Num ano pouco famoso para o cinema americano, dois filmes, Pecadores, de Ryan Coogler, e Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, somam 29 nomeações aos Óscares: 16 — um novo recorde na história das estatuetas da Academia — o primeiro, 13 o segundo. Pecadores é uma combinação de fita de gangsters, terror e musical, transportando uma mensagem anti-racista sublinhada a grosso. Batalha Atrás de Batalha inspira-se livremente num livro de Thomas Pynchon publicado em 1990 e contestatário da época em que Ronald Reagan foi presidente dos EUA, e é um filme de ação vertiginoso que carrega uma pesada mochila de ativismo político anti-Trump e anti-sistema. Logo atrás deles surgem fitas desvinculadas de agendas ideológico-sociais: Marty Supreme, de Josh Safdie, Frankenstein, de Guillermo del Toro, e Valor Sentimental, do dinamarquês Joachim Trier, todas com nove nomeações; e Hamnet, de Chloé Zhao, com oito. Destaquem-se ainda as quatro indicações de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, uma delas de Melhor Actor para Wagner Moura, o primeiro brasileiro a conseguir esta distinção. A 98ª edição dos Óscares decorre na noite de domingo, dia 15 de Março, para segunda-feira, dia 16. Adiantamos os filmes que vão ganhar e que deviam ganhar nas 11 principais categorias.
Melhor Filme
EB — Se o volume de nomeações, e o lastro de prémios que traz consigo, se confirmarem em votos, Pecadores, de Ryan Coogler, leva a estatueta — com Batalha Atrás de Batalha à espreita logo atrás. Tendo em conta o desencorajador panorama desta categoria, e apesar das suas imperfeições e exageros, Marty Supreme, de Josh Safdie, era bem premiado. Ou até mesmo o discreto “intruso” que é Sonhos e Comboios, de Clint Bentley.
https://observador.pt/2026/01/26/pecadores-e-os-oscares-estes-vampiros-ganharao-tudo-ou-ficarao-com-nada/
FF — Para um defensor do trabalho de Paul Thomas Anderson defraudado por Batalha Atrás de Batalha (o seu pior filme), dá um certo prazer torcer por Pecadores de Ryan Coogler a cortar a meta em primeiro e ao sprint, com ultrapassagem pela direita. Josh Safdie já fez melhores filmes com o mano Benny (e vice-versa: pense-se em Uncut Gems), ainda assim, pelo nervo, pela ansiedade, pelo desvario de um filme que passa 2h30 a perguntar-nos “onde é que está o dinheiro?”, era a Marty Supreme que se entregavam os louros. Começa e acaba com canções de Tears for Fears: Change e Everybody Wants to Rule the World. Curioso: Marty Mauser segue o caminho inverso. No início, só quer dominar o mundo. No fim, descobre que é um homem diferente.
Melhor Realizador
EB — Ryan Coogler e Paul Thomas Anderson, os realizadores de Pecadores e Batalha Atrás de Batalha, são os favoritos mais óbvios. Mas era Josh Safdie quem devia ganhar,
FF — O Óscar está entregue a Paul Thomas Anderson, que assim se junta a Carol Reed e a Bertolucci na tosca e extravagante lista de cineastas que venceram a dita estatueta, não necessariamente pelo melhor que fizeram. O prémio deveria ir para Josh Safdie.
Melhor Ator
EB — A dupla interpretação de gémeos com personalidades muito diferentes de Michael B. Jordan em Pecadores é mesmo o tipo de papel que impressiona os membros da Academia. Mas Timothée Chalamet em Marty Mauser, o esbaforido, egocêntrico, inescrupuloso e antipatiquíssimo jogador de ténis de mesa de Marty Supreme não é de descartar de forma alguma (apesar da recente gaffe do actor depreciando a ópera e o bailado). Mas era Ethan Hawke quem devia ganhar, pelo seu admirável tour de force na pele do frustrado letrista Lorenz Hart em Blue Moon, de Richard Linklater, um filme “de ator” como não se via há bastante tempo.
FF — Os irmãos Safdie são demasiado endiabrados e “east coast” para os gostos da Califórnia e, como se tal não bastasse, Timothée Chalamet, a quem todos deram vitória antecipada (por Marty Supreme), nasceu com um dom natural para se meter em encrencas. Palpite: siga Óscar para Michael B. Jordan. Por muito que se goste do que fez Wagner Moura, só Ethan Hawke era digno desta vitória.
Melhor Atriz
EB — Tudo parece encaminhado para que o Óscar vá para Jessie Buckley pela vigorosa e lacrimejante interpretação de Agnes, a inteligente e sensível mulher de William Shakespeare e mãe devastada pela morte do seu filho em Hamnet, de Chloé Zhao. Mas Kate Hudson devia ganhar, por Song Sung Blue, de Craig Brewer. Ela canta, ela entusiasma, ela comove e ela sofre personificando Claire, a mulher de Mike, o imitador/homenageador de Neil Diamond interpretado por Hugh Jackman, o grande ausente dos Óscares este ano.
FF — Ainda ninguém tinha visto Hamnet e já o Óscar estava entregue a Jessie Buckley (estamos a brincar). Nada a fazer. É merecido. E é dela a proeza: agarra o espectador pelos colarinhos e, ao mesmo tempo, põe-lhe o kleenex na palma da mão com uma tal manha que ele nem se dá conta. Julgam que é fácil? Rose Byrne bem esperneou, mas não foi tão eficaz. Emma Stone, para alien, até suou as estopinhas. Mas já tem bibelôs lá em casa.
