Crítico de moda, “céptico” e presença no Substack. E ainda, diz-nos entre uma dentada num scone, focado na cruzamento “entre moda e arte”. “Estou no sítio certo”, concorda Ryan Wyp, fundador de Fashion Review, sediado em Manchester, e parte da comitiva de cerca de 30 meios internacionais que passam pela ModaLisboa para quatro dias de cobertura do evento que termina este domingo. Entre novas vozes do digital e resistentes do papel, legacy media e formatos emergentes, o meio dia de domingo desdobra-se num atarefado entra e sai de visita a Campolide, num decalque da rotina habitual no número 12B.
“É sempre tudo urgent, urgent, urgent se pesquisarmos no nosso email. Mesmo que seja só para umas férias nas Bahamas o stylist vai dizer que é urgente. Um dia quero fazer uma coleção com print assim (risos). Já tivemos emails da equipa da Beyoncé uma semana antes da tour começar a pedir roupa para toda a gente. É sempre assim.”, projetava-nos a anfitriã de serviço Constança Entrudo, quando uns dias antes deste evento informal nos recebeu na Rua Ferreira Chaves, para um preview um pouco mais detalhado — na altura com direito a pastéis de nata, agora bolo de mel sobre a mesa colorida.

Pelo novo espaço, recentemente adquirido pela designer, na mesma rua do anterior espaço de trabalho, encontram-se criações imediatamente reconhecíveis do processo cultivado ao longo dos últimos anos. Logo à entrada, no nível que recebe quem chega, algumas peças e caixas coloridas antecipam a futura área reservada à loja. “Parece o porto de Leixões”, ri-se. Descendo as escadas, alcançamos o piso inferior, onde decorrem os trabalhos. Ao fundo ainda, uma cozinha, escritório, e uma colorida área exterior que convida a uma pausa. Uma casa cheia, agora de colaboradores em formato mais permanente, um vínculo fundamental para a consolidação do projeto.
É sentada frente ao computador que Margarida Reis lidera a secção gráfica e onde se trabalha o print a fundo, desenvolvendo uma linguagem visual que vai da casa de partida até ao produto final. “Costumamos começar com um técnica, fazemos pesquisa, temos scans de desenhos à mão, e depois a manipulação digital para obter um efeito distorcido, por exemplo.”, explica a designer gráfica, enquanto navega pelo arquivo no ecrã e partilhava uma das referências que podem nortear um trabalho, com um vestido saído do acervo do museu londrino Victoria and Albert. “A Constança dá muita importância aos prints nas suas coleções. Passa muito por este mix entre analógico e digital. Trabalhamos muito, muito à mão, é assim que começamos tudo e depois acabamos por manipulá-los digitalmente, para conseguir ver a textura dos materiais. Hoje mesmo com IA podemos aparecer com algo gerado assim mas ela é pessoa para nos dizer ‘é exatamente isso mas quero sentir que foi feito à mão’. Há muito carry over nos nosso prints. Neste último fall/winter fizemos isso até de forma muito literal.”, enquadra ainda, sobre “Second Best”, a performance que levou ao Centro de Arte Moderna, da Gulbenkian, há um ano.

