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(A) :: Caídos no chão comum: o Facebook do presidente Seguro

Caídos no chão comum: o Facebook do presidente Seguro

O dr. Seguro pertence à vasta escola de políticos que, na escassez de substância, trocam as ideias que não possuem por vocábulos soltos e clichés desavergonhados.

Alberto Gonçalves
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“Ao contrário de Marcelo, Seguro usa redes sociais para comunicar enquanto presidente”, informa o Público com provável entusiasmo. E depois desenvolve: “Nos últimos dias, o Presidente [a maiúscula é deles] tem recorrido às suas contas no Instagram, TikTok e Facebook (…) para divulgar a agenda presidencial, publicar vídeos e fotografias das visitas oficiais e partilhar momentos de contacto com a população.”

Em princípio, tudo o que seja o “contrário” do prof. Marcelo é bom. O problema surge quando percebemos o significado de “comunicar” para o Público e, pior, para o dr. Seguro. Não investiguei a conta de Sua Excelência no Instagram, cuja mecânica ignoro, nem no TikTok, que nem sei bem o que é. Mas fui à página dele no Facebook. E estou aqui para testemunhar. Ou, como se diz na Internet, se eu vi vocês também têm de ver.

Segunda-feira, 9 de Março (após a tomada de posse)

“Assumo hoje, perante vós e perante o povo português, a honra e a responsabilidade de servir Portugal como Presidente da República. Saúdo todos os portugueses. Fico eternamente agradecido pela confiança que depositaram em mim para vos servir como Presidente: Presidente de Portugal inteiro e Presidente de todos os portugueses, vivam em Portugal ou no estrangeiro.”

A estreia do novo PR é ambígua. Por um lado, num texto pequenino farta-se de repetir palavras (Portugal, portugueses, Presidente – sim, ele é igualmente dado às maiúsculas) e a sugestão de que é nosso serviçal. Em compensação, não recorre ao medonho truque do “portuguesas e portugueses”, o que é um sinal de esperança.

Segunda-feira, 9 de Março (convívio com “populares” [?])

“Que alegria ver estes jardins cheios de vida, de sorrisos e de boa disposição. Uma Presidência próxima e com as portas abertas às pessoas. Vamos repetir estes momentos muitas vezes.”

Mau! As maiúsculas alastram à própria “Presidência”. Por azar, o esforço de solenidade contrasta com o resto, que parece genuína e comoventemente escrito por uma criança. Começa a impor-se a impressão de que o presidente, perdão, Presidente Seguro não é dado a reflexões excessivamente profundas.

Segunda-feira, 9 de Março (imagem com a família)

“Trago-vos uma palavra de esperança. Acreditem em Portugal. Na minha visão de Portugal, todos contam e cada um tem um papel a desempenhar. É urgente recuperarmos o sentido de comunidade e restaurar o nosso chão comum que nos permite viver em harmonia uns com os outros. Onde cada geração acrescente qualidade de vida à geração dos seus pais.”

Avisei há pouco para a profundidade das reflexões. Agora faço notar a frontalidade: o dr. Seguro está falar especificamente de quê? Da pobreza? Da insegurança? Da desigualdade? Do medo? Da imigração? Dos independentistas açorianos? Cada frase vem recheada de uma indulgência tão genérica que se torna aplicável a tudo, o que é o mesmo que não se aplicar a nada.

Segunda-feira, 9 de Março (confraternização com “jovens”)

“A minha geração via o futuro como uma avenida larga. Muitos jovens hoje sentem que têm pela frente uma rua estreita. Isso não pode ser o destino do nosso país. Quero construir uma verdadeira coligação com os jovens. Uma parceria aberta, onde possamos ouvir mais, recolher ideias e pensar juntos o país que queremos para os próximos anos. Portugal tem recursos e tem talento. Mas, acima de tudo, tem a capacidade de definir o seu futuro.”

Ai, ai. A referência ao “chão comum” do “post” anterior já indiciava uma tendência preocupante para o lirismo dos pacotinhos de açúcar. As ruas e as avenidas deste “post” confirmam os maiores receios. A parte divertida é a mistura dos arremedos “poéticos” com a língua de pau da baixa política: a “rua estreita” desagua sem pausa nem escrúpulos em “coligações” e “parcerias” (“abertas”, para distinguir das fechadas). Quanto ao conteúdo, parece que o dr. Seguro tenciona “pensar o país” com a miudagem. Não fica esclarecido como é que isso funcionará, mas os resultados prometem. Acrescento que, já na geração do dr. Seguro, a avenida era bastante mais larga para quem se enfiava cedo nas juventudes partidárias.