Melhor Ator Secundário
EB — Batalha Atrás de Batalha tem dois atores nesta categoria, Benicio Del Toro e Sean Penn, e o primeiro aparenta ser o favorito. Stellan Skarsgard devia ganhar pelo papel de realizador aclamado mas pai ausente em Valor Sentimental, de Joachim Trier, em que transmite tudo o que é preciso sem sombra de maneirismos ou exibicionismo, e (apenas aparentemente) sem esforço.
FF — Só há uma coisa mais esparvoada do que o corte de cabelo de Sean Penn em Batalha Atrás de Batalha: o facto de Stellan Skarsgård ser destratado de actor secundário em Valor Sentimental. Será que todos vimos o mesmo filme?
Melhor Atriz Secundária
EB — Pela lógica das nomeações, Teyana Taylor em Batalha Atrás de Batalha. Mas a surpreendente Elle Fanning devia ganhar, pela interpretação da atriz americana que percebe que está fora do seu meio cultural, íntimo e emocional em Valor Sentimental. E este Óscar também ficava bem a Amy Madigan em Hora do Desaparecimento, de Zach Creggar.
FF — Amy Madigan (por Hora do Desaparecimento), Teyana Taylor (por Batalha Atrás de Batalha) e Wunmi Mosaku (por Pecadores), surgem com hipóteses numa categoria imprevisível em que a primeira traz razoável favoritismo. Por espírito de contradição, aposta-se na última e no efeito do filme de Ryan Cooger em Hollywood. Recorde-se que a actriz nigeriano-britânica arrecadou o BAFTA.
Melhor Argumento Original
EB — A Academia pode querer cavalgar a atualidade e acenar ao Irão, e nesse caso Jafar Panahi leva o Óscar por Foi Só um Acidente. Se isso não acontecer, poderá ser uma boa oportunidade para distinguir Valor Sentimental (Eskil Vogt e Joachim Trier). Robert Kaplow devia ganhar por Blue Moon, que ao ser um fabuloso filme “de ator”, junta o ser também “de argumentista”.
FF — O simples facto de comparar o vencedor antecipado desta categoria — Ryan Coogler, por Pecadores — ao extraordinário guião de Jafar Panahi já de si diz muito do estado do mundo e, já agora, do cinema.
Melhor Argumento Adaptado
EB — Hamnet (Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, autora do romance que o filme adapta) pode arrebatar este Óscar. Mas há que contar igualmente com Batalha Atrás de Batalha (Paul Thomas Anderson). Quem devia ganhar era a dupla Clint Bentley e Greg Kwedar (Sonhos e Comboios), porque a fita merece pelo menos um Óscar e este assenta-lhe perfeitamente.
FF — Era assunto que dava pano para mangas: ver a que ponto Paul Thomas Anderson tresleu Vineland, de Thomas Pynchon, e o seu enquadramento político. É pouco provável que o próprio Pynchon se manifeste, dada a sua queda para a clausura, mas quem sabe se, a seu tempo (e ao seu jeito), ele se manifestará. Deste lado, o guião foi uma decepção. Esta estatueta também está entregue, em grande parte, por falta de classe da concorrência.
Melhor Filme Internacional
EB — A Voz de Hind Rajab, da tunisina Kaouther Ben Hania, ou Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi, se a mensagem política for o critério. Se não, Valor Sentimental, de Joachim Trier, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, também estão na corrida. Foi Só Um Acidente é o melhor dos cinco nomeados, e no qual o gesto cinematográfico e o intento político não se atrapalham um ao outro.
FF — Gostava que a ordem não fosse esta e que O Agente Secreto saísse vencedor do Dolby Theatre. Mas o palpite é que os votantes da Academia são mais escandinavos que brasileiros…
Melhor Longa-Metragem de Animação
EB — Guerreiras do K-Pop vai ganhar. Little Amélie et la Métaphysique des Tubes devia ganhar.
FF — Será uma das maiores injustiças da cerimónia. Não é que faltem atributos ao fenómeno de popularidade que se tornou Guerreiras do K-Pop, ao nível das canções, por exemplo. Mas Arco, de Ugo Bienvenu, seguido de muito perto pelo igualmente francês A Pequena Amélie, da dupla Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, são obras muito mais consistentes no universo da animação.
Melhor Documentário de Longa-Metragem
EB — Numa categoria que costuma tirar a temperatura à atualidade da política e aos temas de natureza social, é muito difícil escolher entre os cinco candidatos deste ano. O favorito dir-se-ia ser Mr. Nobody Contra Putin (a situação na Rússia de Putin e a guerra na Ucrânia). Mas há ainda Come See Me in The Good Light (a história de uma poeta e activista LGBTQ americana, que envolve também uma doença terminal), A Vizinha Perfeita (um caso de true crime na Florida com implicações raciais), Cutting Through Rocks (a primeira mulher eleita vereadora numa aldeia iraniana ensina as raparigas locais a guiar motos e opõe-se aos casamentos combinados de adolescentes com homens mais velhos), e The Alabama Solution (uma denúncia dos podres do sistema prisional do Alabama).
FF — Numa edição em que a qualidade dos nomeados deixou muito a desejar e em nada espelhou o melhor que se viu da categoria ao longo do ano, espera-se que Mr. Nobody Contra Putin repita a vitória nos BAFTA e se imponha ao favoritismo de A Vizinha Perfeita (Geeta Gandbhir).