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O liberalismo é uma maratona

Ao alinhar-se no atual “bloco da direita”, que vive de slogans e reações, um partido liberal perde aquilo que o distingue: densidade e visão. No meio do barulho, o liberalismo vira som ambiente.

Bruno Mourão Martins
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A Iniciativa Liberal apareceu no panorama político português como uma lufada de ar fresco. Não era só “mais um partido”: era um projeto de contracultura, de alternativa a décadas de estatismo, estagnação e contra o vício nacional de presumir que o Estado é pai, mãe, tutor e vizinha de baixo que se intromete em tudo. E posso dizê-lo, sem rodeios, enquanto fundador: O partido foi pensado para ser uma maratona. Construir um espaço liberal num país onde “liberal” era quase um palavrão não se faz com sprints ou atalhos. Consegue-se com tempo, criatividade e coerência, até que a ideia entre na cultura política portuguesa.

No entanto, os tempos mudam, as tentações são fortes e por vezes podemos deixar-nos levar, enganamo-nos nas decisões e desviamo-nos das pistas onde queremos correr. A melhor fórmula para o evitar é não nos afastarmos dos princípios que nos fizeram crescer. Vamos, por exemplo, imaginar – exercício meramente teórico – que a Iniciativa Liberal decide deixar de se designar liberal para se posicionar somente como sendo mais uma força no “centro-direita”. Tentei nove vezes. Falhei nove vezes e confirmei que não valia a pena.

Validação 1 — Identidade (ou “de quê mesmo?”): Um partido liberal, em Portugal, precisa de ser liberal. E de se afirmar aos quatro ventos como liberal. Ponto. Se decide entrar no “eixo dos outros”, como sendo mais um de “centro-direita”, entra numa pista já lotada, com operacionais das máquinas e histórias esquisitas e com eleitorado fidelizado. Resultado: deixa de ser alternativa e passa a ser… redundante. E redundâncias não mudam países nem melhoram a vida de ninguém.

Validação 2 — Perceção não é estratégia: Sim, as pessoas tendem a considerar um partido liberal com algo de “centro-direita”, especialmente devido às suas políticas económicas. E está tudo certo com isso. O problema é achar que mudar a geografia ideológica dá votos por si só. Ninguém vota com base numa espécie de GPS doutrinário. As pessoas votam quando conseguem perceber, de forma clara e intuitiva, como é que as propostas liberais lhes aumentam o rendimento, lhes permitem comprar casa, lhes abrem oportunidades e lhes simplificam a vida.

Validação 3 — A armadilha da “direita sem social”: Ao empurrar o liberalismo para o campo do centro-direita em Portugal, ele passa a herdar automaticamente toda a carga simbólica da direita, incluindo a perceção errada, mas enraizada, de que “a direita não tem preocupações sociais” — uma narrativa matraqueada durante anos pela esquerda com enorme eficácia, apesar da flagrante desonestidade conceptual. Ainda assim, isto encosta o liberalismo a um rótulo velho e falso, considerando que o liberalismo tem na sua essência preocupações sociais próprias: mobilidade social, igualdade de oportunidades, educação que funciona, proteção dos vulneráveis com sistemas eficientes (não paternalistas). Se não há um problema de perceção na economia, ele existe no social — e nenhum se resolve mudando de campo. Resolve-se com propostas claras e comunicação contundente.

Validação 4 — O termómetro interno: Quando só um grupo específico — especialmente o que é oriundo do CDS — fica satisfeito com a mudança, a opção não traduz união. É um alarme. Um partido liberal não é terapia de grupo para saudosismos ideológicos. Existe para criar um espaço novo, reformista, de irreverência e que provoque até algum incómodo. Se a mudança agrada sobretudo a quem já tinha determinada matriz, não significa crescimento. Pelo contrário…

Validação 5 — Pessoa ≠ partido: Uma candidatura personalizada pode correr bem no “centro-direita” devido à natureza da eleição, ao carisma do protagonista e à conjuntura política. Contudo, um partido não vive de colagens emocionais, mas, sim, da sua própria identidade, da coerência dos princípios que defende e da base social que pretende consolidar. Misturar “a pessoa que funcionou” com “o partido que agora muda” é um clássico erro de gestão. Até pode valer para um bom sprint (provavelmente, nem isso), mas a gestão precipitada acaba por ser pagar a médio/longo prazo.

Validação 6 — O legado político não é um acessório: A IL ganhou reputação pela coerência. Podia não saber-se o detalhe do resultado, mas (re)conhecia-se o rumo. Se agora se troca princípios por encaixes pseudo táticos, as medidas liberais transformam-se e passam a parecer uma extensão de agendas alheias. E aí vem a parte nefasta: as contradições. Diz-se “liberdade económica” ou “reformista”, mas abraça-se uma lógica política que se rendeu ao estatismo, ao corporativismo e às clientelas. O resultado vai ser a credibilidade a dissipar-se cada vez mais.

Validação 7 — O ruído mata o sinal: Ao alinhar-se no atual “bloco da direita”, que vive de slogans e reações, um partido liberal perde aquilo que o distingue: densidade e visão. No meio do barulho, o liberalismo vira som ambiente. E som ambiente não ganha votos — na verdade, ninguém lhe presta atenção.

Validação 8 — A arena populista é cair no lamaçal: Na mesma linha do ponto anterior, a ideia de que “vamos reposicionar-nos para tirar votos ao populismo” é, permitam-me, tonta. O eleitorado populista não escolhe por coerência ideológica, mas seduzido por emoção, protesto, ressentimento e respostas fáceis. Se tentar competir aí, um partido liberal não só não conquista os eleitores dos populistas como ainda perde os seus. Combater demagogia não é imitá-la: é ser sério, competente, profissional, concreto e, insisto, passa por explicar soluções de forma simples como gente adulta.

Validação 9 — O futuro não se faz em modo de campanha permanente: O espaço liberal não se constrói em ciclos eleitorais. Constrói-se como uma maratona cultural, criando quadros, aumentando literacia, confiança e atraindo a juventude para aderir e ficar. Tal não é possível com táticas de curto prazo. Faz-se com consistência, repetição, coerência e comunicação simples, prática, útil — aquela que resolve problemas reais.

Conclusão: a Iniciativa Liberal não pode perder a sua matriz e o seu posicionamento, pelo contrário deve continuar a afirmá-lo persistente e veementemente. Exige-se-lhe que tenha a coragem de olhar para si com os olhos de quem é na verdade e que aceite que o seu crescimento é mais paulatino e gradualista do que o de outros. Projetos políticos sólidos crescem com fundações fortes, camada a camada, consolidando-se no tempo. O espaço liberal em Portugal não se afirma por aceleração artificial, mas através de paciência estratégica e crescimento orgânico e coerente.

Qualquer reposicionamento noutro espaço que não o liberal falha nos planos estratégico, programático e institucional. Compromete a identidade e a ambição intergeracional e aniquila a diferenciação política e comunicacional. Pelas validações que apresentei acima, qualquer (hipotético) reposicionamento não supera o teste do algodão. Insistir num cálculo errado não é pragmatismo — é teimosia. Portugal já tem teimosia que chegue.