“É importante ter gente in house. Em Portugal trabalhamos muito com freelancers, que vêm uma vez, outra, mas é importante estar dentro de um universo muito próprio, imersos. Claro que para uma empresa custa muito mais, é difícil. Mas ao mesmo tempo acaba por compensar.”, defende Constança. A assiduidade dos recursos permite testar muitos mais protótipos de cada peça e imaginar que, por exemplo, a promissora gabardina que vemos pendurada num dos cabides, pode evoluir bem mais do que anteriormente acontecia.
Sem perder um segundo, o ritmo da máquina de costura costuma concorrer com a velocidade da conversa entre paredes. Ao lado da costureira e modelista Margarida Sousa, Raquel Durães vai seguindo os processos, enquanto na divisão ao lado impera um dos acessórios menos esperados mas mais presentes no estúdio de Constança Entrudo, os pentes, muitos pentes, vários pentes, que servem naturalmente para disciplinar as inúmeras fileiras de fios, tão característicos da marca, que são domados por mãos pacientes de Adela e Marta sobre uma mesa.
“O meu papel é unir as pontes entre a Constança e o resto da equipa e os diferentes trabalhos que temos em mãos”, descreve Margarida Martins, studio manager e designer, que vai gerindo e equilibrando os desafios em simultâneo, entre projetos de interiores, clientes privados, etc — e até orientando as peças nos diferentes charriots. Já trabalhara com Entrudo, fez parte da equipa da artista plástica de Joana Vasconcelos (outra linguagem e regime um pouco mais maximalista), e agora está de volta a este atelier, onde a diversidade da criação expande o conceito de moda e onde ter mãos em regime de full time acaba por ser decisivo na construção do projeto.
Aos olhos mais curiosos que vagueiam pelo atelier não escapa um preview do formato que a designer irá mostrar em maio em Nova Iorque, no âmbito do projeto ad hoc, uma colaboração entre Entrudo e a francesa Marie Hazard, convidadas para pesquisar e experimentar pela Studio2M, explorando a relação entre têxtil, corpo e espaço, a partir de um diálogo de longa data entre as práticas complementares dos dois artistas, desenvolvidas desde a sua graduação na Central Saint Martins. Durante essa fase de formação, Entrudo seguiu estampado, Hazard especializou-se em tecelagem, e uma amiga nova iorquina em comum ajudou a ligar projetos, unindo fios e estampas.
É nos EUA que ambas têm um público mas robusto e atento e é também ali que vão trocar referências. “Normalmente há sempre esta hierarquia, este jogo de poder, entre artistas contemporâneos e designers apesar de toda a gente querer promover moda e arte no mesmo contexto. Eu estava a ler um livro sobre correspondência da Lygia Clark com o Helio Oiticica, focado nas técnicas entre ambos, enquanto a Marie, que já trabalhou com Gabriela Hearst, ou o [John] Galliano na Margiela, costuma trabalhar a partir de um livro.”.
Este ensaio só se deverá mostrar em Portugal no começo de 2027. Para já, podemos apenas levantar um pouco do véu, ou neste caso do pneu, um dos improváveis materiais que dá corpo a algumas formas escultóricas. “Vai ser parte de uma exposição, são trinta esculturas , algumas vestíveis outras não, depois com uma linha comercial de edição limitada, de camisas, gabardines, vestidos, estampados, em que vamos ter à venda em Nova Iorque, depois levar para Xangai durante junho e julho, e depois então no CAM, em Lisboa.” Por falar em véu, a marca também tem feito “muitos vestidos de noiva, há cada vez mais procura e dá para explorar técnicas.” O segmento começou com amigos chegados mas agora também se tem estendido ao público em geral, sempre sujeito ao tipo de desafio. “Aceito [os pedidos] dependendo do nível de costumização pretendido mas é tudo feito de raiz. Às vezes também pedem para reinterpretar outras peças mas vemos sempre caso a caso. É difícil pegar em coisas já feitas.”




Os últimos meses foram fervilhantes. No final de fevereiro, em Nova Iorque, Constança Entrudo foi convidada pelas Nações Unidas para falar sobre o futuro a da moda na era da IA, aludindo a um lado mais promissor destas ferramentas, desde logo a capacidade de limitar desperdício e controlar de forma mais apertada a disseminação de narrativas distorcidas, algo que pode “beneficiar as marcas mais pequenas e desconhecidas”. Entrudo alerta no entanto para a ascensão de um branqueamento ao nível dos processos de confeção. Depois do green washing, a falta de transparência e os perigos do “craft washing”, com inúmeras marcas de consumo rápido a vender um ilusório “feito à mão”. Mas não só, aponta a criadora que se divide ainda entre a decoração de interiores para espaços como o restaurante Barbela ou os uniformes da livraria Lello. “Com a nova coleção tentamos voltar à ideia de que nem tudo vai ter que ser explicado. Estamos saturados de story telling, que é uma coisa que a IA também trouxe muito. As referências não têm sempre que ser evidentes. Adorei a forma como Marc Jacobs agradeceu no final do desfile, quase como uma folha de sala.”
Depois da consagração recente pelo Costume Institute, continua a acreditar que o seu vestido nu, que nasceu como brincadeira, viralizou, esgotou e foi imitado e contrafeito mundo fora, venha a ser exposto na exposição, mas nada como esperar para ver o que o futuro próximo traz. Talvez até mais próximo do que parece.