No passado dia 12 de março, no estado do Michigan, nos Estados Unidos, um homem lançou um veículo contra uma sinagoga. O ataque provocou um ferido e levou à evacuação de crianças que ali se encontravam. O FBI classificou o incidente como um ato de violência dirigido contra uma comunidade religiosa.
Não foi apenas mais um episódio de criminalidade. Na verdade, quando um ataque tem como alvo um local de culto, a mensagem é diferente — e mais grave. Não se trata apenas de ferir pessoas ou destruir património. Trata-se de afirmar que há espaços onde certas pessoas não deveriam estar e, pior, há identidades que devem ser empurradas para fora da vida pública.
É por isso que estes ataques produzem medo muito para além do local e do momento. Um templo não é apenas um edifício, pois é igualmente rotina, pertença, normalidade. É um local onde se reza, mas também onde se educa, onde se cria uma comunidade e no qual se constrói a vida quotidiana.
Esta lógica não escolhe uma religião. Nos últimos anos, sinagogas, mesquitas e igrejas tornaram-se alvos recorrentes. Há ataques a mesquitas em momentos de oração; vandalismo e intimidação junto a sinagogas; incêndios e profanações de igrejas. Em contextos diferentes, com motivações ideológicas distintas, o padrão repete-se: o ataque não visa apenas quem ali está naquele momento. Visa o próprio direito de existir visivelmente no espaço público.
E na Europa?
Vários exemplos podem ser apontados. A tentativa de massacre numa sinagoga em Halle, na Alemanha, em 2019, ao ataque de atropelamento contra fiéis junto à Finsbury Park Mosque, em Londres, em 2017, passando pelo atentado numa igreja em Saint-Étienne-du-Rouvray, em França, em 2016, a lógica repete-se: punir, em solo europeu, comunidades locais tratadas como representantes coletivos de conflitos distantes.
A mecânica é conhecida. Conflitos internacionais são importados para o espaço interno. A indignação moral simplifica-se. O discurso endurece. A culpa torna-se coletiva. Judeus passam a representar Israel. Muçulmanos passam a representar terrorismo ou regimes estrangeiros. Cristãos passam a ser tratados como símbolos de uma ordem política ou cultural a destruir. E alguém decide «agir». Não é preciso uma grande organização, nem uma ideologia sofisticada. Basta ressentimento, visibilidade e oportunidade. Um veículo. Um edifício reconhecível. Um momento de rotina religiosa.
As redes sociais fazem o resto. Normalizam a desumanização, recompensam o choque, transformam a violência em performance. O passo entre discurso e ação diminui. E quando diminui, alguém atravessa a linha — muitas vezes sozinho, mas nunca desligado do clima que o rodeia. Para este efeito, o Parlamento Europeu tem sido claro ao assinalar, nos últimos anos, a expansão do ódio (incluindo online) e o seu impacto no aumento de ameaças e violência, em particular após choques geopolíticos recentes.
Perante isto, as democracias tendem a falhar por trilhar dois caminhos opostos. Um é a resignação: condenar, lamentar e seguir em frente, como se cada ataque a um templo fosse um acidente imprevisível. O outro é o excesso: reagir com medidas indiscriminadas que corroem direitos, liberdades e garantias, e transformam a exceção em regra. Nenhum funciona.
O que funciona é menos visível e menos estimulante: prevenção baseada em risco, proteção proporcional, aplicação consistente da legislação existente. O ataque do dia 12 de março é elucidativo disso mesmo, porquanto a preparação e os protocolos de segurança no local foram decisivos para evitar um massacre. Na europa, o mesmo princípio tem sido aplicado com resultados: medidas proporcionais, calibradas por risco e por períodos de maior tensão, com cooperação direta entre autoridades e comunidades religiosas.
E quanto a Portugal?
Não estamos imunes. A boa notícia é que não partimos do zero, sendo de assinalar que a PSP e a GNR dispõem de instrumentos legais para proteger locais sensíveis e atuar preventivamente. Na verdade, um policiamento de proximidade junto de locais sensíveis, contactos regulares com comunidades religiosas e reforços proporcionais em períodos de maior risco, asseguram mais confiança, mais prevenção e menos necessidade de respostas de emergência.
Há ainda uma dimensão que não se resolve apenas com policiamento. Quando o discurso público normaliza a desumanização — mesmo disfarçada de causa justa —, a violência contra templos torna-se imaginável. E quando se torna imaginável, acaba por acontecer. Por isso, a resposta democrática tem de ser dupla: proteger os locais e reduzir o combustível simbólico que os transforma em alvos. A própria Comissão Europeia e o Conselho da Europa têm insistido na necessidade de rebater as narrativas e estigmas no mercado das ideias que alimentam a hostilidade contra comunidades religiosas, incluindo no espaço mediático e digital.
É importante desmitificar a ideia de que proteger templos é um favor feito a «comunidades», pois trata-se de proteger o espaço onde a liberdade religiosa se concretiza, sendo uma condição mínima de cidadania. No fundo, trata-se de um teste à capacidade de uma democracia garantir que ninguém é empurrado para a invisibilidade pelo medo.
O ataque do dia 12 de março, nos Estados Unidos, é um aviso. O Estado de Direito não pode prometer risco zero. Mas pode — e deve — prometer outra coisa: responder com lucidez, com firmeza, mas sem recorrer ao pânico e à arbitrariedade. Também significa prevenir com inteligência, implicando proporcionalidade e sentido de responsabilidade.
Tudo o resto é retórica.
E a retórica chega sempre depois do ataque.