O problema principal com o teatro de Gil Vicente (1465? – 1536?) é que praticamente nada do que escreveu é hoje reconhecível como teatro. Como no caso da música clássica, ou do romance, chamamos teatro a trezentos e cinquenta anos miraculosos, e, com menos razão, a alguns apêndices gregos, aqui e ali; foi esse milagre, que começou cinquenta anos depois de Gil Vicente, que produziu o que para todos os efeitos é hoje reconhecido como teatro pelas pessoas que vão ao teatro.
Quando quase trinta anos depois da sua morte, em 1562, se publicaram as obras de Gil Vicente, chamou-se ao livro simplesmente ‘Compilação’. Foi dividido em “obras de devoção”, “comédias”, “tragicomédias”, “farsas” e “obras miúdas.” A maioria das peças transcritas no livro tem porém títulos que sugerem animais pré-históricos: ‘auto,’ ‘pranto,’ ‘romagem,’ ‘monólogo,’ ‘diálogo,’ ou ‘exortação.’ São no total quase cinquenta peças, e terão sido escritas em menos de trinta anos; a média é shakespeariana, mas a obra não tem nada a ver com Shakespeare.
Das peças de Gil Vicente haverá menos de dez que são regularmente representadas. Entre as mais famosas algumas foram primeiro consideradas obras de devoção. Embora a maior parte do teatro que ainda se escreve seja também constituído por obras de devoção, as peças de Gil Vicente ocorrem quase só em festas de liceu, associações recreativas e teatros nacionais. O que o público retém delas são algumas expressões salazes (“samicas de caganeira”), e o ritmo enervante da redondilha maior, que faz lembrar um corridinho do Algarve. Por vezes, como se diz, “saem” em exames.
Ao procurar trazer Gil Vicente para uma noção reconhecível de teatro, sublinha-se com ansiedade a relevância política e moral daquilo que escreveu. A Farsa de Inês Pereira anunciaria costumes incertos e adultério serial. O Auto da Índia argumentaria contra a expansão portuguesa e a Índia epónima. E o Auto da Barca do Inferno levantaria objecções sérias a fidalgos. Mas o esforço para extrair relevância não é compensado pelos proveitos. A quem interessa ainda a Índia, os fidalgos e o adultério? Quem, no fundo, terá farelos? Não é o reconhecimento dos nossos problemas que faz do teatro teatro. O Rei Édipo não é relevante para ninguém, como já não era para o pobre Édipo.
É no carácter remoto que está a maravilha única das peças de Gil Vicente. Todas são sempre em proporções incompreensíveis misturas de entretém, cerimónia religiosa, feira agrícola, charada, e propaganda. Naquele tempo as pessoas não iam ao teatro: não havia bilhetes, arrumadores, encenadores e autarquias; mas no século V também ninguém ia realmente ver o Rei Édipo. É com Sófocles e não com Shakespeare que se deve comparar Gil Vicente. Não obstante, como as missas de requiem nos concertos e os Jogos Olímpicos na televisão, persistimos em imaginar-lhe relevância; e Gil Vicente tornou-se por desleixo o pai fundador do teatro português.