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"Twisted Yoga": sexo, mentiras e vídeos de um guru

Gregorian Bivolaru exigia concursos de "Miss", sites pornográficos e práticas de submissão. Um dos nomes do podcast "Os Segredos da Seita do Yoga" está no centro desta minissérie da Apple TV+.

André Almeida Santos
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No podcast Os Segredos da Seita do Yoga, do Observador, que aborda factos corridos em escolas influenciadas pelo movimento de Gregorian Bivolaru, há um momento que é dedicado às etapas do processo de pertença a um culto. É uma ferramenta útil ao longo dos episódios, serve de lembrança de que os testemunhos que se irão ouvir vêm de pessoas que foram treinadas para acreditar em algo e, por consequência, a desacreditar no contrário — ou seja, o que acontecia fora da pequena bolha onde decidiram existir.

É útil ter esta informação em conta ao ver Twisted Yoga, a série documental de três episódios que se estreou esta semana na Apple TV+ e que é dedicada à mesma matéria. Porque tanto na série como no podcast, há uma pergunta que nos assalta constantemente: como é que centenas de pessoas não googlaram o nome Gregorian Bivolaru e não perceberam no que se estavam a meter? É bastante provável que o tenham feito, mas, tal como diz Ziggy, um dos entrevistados de Twisted Yoga — parafraseando —, “foram convencidos de que as notícias eram uma mentira, de que se tratava tudo de uma injustiça”.

https://www.youtube.com/watch?v=0iKOvNHhnBo

Quem é Gregorian Bivolaru? É o fundador do MISA (Movimento de Integração Espiritual no Absoluto), um movimento de yoga e tantra que influenciou várias escolas pelo mundo. Romeno, nascido em 1952, começou a ensinar ainda muito novo e, também desde muito novo, começou a ser perseguido pelas autoridades romenas. Acusado de muitas coisas no seu país natal – exploração sexual, evasão fiscal, etc. —, neste século já foi, também, acusado e detido em vários países, onde foi procurando refúgio para escapar às autoridades. As acusações são quase sempre as mesmas, escalando ao longo dos anos. Uma delas, que começou a estar presente, é a de tráfico humano.

Em Twisted Yoga várias pessoas, quase todas mulheres, apresentam o seu testemunho: porque decidiram fazer yoga, porque entraram numa das escolas influenciadas por Bivolaru (normalmente por referência de amigos ou conhecidos), como se fascinaram pelos ensinamentos e quando começaram a suspeitar de que algo não estava certo. Ashleigh, australiana, é a figura principal, ela é mencionada algumas vezes no podcast Os Segredos da Seita do Yoga – tal como a britânica Miranda. Começou um movimento para reunir vozes de vítimas para alertar sobre o que realmente se passava naquelas escolas e, em última instância, parar as atividades criminosas de Gregorian Bivolaru.

Tal como Ashleigh e Miranda, os testemunhos de Andrea, Ziggy, Bonnie, Paula, entre outros, manifestam uma similaridade de processos que deixam claro de que se está perante um culto. Só que um culto não é só um culto — e o que se percebe é que a maior parte das mulheres que entravam nestas escolas eram treinadas para, em última instância, serem exploradas sexualmente, com a promessa de que atingiriam um estado único de prazer e libertação após começarem a iniciação com o próprio guru.

O padrão é comum. Quem entrou nestas escolas de yoga fê-lo, a dado momento, porque estava vulnerável. Quem os convidou, ou falou da escola de yoga, fê-lo de forma inocente: encontraram lá uma resposta para os seus problemas e estas coisas estão montadas para funcionarem seguindo um princípio simples: quantos mais, melhor. Há vários níveis na escola e, eventualmente, entrava a questão do tantra e do sexo — ou amor, como alguns afirmavam — como último patamar para uma certa realização. Algumas mulheres eram selecionadas para entrarem num caminho alternativo que, de certa forma, as colocaria mais próximas do guru.

É aqui que as coisas começam a ficar muito mais estranhas. Aparecem os convites para retiros femininos, com temporadas longas num local na Roménia denominado “The Villa”, constituído por deprimentes apartamentos rodeados por uma cerca. Para lá estarem, as mulheres têm de entregar os passaportes, ler regras, fazer juras com a mão sobre a Bíblia e tirar fotos nuas (supostamente para se captar a sua aura). Surge também a participação no Shakti, uma espécie de Miss Universo do culto, com vários níveis, em muitos dos quais as mulheres desfilam com pouquíssima roupa e, se avançarem muito no processo, passam mesmo por momentos de submissão e desumanização.

Tudo isto parece chocante, claro, mas nem toca na superfície. O pior ainda está para vir. De repente, torna-se natural que as mulheres estejam dispostas a colocarem-se à frente a uma câmara e praticar yoga na Rampant TV, um site de conteúdos pornográficos. Todo o processo de iniciação não tinha outro objetivo que não fosse relações sexuais com Gregorian Bivolaru.

A certa altura, Ashleigh fala de um texto que teve de ler para uma câmara quando decidiu sair da escola de yoga e parar com tudo, porque percebeu que nada do qeu se estava a passar estava certo. É forçada a dizer que aceitou tudo de livre vontade, na mesma linguagem legal e pré-formatada que surge no final dos episódios, em resposta às perguntas que a produção fez às diferentes entidades referenciadas no documentário; é o mesmo “legalês” que também surge no final de cada episódio do podcast do Observador. Vago, de distanciamento, cheio de palavras vindas de quem quer responder. Parece inútil colocar não-respostas depois de tudo o que se viu, mas o silêncio, neste caso, serve como sentença final para perceber o que é mostrado em Twisted Yoga.