Ainda antes de a operação Epic Fury ganhar cadência, Madrid proibiu que as bases de Rota e Morón fossem usadas para operações ligadas aos ataques ao Irão e a consequência, pouco sentimental, foi imediata: quinze aeronaves norte-americanas (sobretudo reabastecedores KC-135) abandonaram essas bases nos dias seguintes. A política interna pode chamar-lhe “posição de princípio”. A logística chama-lhe “risco”.
O problema não é que a Espanha quisesse evitar ser lida como pressuposto automático de disponibilidade, como simples extensão reflexa dos intuitos belicosos de Washington. Esse impulso é politicamente compreensível. Um governo pode querer marcar soberania, distância, controlo político e recusa de automatismos. O problema é outro: num sistema de alianças, a diferença entre autonomia e dissidência nem sempre é julgada pelas intenções de quem decide, mas pelo contexto em que a decisão cai. E o contexto de Madrid, neste momento, é o de um aliado visivelmente isolado dentro da NATO.
Esse isolamento não nasceu com a guerra. Em Junho de 2025, quando a NATO fechou a nova meta de 5% do PIB até 2035, a Espanha pediu uma fórmula de exceção, afirmou que 2,1% bastariam e tornou-se a única aliada a ficar de fora do compromisso comum, depois de ter sido em 2024 o membro com menor despesa em defesa, com 1,28% do PIB. É aqui que a posição espanhola muda de cor: aquilo que Madrid gostaria de apresentar como soberania criteriosa passa a ser lido, por muitos aliados, como mais um capítulo da sua excentricidade estratégica. Não como independência madura, mas como indisponibilidade crónica.
Isto ajuda a perceber por que motivo a recusa sobre Rota e Morón teve um custo político tão alto. Se a Espanha estivesse no centro da disciplina aliada, com forte credibilidade militar e sem historial recente de braço-de-ferro com a NATO, talvez o gesto pudesse ser lido como acto soberano e circunscrito. Mas não era esse o cenário. Madrid vinha já de uma confrontação aberta sobre o esforço de defesa; vinha já de um pedido de excepção num momento em que a Aliança procurava precisamente o contrário, isto é, convergência e massa. Nesse quadro, a recusa das bases não surgiu como gesto isolado de prudência. Surgiu como confirmação de uma linha política: a de uma Espanha relutante, desconfortável com a lógica atlântica e inclinada a marcar diferença, mesmo quando essa diferença a afasta do centro de gravidade da Aliança.
Há, na decisão espanhola, um perfume antigo que pode ajudar a explicar o reflexo. O ressentimento espanhol perante a assimetria com os EUA não nasceu ontem e não se reduz à política do dia. A cronologia que desemboca em 1898 na guerra hispano-americana e no “desastre” simbólico de perder o que restava do império ultramarino. Isto não torna a Espanha prisioneira da História; mas torna plausível que, em momentos de choque, certas elites políticas reencenem uma velha peça: afirmar soberania por recusa, mesmo que o custo seja ser menos útil. O problema é que, numa aliança militar, utilidade é uma moeda. E a moeda, uma vez desvalorizada, demora a recuperar.
Do lado norte-americano, convém abandonar uma ilusão muito popular: a de que “isto passa quando vier uma administração democrata”. Passa a espuma mediática, não passa o registo institucional. Washington tem uma memória de elefante por uma razão simples: o Estado é um arquivo, não um estado de espírito. Precedentes como este ficam inscritos no cálculo de risco, nos planos de contingência e na forma como os Estados Unidos reavaliam a localização das suas bases e pontos de apoio. Trump, como é seu costume, limitou-se a verbalizar aquilo que a máquina oficial americana normalmente arquivaria no silêncio gravoso das “lessons learned”: ameaçou cortar todo o comércio com Espanha, associando a recusa de Rota e Morón na guerra do Irão à relutância crónica de Madrid em acompanhar o novo esforço financeiro da NATO. Mesmo que uma ameaça desta escala esbarre em limites legais e políticos, o recado foi entregue: este episódio não será arquivado por cortesia ou delicadeza diplomática.
É neste sentido — e só neste sentido — que quase apetece dizer: obrigado, Pedro Sánchez. Não porque a posição espanhola seja absurda em si mesma, mas porque, nas circunstâncias concretas em que foi tomada, nomeadamente no isolamento que a caracterizou no seio da Aliança, produziu um efeito estratégico favorável a Portugal. Ao tentar evitar que a Espanha fosse lida como disponibilidade automática para Washington, Madrid acabou por tornar Rota e Morón politicamente condicionais. E, quando um aliado se torna mais condicional, sobe automaticamente o valor relativo dos aliados que se mostram mais previsíveis. A ironia está aí: Sánchez quis recusar a imagem de submissão; o resultado prático foi reforçar, por contraste, a centralidade das Lajes. Ao fechar uma porta aos Estados Unidos, abriu uma janela para Portugal.
Portugal tem aqui uma ocasião rara. O primeiro-ministro Luís Montenegro defendeu publicamente a decisão de permitir o uso das Lajes durante a campanha contra o Irão e fez questão de sublinhar o contraste com a vizinha Espanha, recordando até que Portugal foi membro fundador da NATO, ao passo que Espanha só entrou em 1982. Neste âmbito, José Luís Carneiro, entrou em terreno escorregadio ao perguntar se o primeiro-ministro “condena … uma intervenção feita à margem do direito internacional”. Assumiu estar mais próximo de Pedro Sanchez.
Efetivamente, o gesto português não precisa de ser lido como automatismo submisso; pode, pelo contrário, ser lido como a postura de um aliado que compreende a diferença entre soberania e capricho, entre prudência e auto-isolamento. A previsibilidade, numa aliança, não é servidão. É capital político.
É por isso que a resposta portuguesa deve ser política antes de ser contabilística. A nova meta de 5% da NATO existe; Portugal vai gastar mais em defesa, quer queira, quer não. A questão séria não é apenas quanto gasta, mas que dividendos estratégicos retira desse esforço. As Lajes devem ser tratadas como activo de primeira ordem: mais investimento, melhores condições, regresso de uma presença norte-americana estável, impacto económico duradouro na Terceira e contrapartidas políticas concretas para os portugueses nos Estados Unidos, nomeadamente em termos de condições migratórias mais favoráveis. Um país que se revela útil quando outro se afasta não deve limitar-se a receber elogios discretos nos corredores diplomáticos; deve negociar.
No fim, o ponto não é condenar a Espanha por querer fugir à caricatura de satélite americano. O ponto é notar que, num momento em que já estava isolada na NATO, essa fuga foi lida não como soberania sofisticada, mas como mais uma confirmação de distância estratégica. E, em política internacional, a leitura é metade da realidade.
A Espanha talvez imagine que este episódio se dissolverá quando a poeira assentar. Pode acontecer no discurso. Não acontecerá no arquivo. Se Madrid não esquece a longa sombra de 1898, Washington também não esquecerá facilmente 2026. A diferença é que a memória espanhola é, em larga medida, uma memória de humilhação; a americana, neste caso, será uma memória de fiabilidade. E, em matéria de bases, corredores e apoio operacional, a palavra decisiva é previsibilidade.
A primeira baixa desta guerra foi política, e não foi pequena. Resta saber se Portugal terá inteligência para converter a baixa espanhola em dividendos estratégicos duradouros para as Lajes, para os Açores e para os portugueses na América.
Centro de Análise D. Maria I