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(A) :: Bowie e o boomerang de Édipo

Bowie e o boomerang de Édipo

A tragédia é a forma de arte do entre-tempos, geralmente entre um mundo antigo que está a desaparecer e um novo mundo que está a emergir.

Paulo Ramos
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Examinemos a mais famosa das tragédias atenienses, aquela que, desde a Poética de Aristóteles, tem sido considerada o exemplo de tragédia perfeita: Édipo Rei (Οἰδίπους Τύραννος – literalmente, Édipo, o Tirano). Neste texto infernal, imparável, verdadeira peça de maquinaria, onde cada verso, cada palavra, eriçada e borbulhante, pulsa em dolorosas ironia e ambiguidade, o rei é desmascarado como tirano e deposto como um monstro e testemunha de impureza pela própria cidade que o coroara. Mas recuemos um pouco.

Normalmente pensamos na tragédia como um infortúnio que acontece a uma pessoa ou a uma entidade política e que escapa ao seu controlo. Interpretando “tragédia” enquanto sinónimo de simples infortúnio, contudo, damos espaço a um significativo equívoco sobre aquilo que uma tragédia verdadeiramente é. O que as trinta e uma tragédias gregas sobreviventes encenam repetidamente não é uma desgraça que esteja fora do nosso controlo. Pelo contrário, elas mostram a forma como compactuamos, aparentemente sem o saber, com a calamidade que nos derruba.

A tragédia exige um certo grau de cumplicidade da nossa parte no desastre que nos destrói. Não se trata simplesmente de uma malévola actividade do destino, uma profecia sombria que flui da vontade insondável, mas muitas vezes questionável, dos deuses. A tragédia exige a nossa conivência com esse destino. Por outras palavras, exige uma boa dose de liberdade. É desta forma que devemos ler a tragédia de Édipo. Com implacável ironia (não por acaso, as duas primeiras sílabas do nome Édipo [Οἰδί] constituem um incrível decalque fonético da forma verbal “eu sei” [οἶδα]), vemos alguém partir de uma posição de aparente conhecimento – “Eu, Édipo, a quem todos chamam grande. Eu resolvo enigmas; qual parece, então, ser o problema, cidadãos?” – para uma verdade mais profunda que Édipo aparentemente desconhecia: ele é um incestuoso parricida. Nesta interpretação, avalizada por Aristóteles, a tragédia de Édipo consiste no reconhecimento que lhe permite passar da ignorância ao conhecimento.

Mas as coisas são mais complexas do que isso, pois há uma história anterior que precisa de ser recordada. Édipo apareceu em Tebas e resolveu o enigma da Esfinge depois de se recusar a regressar àquela que acreditava ser a sua Corinto natal, porque tinha acabado de ouvir a profecia sobre si próprio no oráculo de Delfos – que mataria o pai e manteria relações sexuais com a mãe.

Édipo conhecia a sua maldição. E, claro, é na viagem de regresso do oráculo que encontra um homem mais velho que se parece muito com ele – como Jocasta, inadvertida e quase comicamente, admite mais tarde na peça (verso 742) – que se recusa a dar-lhe passagem num cruzamento e que ele mata naquele que poderá muito bem ser o primeiro exemplo de road rage da história da humanidade. Poder-se-ia pensar que, dadas as terríveis notícias do oráculo e a sua incerteza sobre a identidade do pai (num banquete em Corinto, um bêbado chama “bastardo” a Édipo, facto que primeiro deposita a semente da dúvida no seu coração), poderia ter agido com cautela antes de decidir matar um homem mais velho que se parecia com ele.

Uma lição da tragédia, então, é que conspiramos com o nosso destino: o destino exige a nossa liberdade para nos impor o nosso destino. A contradição central da tragédia é que simultaneamente sabemos e não sabemos e, nesse processo, somos destruídos. Mas como será possível saber e não saber ao mesmo tempo?

