Foi publicada hoje no Diário da República, uma resolução, aprovada pela Assembleia da República, em 20 de fevereiro de 2026, que recomenda ao Governo a promoção do radioamadorismo nas escolas portuguesas. A medida, integrada nas políticas STEAM, propõe a criação de clubes, linhas de financiamento, guias técnicos e parcerias com a ANACOM e o Ministério da Educação. Boa intenção, sem dúvida. Mas fica no ar uma pergunta inevitável: porquê agora?
Confesso que, ao longo de toda a minha vida, apenas conheci um radioamador. Uma pessoa apaixonada pela modalidade, de uma geração que cresceu fascinada com a ideia de falar com desconhecidos em antenas de longo alcance, de cruzar fronteiras sem internet, sem satélites comerciais, sem aplicações. Participante assíduo no mundo de competições de radioamadorismo, uma paixão, mesmo há décadas, pouco compreendida pelos seus pares.
Ora, vivemos hoje numa era em que qualquer adolescente comunica em tempo real com alguém no outro lado do mundo através de um dispositivo que cabe no bolso. As redes 5G expandem-se, a fibra óptica chega a aldeias remotas, e os satélites de baixa órbita prometem cobertura global. Neste contexto, é genuinamente curioso — e até algo desconcertante — que a principal instância legislativa do país venha propor que se incentive, com recursos públicos, uma prática que muitos associam a museus de comunicações e a nostálgicos de frequências AM.
E, no entanto, a resolução não é de todo desprovida de mérito. Lida com atenção, percebe-se que o radioamadorismo pode ser, afinal, um veículo pedagógico interessante. A construção de antenas obriga a compreender física e eletromagnetismo. A operação de uma estação exige conhecimentos de eletrónica, regulamentação e até de geografia. A participação em redes internacionais estimula a comunicação e o trabalho em equipa. Há aqui, reconheça-se, um potencial educativo genuíno, que a resolução tenta aproveitar ao enquadrar a atividade nas práticas STEAM.
Destaca-se ainda o facto de se prever a integração do radioamadorismo nas estratégias municipais de resposta a fenómenos naturais extremos. Numa era em que se conhece cada vez mais incêndios, inundações e situações de emergência e num país que já viu como estes fenómenos podem comprometer seriamente as redes convencionais de comunicação, manter viva uma rede de operadores com conhecimento técnico em comunicações de rádio tem, de facto, valor estratégico.
A questão que subsiste é de prioridade e de eficácia. Num sistema de ensino que ainda debate os recursos suficientes para o ensino da matemática e da leitura, a criação de clubes de radioamadorismo pode parecer um luxo bem-intencionado. A resolução é, em rigor, uma recomendação — não impõe, não vincula. O Governo pode simplesmente arquivá-la. E é provável que assim aconteça, na ausência de pressão pública ou de um lobby académico dedicado ao tema.
Ainda assim, se a medida for levada a sério, com financiamento real, integração curricular coerente e parcerias efetivas com universidades e associações, poderá surpreender. Pode ser que consiga que as gerações mais jovens, saturadas de ecrãs e redes sociais, encontrem no radioamadorismo aquilo que a tecnologia digital, paradoxalmente, retirou: a magia de uma ligação construída com as próprias mãos, sem algoritmos a intermediar.
A ironia é essa. Numa era de hiperconectividade, talvez o maior luxo seja ligar um transmissor, ajustar uma frequência e ouvir uma voz vinda de longe, sem que nenhuma empresa saiba, sem que nenhum servidor registe, sem que nenhuma aplicação o filtre.
Talvez valha a pena tentar.