Nas últimas semanas, tem circulado freneticamente nas redes sociais uma imagem com uma pergunta que, à primeira vista, parece inatacável: “Portugal tem reservas de combustível para três meses, comprado a preços mais baratos. Então, porque aumentam o preço hoje? Não é isto roubo?”
A indignação é compreensível. Quando o orçamento familiar aperta, a intuição diz-nos que o preço de venda deve refletir o preço de compra — o chamado custo histórico. No entanto, a economia real não funciona como a mercearia da nossa intuição. O que o tribunal das redes sociais classifica como “roubo” tem, em Finanças, um nome muito menos criminoso: custo de reposição.
A falácia do custo histórico
Para compreender porque é que as gasolineiras atualizam os preços imediatamente — mesmo tendo os tanques cheios com combustível “antigo” — basta um exercício mental simples.
Imagine que comprou uma casa há dez anos por 100 mil euros. Hoje, devido à inflação e à valorização do mercado, casas idênticas na sua rua custam 300 mil euros. Se decidir mudar de casa, vai vender a sua pelos mesmos 100 mil euros que lhe custou, em nome da “justiça social”? Claro que não. Vai vendê-la a preço de mercado — 300 mil — porque precisa desse capital exato para conseguir comprar a próxima.
O mercado de commodities, como o petróleo, obedece à mesma regra, mas à velocidade da luz. Se o dono de um posto comprou 10 mil litros de gasóleo a 1,50 € e o preço no mercado internacional sobe repentinamente para 2,00 €, ele é obrigado a vender o seu stock “antigo” aos novos 2,00 €. Porquê? Porque amanhã, quando o tanque esvaziar, terá de ir ao mercado comprar novos 10 mil litros. Se tiver vendido o stock ao preço antigo, o dinheiro que faturou não será suficiente para repor o inventário. O posto entra em rutura de tesouraria e, inevitavelmente, vai à falência.
Preços de mercado não refletem o passado; financiam o futuro.
A “amnésia” na descida de preços
O mais curioso neste debate público é a amnésia seletiva. Quando o preço do barril de petróleo cai nos mercados internacionais, os postos de combustível — pela pressão da concorrência — são rápidos a baixar o preço na bomba, mesmo que os seus tanques subterrâneos ainda estejam cheios do combustível “caro” que compraram na semana anterior.
Nesses dias, o empresário absorve o prejuízo da desvalorização do seu stock. E, curiosamente, quando isso acontece, não vemos publicações indignadas no Facebook a exigir que os condutores paguem mais caro para compensar o dono da bomba.
O fator sazonal e o verdadeiro “roubo”
É certo que a Europa respira de alívio com o fim do inverno. A redução drástica na necessidade de aquecimento e gás natural abranda a pressão sobre a cadeia energética e os custos de refinação. Este fator sazonal ajuda a mitigar a escalada, mas não altera a lei férrea da reposição.
Se os portugueses querem realmente encontrar um “roubo” no preço dos combustíveis, estão a olhar para a fatura errada. O problema não está na bomba que ajusta o preço ao custo de reposição. O problema está no facto de que, em cada litro de combustível pago em Portugal, cerca de metade do valor vai diretamente para o Estado sob a forma de ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos) e IVA — um imposto que incide sobre outro imposto, numa aberração fiscal tolerada há décadas.
Acusar o mercado de “roubo” por seguir as regras básicas de tesouraria é apenas um atalho intelectual. E, na economia, os atalhos intelectuais costumam sair muito caros.