face aos EUA e a vários países asiáticos”.
O professor na Universidade Católica Portuguesa acrescentou que o modelo energético europeu continua vulnerável a choques externos, sobretudo em economias importadoras, como a europeia. “A melhor defesa para este tipo de choques sistémicos na economia global é uma economia flexível, dinâmica, autónoma do Estado e diversificada”, defendeu.
Também Ricardo Cabral considera que as decisões tomadas após a invasão da Ucrânia agravaram a competitividade da economia europeia. Segundo o professor do ISEG — Instituto Superior de Economia e Gestão, “ao sancionar gás natural e petróleo russos é evidente que estamos a prejudicar a indústria e a atividade económica da União Europeia”.
“Embora tradicionalmente os EUA importem pouco petróleo da Rússia (precisamente porque não são geograficamente próximos da Rússia), continuaram sempre, desde 2022, a importar urânio desse país para as suas centrais nucleares”, lembrou.
E acrescentou: “Aliás, os dirigentes da União Europeia estão agora em tal pânico que já falam em revogar as sanções à Rússia e em voltar a importar gás natural e petróleo russos. E os EUA já levantaram as sanções às importações de combustível da Rússia”. Para o economista, estas medidas contribuíram para aumentar os preços da energia e a inflação no continente entre 2022 e 2025.
A crise energética também teve efeitos na transição energética europeia.
De acordo com Ugne Keliauskaite, analista do Bruegel, a União Europeia aumentou a quota de energias renováveis na produção de eletricidade de 37% em 2021 para 48% em 2025.
No entanto, a responsável do ‘think tank’, ou centro independente de investigação e análise de políticas públicas, alerta que os avanços na redução da dependência de combustíveis fósseis continuam limitados, sublinhando que “o progresso na redução da procura de combustíveis fósseis continua a ser insuficiente”. A investigadora acrescenta que a dependência de combustíveis fósseis mantém a Europa vulnerável a novos aumentos de preços quando os mercados globais de energia se tornam mais restritos.
“Nestas condições, quaisquer choques adicionais podem agravar a situação, como fenómenos meteorológicos extremos que afetem infraestruturas energéticas ou um inverno excecionalmente frio que aumente a procura”, assinalou.
Já João Borges de Assunção diz que a crise acelerou “politicamente” a transição energética na Europa “com metas e reformas de mercado”, mas “tornou-a mais cara e frágil”. “A União Europeia precisa de rever as suas políticas energéticas e ambientais”, o que, na sua visão, “só será possível com um governo alemão forte e com capacidade de liderança nesta área. Isso ainda não aconteceu”.
Para Ricardo Cabral, a “guerra Rússia-Ucrânia veio por a nu que a transição energética da UE tinha outros objetivos políticos que não o combate ao aquecimento global”. “Se tivesse algum dia sido prioritário, nunca se teria sancionado o gás natural russo” e “também se teriam encetado negociações com a Ucrânia e com a Rússia tendo em vista um acordo de paz e ter-se-ia apelado aos EUA e a Israel para não iniciar a guerra com o Irão, em vez de apoiar explicitamente ou tacitamente a continuação dos dois conflitos bélicos”, defendeu.
A escalada que tem sido registada nos preços da energia reflete o agravamento da situação no Médio Oriente após o ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irão, a 28 de fevereiro, e o encerramento do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção global de petróleo e quase 20% do gás natural liquefeito (GNL).