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Quando a guerra revela aquilo que a paz oculta

A crise energética do Médio Oriente e a nossa memória civilizacional curta.

Antero Carvalho
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Existe uma ironia cruel na forma como a guerra ilumina aquilo que a paz tende a esconder. Desde que os combates voltaram a escalar no Médio Oriente, a Europa acordou subitamente para o preço real da dependência energética, com os automobilistas europeus a pagar €150 milhões a mais por dia, o petróleo novamente a ameaçar os 100 dólares por barril, e a Agência Internacional de Energia a libertar reservas de emergência em volumes sem precedentes. Parece uma crise nova. Não é.

Esta é, na verdade, a mesma crise de sempre, apenas com um rosto diferente. A mesma que já se anunciou em 2022 com a invasão russa da Ucrânia. A mesma que o Acordo de Paris, em 2015, tentou transformar num argumento de racionalidade económica, ou seja, a transição energética não como fardo moral, mas como imperativo de soberania. Nós, europeus, esquecemos. Curiosamente, esquecemos sempre que a crise aguda passa e a crónica se instala de forma silenciosa.

A neurociência da urgência

A neurociência há muito demonstrou que o cérebro humano está mal equipado para processar ameaças lentas. Reagimos ao que sangra, ao que explode, ao que chega aos ecrãs. A crise climática, porém, é uma ameaça de lenta acumulação, como uma dívida que cresce silenciosamente durante décadas até que, num único dia, o banco bate à porta. Nesse dia, chamamos-lhe emergência. Mas a emergência começou muito antes.

Portugal e a Europa encontram-se hoje, mais uma vez, perante este espelho perturbador. Enquanto o Mediterrâneo aquece a um ritmo 20% superior à média global, enquanto os furacões se tornam mais intensos e os verões ibéricos batem recordes históricos de temperatura, a atenção coletiva dirige-se, compreensivelmente, para o conflito quente, para as vítimas reais, para os refugiados, para os mercados de energia em turbulência. A tragédia humana imediata merece, e exige, essa atenção.

O problema não é prestar atenção à guerra. É acreditar que a guerra é o problema principal, quando ela é, também, um sintoma de algo mais profundo: a nossa incapacidade estrutural de organizar as sociedades em torno de horizontes longos.

A geopolítica como espelho da irracionalidade coletiva

Há uma paradoxal e quase cómica repetição neste ciclo. Em 2022, a dependência europeia do gás russo transformou-se em argumento irrefutável para acelerar as renováveis. Os governos prometeram reinventar a matriz energética do continente. A Comissão Europeia lançou o REPowerEU, os planos nacionais de energia e clima foram revistos. E agora? Agora, com o pretexto de um novo choque, ouvem-se vozes, e vozes poderosas, a pedir a suspensão do principal instrumento de descarbonização europeu: o mercado de licenças de emissão de CO2.

A lógica é sedutora na sua aparente simplicidade: em tempo de crise energética, não se podem onerar ainda mais os consumidores com taxas de carbono. Mas esta lógica confunde o sintoma com a causa. A crise energética não foi criada pelas taxas de carbono, foi criada pela dependência estrutural dos combustíveis fósseis que as taxas de carbono visam, precisamente, eliminar. Desligar o termóstato quando a febre sobe não cura a doença, retarda o diagnóstico.

Portugal: entre a periferia geográfica e a centralidade estratégica

Portugal tem, neste contexto, uma posição singular. Somos dos países europeus que menos depende de combustíveis fósseis para a produção elétrica, com uma das maiores percentagens de renováveis da UE. Este não é um acidente da história, é o resultado de décadas de política energética relativamente consistente, apesar de todas as suas contradições.

E todavia, continuamos a ser um país que não capitaliza estrategicamente as suas vantagens. O litoral atlântico, o recurso solar e eólico, a posição de charneira entre a Europa e o Sul Global, tudo isto deveria transformar Portugal num ator energético relevante e num laboratório de transição que o mundo quisesse imitar. Em vez disso, exportamos eletricidade barata e importamos decisões estratégicas.

A guerra no Médio Oriente poderia, se o soubermos ler, ser o momento em que finalmente percebemos que a soberania energética não é uma abstração académica, é a condição de sobrevivência geopolítica no século XXI. Não é possível ser simultaneamente dependente dos combustíveis fósseis e soberano nas decisões de política externa.

A lucidez como escolha política

Quando Hegel escreveu que a História avança com passos lentos e que as nações raramente aprendem com as suas lições, não estava a fazer uma previsão pessimista, estava a desafiar-nos a provar que o podia ser diferente. A lucidez é sempre uma escolha, individual e coletiva. E as escolhas fazem-se nos momentos de pressão, não quando tudo corre bem.

Este é um desses momentos. A guerra no Médio Oriente revela aquilo que a paz tende a ocultar: que a transição energética não é um luxo ideológico das elites progressistas, é a única estratégia racional de um continente que não quer continuar a pagar, em dinheiro, em geopolítica e em sangue, o custo da sua dependência fóssil. Portugal, mais do que qualquer outro país europeu, poderia liderar essa narrativa. A questão é se tem a coragem de o fazer.