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O Sr. D. Fictício — o doente preferido do hospital

O contrato-programa continua a não perguntar se a consulta é útil, se o tratamento é adequado. Pergunta apenas: quantas consultas? quantos episódios? quantas cirurgias? quantas sessões?

Serafim Guimarães
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No meu hospital há um doente muito especial. Chama-se “Doente Fictício Teste Informática” e tem o número do processo 99999999 (oito algarismos, como os outros). Trata-se de um indivíduo do sexo masculino que nasceu há tanto tempo quanto os computadores permitem (01-01-1901) e reside algures no território mítico do código postal 9999-999.

É um homem notável. Com mais de um século de vida oficial, já percorreu praticamente todas as especialidades, fez exames sem conta e tratamentos de toda a espécie (alguns deles mutuamente incompatíveis), foi submetido a cirurgias várias, frequentou o hospital de dia, a urgência, a consulta externa e, num feito clínico sem paralelo, já morreu e ressuscitou repetidamente. Lázaro, à sua beira, era um principiante.

Trata-se, em rigor, do doente ideal para o sistema. Não falta às consultas. Não reclama. Não consultou o Dr. Google. Não pede segundas opiniões. Não escreve no livro de reclamações. Não faz perguntas incómodas sobre tempos de espera, coordenação de cuidados ou resultados em saúde. Aceita tudo, consome tudo, tolera tudo. É, no fundo, o cidadão perfeito para um modelo de financiamento que confunde, há demasiado tempo, actividade com valor e quantidade com qualidade.

Se o serviço de codificação estiver distraído, tanto melhor: este doente pode converter-se numa pequena mina de ouro: o contrato-programa continua a não perguntar se a consulta é útil, se o tratamento é adequado, se a cirurgia faz sentido ou se há benefício real para alguém em toda esta “produção”. Pergunta apenas: quantas consultas? quantos episódios? quantas cirurgias? quantas sessões?

E o sistema, obediente, aprendeu. Quando se paga à peça, produz-se à peça. Quando se premeia volume, gera-se volume. Quando o indicador é quantidade, a quantidade torna-se virtude — mesmo quando já perdeu qualquer relação com a necessidade clínica ou com os resultados obtidos. Até a imprensa reclama quando o número absoluto de consultas diminui.

O “Doente Fictício Teste Informática” é, por isso, mais do que uma curiosidade informática. É uma alegoria do modelo. É a mascote involuntária deste financiamento antiquado, que continua a premiar o ruído burocrático da actividade em vez do benefício real para as pessoas.

Não interessa o diagnóstico — aliás, tem muitos, alguns incompatíveis com a vida. Não interessam os resultados. Não interessa saber se melhorou, piorou ou se nunca existiu. Interessa que conte. Interessa que apareça na estatística.

É um doente metafisicamente irrepreensível: não tem história clínica coerente, não tem trajecto assistencial racional, não tem queixas registadas — mas tem “produção”, e isso, com a possível excepção dos episódios de urgência, qualifica-o como um caso de sucesso.

Entretanto, os doentes reais — esses incómodos seres de carne, osso, sofrimento e complexidade — continuam a esperar demasiado e a circular por sistemas fragmentados. Esses dão trabalho. Têm doenças verdadeiras. Precisam de atenção, coordenação e julgamento clínico e, às vezes, até melhorariam com menos actos e mais tempo dedicado. A sua existência é profundamente inconveniente para um modelo que aprendeu a medir desempenho pelo contador da produção.

Talvez por isso, sempre que alguém tenta pôr alguma ordem neste mecanismo — reduzindo actos redundantes, classificando correctamente consultas subsequentes, ou simplesmente perguntando se aquilo que fazemos cria valor — parece estar a cometer um atentado contra o sistema. Como se a missão do hospital fosse alimentar o contrato-programa e não tratar pessoas.

A mudança para contratos-programa baseados em valor implica aceitar uma ideia simples, mas exigente: os investimentos e as contratações passam a ter de ser justificados pelos resultados que proporcionam aos cidadãos, e não pela utilidade que têm para manter a máquina a produzir actos, aumentar serviços já sobredimensionados ou concentrar recursos nos hospitais cujos dirigentes e protectores se mexem melhor e têm mais capacidade de influência.

Isso significa perguntar o que realmente mudou para cada doente ou população: se viveu mais, se viveu melhor, se sofreu menos, se teve uma experiência de cuidado digna desse nome. São perguntas mais difíceis do que contar consultas e episódios — e talvez por isso a transição esteja a demorar.

Entretanto, o “Doente Fictício Teste Informática” continua por aí, incansável. Cada hospital, cada ULS tem os seus, sempre disponíveis para mais uma consulta, mais um episódio, mais um procedimento. Um cidadão exemplar do velho modelo: eterno, obediente e altamente produtivo.

O problema é que, enquanto ele prospera na base de dados, os doentes verdadeiros continuam à espera de um sistema que prefira finalmente criar valor em vez de apenas contabilizar movimento.

E o nosso dinheiro sempre à espera de ser mais bem aplicado.