Terça-feira, 10 de Março (na aldeia de Mourísia)

“A Mourísia precisa – e o interior exige – de respostas da política. Sobretudo quando se fazem promessas de apoio, é importante que as promessas sejam concretizadas.”

O dr. Seguro promete fazer com que se “concretizem” as promessas. Veremos como estará Mourísia – e o interior – daqui a 5 anos. Ou não veremos, porque não nos lembraremos de tal coisa. Louva-se a brevidade do “post” e a ausência de metáforas.

Terça-feira, 10 de Março (em Guimarães)

“A geração que aqui fundou Portugal lutou pela independência, pela liberdade e pela afirmação de um povo. A nossa geração enfrenta outro desafio, proteger o planeta, responder às alterações climáticas e garantir às novas gerações um futuro sustentável. Guimarães mostra que esse caminho é possível.”

O facto de o dr. Seguro achar que uma guerra pela autonomia dinástica visou a “libertação de um povo” é revelador de dois ou três pormenores, e nenhum abona em favor de Sua Excelência. Saltar daí para as “alterações climáticas” é uma proeza ainda mais espantosa. Se compreendi bem, e de certeza que não, o caso de um fidalgo que bateu na mãe há 900 anos serve de exemplo aos que hoje combatem o degelo dos pólos. Anoto ainda a cautelosa falta de referências às acções de D. Afonso na expulsão dos árabes, que pelos vistos não serve de exemplo à nossa geração.

Terça-feira, 10 de Março (na Casa da Música, no Porto)

“Iluminada no exterior com as cores nacionais; aquecida no interior com os corações dos portuenses; alegrada pela dança e pela música de artistas de excelência; marcada, pelo longo aplauso, em pé. de todas as pessoas que encheram a sala principal; cantada pelo hino nacional à capela. Que noite. Muito obrigado à cidade Invicta.”

Não comento a pontuação, excepto para dizer que é moderna. Quanto ao texto em geral, julgo que já o lera algures: em quatrocentos sites autárquicos, a descrever “certames patentes” nas respectivas “localidades”. Muito bonito, escusado acrescentar.

Quarta-feira, 11 de Março (regresso, julgo que apenas virtual, a Guimarães)

“Ao ser reconhecida como Capital Verde Europeia 2026, Guimarães afirma algo profundamente português. A capacidade de honrar o passado sem deixar de construir o amanhã.”

Estou sem palavras. Infelizmente, o dr. Seguro não está.

Quarta-feira, 11 de Março (talvez em Guimarães, a cronologia desta página de FB é caótica)

“As alterações climáticas, que infelizmente têm devastado Portugal, precisam de ser combatidas. E uma das necessidades que temos é que cada um perceba que tem uma responsabilidade individual, para além de assumir essa responsabilidade coletiva.”

O que devastou algumas regiões de Portugal foram os ventos e a chuva, ou seja o clima. Não foram as “alterações climáticas”. A influência do eng. Guterres, mentor do dr. Seguro, prepara-se para marcar (ia escrever “manchar”) a presidência, caramba, a Presidência do homem. Na obsessão com a meteorologia e na propensão para o vácuo, donde afinal é viável nascer. Não tarda, dedica-se a discorrer acerca de Gaza.

Quarta-feira, 11 de Março (outra vez na câmara do Porto: uma página tão novinha e já tão desorientada)

“O Porto é uma afirmação de carácter, uma forma de estar na história e no mundo. Neste nosso Porto, permitam-me assim, nosso Porto, cidade de pedra firme e coração aberto, cruzam-se tempos, povos e vontades.”

Há mais banalidades sem sentido neste “post” do que letras. Não é fácil produzir um parágrafo assim. Mas comprova-se que não é impossível. O dr. Seguro pertence à vasta escola de políticos que, na escassez de substância, trocam as ideias que não possuem por vocábulos soltos e clichés desavergonhados. A habilidade funciona para quem dispuser de idêntico, digamos, quadro mental. O que Sua Excelência diz sobre o Porto poderia ser dito sem prejuízo ou abalo sobre qualquer cidade de Portugal, quiçá do mundo. E este é o melhor teste à nulidade de um discurso.

A julgar pela amostra, há pelo menos uma promessa que o dr. Seguro vai “concretizar”: um mandato repleto de palavreado oco. Ou dois mandatos, pois tudo indica que, apesar de não prometer despir-se em público, será um presidente popular. Desculpem: um Presidente Popular.