Os últimos séculos foram prolíficos no aparecimento de ideias politico-filosóficas, várias delas social e politicamente disruptivas.
Ideologias como o liberalismo, o comunismo, o socialismo, o anarquismo ou o fascismo têm em comum, não só, a terminação em “ismo”, bem como o facto de serem à altura do seu aparecimento, uma nova forma de ver politicamente a construção da sociedade.
Após o términus da Segunda Guerra Mundial e da queda da cortina de ferro que se lhe seguiu, Francis Fukuyama, previu em 1992 no seu livro O Fim da História e o Último Homem, que as Democracias Liberais haviam vencido a batalha ideológica, o que levava a acreditar que se avizinhava um longo período de estabilidade sociopolítica.
A realidade tem, no entanto, uma forma quase cómica e teatral de nos trocar as voltas, e nas palavras do mítico personagem do circo futebolístico português, Pimenta Machado, o que hoje é verdade amanhã é mentira.
A proliferação generalizada da internet pelo mundo em finais dos anos 90 foi, provavelmente, o arranque de uma série de acontecimentos que desde aí mudam o mundo como o conhecemos, a uma velocidade nunca antes vista. O 11 de setembro de 2001, o surgimento das primeiras redes sociais na primeira década do século XXI, a crise do subprime e a crise económica mundial que se lhe seguiu, a pandemia COVID-19, a guerra na Ucrânia e agora a expansão e crescimento exponencial da utilização de Inteligência artificial, criaram ou ajudaram a criar novas dinâmicas político-sociais muito influenciadas também por medos e insatisfações originadas nos desafios que nos foram sendo criados nas últimas duas ou três décadas.
Não é necessário um doutoramento em história, para perceber que em momentos de crise e de grande dificuldade, a propensão para surgirem falsos profetas anunciando ao mundo a chegada de bons ventos a quem os siga, aumenta exponencialmente. Normalmente, estes novos profetas fazem-se acompanhar de um discurso, (mal), recauchutado onde reutilizam retóricas caducas e ultrapassadas dando-lhe uma de mão de tinta fresca e vendendo o seu discurso com uma nova ideia, disruptiva e que nos vai fazer “grandes” de novo, seja através da revivificação de glórias passadas, esquecendo, (obviamente), os pontos negativos também vividos, seja por uma reformulação da sociedade, criando “um homem novo”, esquecendo, (obviamente), a natureza humana.
Se atentarmos a que hoje em dia vivemos numa sociedade em rede, como defende, Manuel Castells, a forma mais simples, barata e eficaz de fazer passar uma ideia, seja ela política, social, ou até as muito populares teorias da conspiração, é hoje através das redes sociais, e, é aqui que surge uma nova filosofia política, à qual chamo de TikTokismo.
O TikTokismo, como o próprio nome indica, advém da rede social Tik Tok, a qual deve o seu sucesso à torrente de vídeos curtos, capazes de prender a atenção do seu utilizador através do bombardeamento de vídeos que o algoritmo da aplicação identificou como sendo do interesse de quem os visualiza garantindo assim uma gratificação imediata. Não devemos, ainda assim, ser levados a acreditar que está apenas nesta rede social, esta capacidade, não está, está nas inúmeras redes que conseguem este feito de através de algoritmos nos atrair, prender e servir conteúdos que iremos letárgica e inconscientemente consumir.
O TikTokismo é então, uma filosofia política que utiliza as redes sociais para divulgar ideias políticas e, em última análise conquistar poder, tendo já provado nos últimos anos, e em regiões dispares no planeta, a sua eficácia.
Um exemplo claro disto é a ascensão de novos partidos que têm apresentado um crescimento exponencial no sistema partidário nacional, valendo-se de uma comunicação diferenciadora, banhada num imagem jovem e glacé.
Esta filosofia política não terá necessariamente de ser mal vista, desde que, os políticos que a utilizem, tenham consciência de algo tão importante como é a realidade.
A realidade, já percebemos acima, não se coaduna com quem viva na sua torre de marfim e não desça até à rua. É muito fácil ficar embriagado pelo sucesso na bolha das redes sociais esquecendo que o mundo vai muito além disso.
É na rua que vemos os efeitos de colocar em prática as ideias que defendemos, é na rua que percebemos o verdadeiro contexto que nos explica que a opção A embora mais apelativa, não é tão eficaz como a opção B que à partida não parecia ser a melhor.
É a colocar a “mão na massa” que verdadeiramente descobrimos as fragilidades do nosso pensamento e que, se tivermos inteligência para tal, adaptamos as nossas ideias e ações para que sejam verdadeiramente eficazes.
O TikTokismo é hoje mais uma novidade que poderá ser sinónimo de sucesso apenas e só, quando permitir a quem chegue ao poder, trabalhar para aquele que deve ser o objetivo último de cada político, o trabalho em prol do bem comum, tudo o resto além disso é apenas circo para a bolha das redes sociais.