Depois de o autarca de Leiria ter ouvido o ministro da Defesa a acusá-lo de não responder a mensagens e de não ter atendido, pelo menos, uma chamada, Gonçalo Lopes veio esta sexta-feira dizer que “não quer discutir telefonemas quando há leirienses sem comunicações”. Através de um comunicado, o município esclareceu apenas a linha temporal da ação dos militares no concelho, enfatizando que foi mantida “articulação permanente com as Forças Armadas”.
“Queremos união e recursos para construir o concelho e quero agradecer às Forças Armadas pela elevação institucional e pelo trabalho exemplar que fizeram no terreno”, disse o autarca à Lusa, no único comentário direto às declarações de Nuno Melo, que não mereceram resposta.
Na quinta-feira, no Parlamento, o governante atacou Gonçalo Lopes por este ter dito “publicamente, de forma muito vocal, que o ministro da Defesa não atendeu o telefone”. Ouvido na comissão, recordou que, quando a depressão Kristin atravessou Portugal, ainda estava na Turquia, mas antecipou o regresso. “Assim que cheguei [a Portugal, a 29 de janeiro], o primeiro telefonema que fiz foi ao presidente da Câmara de Leiria, que não me atendeu. A primeira mensagem que enviei foi ao presidente da Câmara de Leiria, não respondeu”.
https://observador.pt/2026/03/13/mau-tempo-nuno-melo-acusa-autarca-de-leiria-de-nao-responder-as-mensagens-e-destaca-prontidao-maxima-dos-militares/
Nuno Melo sustentou a sua afirmação com uma folha onde se via a captura de ecrã da conversa entre os dois: quando o ministro estaria com o telemóvel em “modo voo”, o autarca ligou e enviou várias mensagens, que só tiveram resposta assim que o governante chegou a Portugal. Nesse momento, Nuno Melo devolveu a chamada, mas não foi atendido, e enviou mensagens, que ficaram sem resposta.
Apesar do silêncio, o ministro lembrou que os militares foram para o terreno e não ficaram à espera, recordando que “nos termos da lei”, os municípios podem pedir ajuda diretamente aos militares que estão instalados no seu território. Esta sexta-feira, a autarquia reagiu às acusações de Nuno Melo (sobre a intervenção militar no terreno) em comunicado, descrevendo a linha temporal da ação das Forças Armadas no território.
“Na sequência das declarações esta quinta-feira proferidas pelo Senhor Ministro da Defesa Nacional na Assembleia da República, o Município de Leiria considera importante esclarecer, com rigor factual, a sequência de acontecimentos ocorrida durante os dias mais críticos da tempestade Kristin. Durante esse período, registaram-se milhares de ocorrências e mobilizou um dispositivo operacional de grande dimensão, que chegou a integrar mais de 700 operacionais no concelho, que, nesse período, ficou privado de eletricidade e comunicações. Todas as decisões relativas ao empenhamento de meios foram tomadas exclusivamente com base em critérios operacionais e em articulação permanente com as entidades presentes no Posto de Comando”.
Na sequência da polémica entre Nuno Melo e Gonçalo Lopes, a distrital de Leiria do PSD acusou esta sexta-feira o presidente da Câmara de Leiria de aproveitamento político, por ter optado por um “discurso de natureza marcadamente partidária e de afirmação pessoal” na sequência do mau tempo.
A Comissão Política Distrital, liderada por Hugo Oliveira, defendeu que “uma situação de calamidade exige responsabilidade, cooperação institucional e sentido de unidade”, pelo que “não deve existir qualquer aproveitamento político de circunstâncias que afetaram seriamente comunidades, famílias e empresas do distrito”. A distrital social-democrata lamentou que “tenham surgido posições públicas que privilegiam o individualismo político e a afirmação partidária” e considerou que “a tempestade Kristin, assim como as que se seguiram, acabou também por evidenciar esse caminho, protagonizado pelo presidente da Câmara Municipal de Leiria, que optou por um discurso de natureza marcadamente partidária e de afirmação pessoal num momento que deveria ser de convergência institucional em defesa do território”.