Esta é a complexa função da profecia na tragédia. Na tragédia de Édipo, vemos alguém, que acredita possuir um sentido de liberdade irrestrito, ser destruído pela força do destino. O que é tão delicado na experiência de Édipo é que o seu ser não é simplesmente determinado causalmente pelo destino, pela necessidade. Não, o destino exige a cumplicidade parcialmente consciente do próprio Édipo para concretizar a sua verdade. As personagens da tragédia não são marionetas: na sua transição de um autoconhecimento ilusório e da fantasia de uma liberdade irrestrita para uma experiência de percepção da verdade que nos custa a visão, a tragédia dá voz a uma experiência de agência que é parcial e, muitas vezes, dolorosa. Mostra os limites da nossa tentativa de autossuficiência e daquilo que poderíamos considerar a nossa autonomia. Mostra a nossa heteronomia, a nossa profunda dependência. A tragédia dá voz às complexas relações entre liberdade e necessidade que definem o nosso ser. A nossa liberdade é constantemente comprometida por aquilo que nos aprisiona nas redes do passado, na determinação do nosso ser passado e futuro pelo destino. A tragédia encena aquilo que nos prende e nos arrasta de regresso a um passado que, na nossa sede constante por um futuro imediato, rejeitamos. Tal é o peso do passado que enreda o protagonista trágico (e a nós) nas suas malhas. Como diz Rita Felski, “O peso do que já passou recai inevitavelmente sobre o que está ainda por vir.” Negar o passado significa ser destruído por ele – eis a lição da tragédia.

Na tragédia, o tempo está fora dos eixos e a concepção linear do tempo enquanto fluxo teleológico do passado para o futuro é invertida. O passado não é passado, o futuro dobra-se sobre si mesmo e o presente é permeado por fluxos de passado e futuro que o destabilizam. O tempo flecte e contorce-se na tragédia. Como dizia Bowie nos idos de 73, his script is you and me, boy. A tragédia é a forma de arte do entre-tempos, geralmente entre um mundo antigo que está a desaparecer e um novo mundo que está a emergir. Isto é verdade para a tragédia grega, para a tragédia isabelina e, talvez, para a tragédia dos nossos tempos. Na tragédia, o tempo está sempre fora dos eixos. A sua conjunção é disjunção.

A tragédia é uma espécie de boomerang – a ação que lançamos para o mundo regressa até nós com um ímpeto potencialmente fatal. Édipo, o solucionador de enigmas, torna-se ele próprio um enigma. A peça de Sófocles apresenta-o comprometido com uma implacável investigação sobre a impureza que está a destruir a ordem política, envenenando poços e causando a morte a tantas crianças. Mas, na verdade, é ele a precisa imundície que é necessário eliminar.

A verdade mais profunda é que Édipo suspeita disto desde o início, mas recusa-se a ver e a ouvir aquilo que lhe é dito. Logo no início da peça, o cego Tirésias diz-lhe na cara que é o perpetrador da poluição que procura erradicar. Mas Édipo simplesmente não ouve Tirésias. Esta é uma forma de interpretar a palavra “tirano” no título original em grego de Sófocles: Οἰδίπους Τύραννος (Oidipous Tyrannos). Um tirano não ouve o que lhe é dito e não vê o que está diante dos seus olhos.

Também nós somos tiranos. Olhamos, e não vemos. Alguém nos fala, e não ouvimos. E continuamos na nossa interminável autojustificação narcisista, atualizando fotos de perfil no Facebook e postando no Instagram. A tragédia lida com imensas coisas, mas está fundamentalmente relacionada com as condições necessárias para realmente ver e realmente ouvir. Ao cegarmo-nos, podemos por fim, alcançar a compreensão, destapar os ouvidos e interromper o incessante zumbido da nossa própria canção: eu, eu, eu…

Há uma maravilhosa expressão grega, frequentemente recordada por Anne Carson: “A vergonha reside nas pálpebras”. A questão é que nenhum tirano (e quantos exemplos recentes poderíamos nós citar…) sente vergonha. Mas nós não somos muito melhores: também nós somos pequenos tiranos sem vergonha, especialmente quando se trata das nossas relações com aqueles que consideramos os nossos pais e os nossos filhos.

A tragédia grega oferece lições sobre a vergonha. No momento em que aprendemos esta lição e, como Édipo, conseguimos perceber alguma coisa, isso poderá custar-nos a visão e talvez arranquemos até os nossos próprios olhos – de vergonha. O mundo político está repleto de falsa vergonha, humildade fingida e lacrimejantes pedidos de desculpas cuidadosamente encenados: sinto muito, sinto muito mesmo. A verdadeira vergonha, contudo, como Édipo bem sabe, é outra coisa.