Autarquia revelou linha temporal da intervenção dos militares no terreno
28 de janeiro
Horas após a passagem da depressão Kristin, segundo a autarquia, foi instalado o Posto de Comando no concelho de Leiria e deu-se início à “coordenação operacional com todas as entidades de proteção e socorro”. Começaram, também, a ser fornecidas “refeições a operacionais e militares nas instalações do Seminário de Leiria, assegurado pelo Município e por voluntários” e aconteceram os primeiros “briefings operacionais diários” às 8h e às 18h, com presença de oficiais de ligação das diversas entidades.
28 e 29 de janeiro
Como Nuno Melo tinha recordado no Parlamento, cada município, numa situação destas, pode pedir diretamente às unidades militares sediadas no concelho a intervenção no território (sem pedir primeiro ao ministério). A autarquia confirma que “estabeleceu contactos diretos com as unidades militares sediadas no concelho – Regimento de Artilharia n.º 4 (RA4) e Base Aérea n.º 5 (BA5), bem como através do Comando Sub-Regional da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Esses contactos tiveram como objetivo avaliar a possibilidade de mobilização de meios militares”.
No entanto, “devido aos danos provocados pela tempestade nas próprias instalações militares e às dificuldades de comunicação registadas nesses dias, não foi possível mobilizar meios dessas unidades”.
“Desde os primeiros dias da operação”, a primeira força militar a entrar no concelho foi a Marinha, com os fuzileiros, “mobilizados na sequência de contacto direto entre o Estado-Maior da Armada e o Município de Leiria”. Depois disso, os representantes dos diferentes ramos das Forças Armadas passaram a integrar o “dispositivo de coordenação através de oficiais de ligação no Posto de Comando”.
Na Comissão de Defesa Nacional, Nuno Melo disse que foi “por insistência do Regimento de Artilharia n.º 4, e não da autarquia, que a partir do dia 1 de fevereiro” passou a estar presente “um oficial de ligação na sala de operações”. A partir daí, no entender do ministro, a “situação alterou para melhor”.
1 e 2 de fevereiro
“Foi avaliada a possibilidade de empenhamento de militares para vigilância de geradores devido a furtos registados. O dispositivo operacional entendeu não ser necessário esse reforço, uma vez que PSP e GNR tinham sido reforçadas desde 29 de janeiro e mantinham capacidade de resposta no concelho. Considerou-se que esses meios poderiam ser mais úteis noutros territórios afetados”, indica a nota da autarquia.
2 de fevereiro
“Foi equacionada a disponibilização de drones aéreos. Nesse momento, o dispositivo já dispunha de meios próprios e equipamentos da Unidade Especial de Proteção e Socorro da GNR, pelo que essa capacidade adicional não foi considerada necessária nesse dia, tendo vindo a ser utilizada posteriormente”.
3 de fevereiro
“Foi proposta a instalação de uma cozinha de campanha. A proposta não foi considerada necessária, uma vez que desde 28 de janeiro o Município assegurava o fornecimento regular de refeições a operacionais e militares nas instalações do Seminário de Leiria, sem qualquer constrangimento logístico. Importa referir que vários militares empenhados no concelho e em concelhos vizinhos realizaram as suas refeições nesse espaço”.
Nesse dia, “foi também proposta a mobilização de um reforço adicional de mais de 90 militares da Marinha”. Nessa altura, o dispositivo “já contava com cerca de 90 fuzileiros integrados nas operações, inseridos num contingente global superior a 700 operacionais no terreno”.
Considerou-se, por isso, que esse reforço poderia ser mais útil noutros concelhos afetados, o que veio a acontecer. Segundo Nuno Melo, esse reforço de 90 militares foi depois alocado aos concelhos de Marinha Grande, Pombal, Ourém e Batalha.
No Parlamento, o ministro avançou estas recusas da autarquia — de militares para vigiar geradores alvos de furtos, de drones, de “uma cozinha de campanha” e um reforço com mais de 90 militares da marinha para diversos trabalhos — sem explicar o motivo, o que terá motivado, agora, esta reação. O único pedido da autarquia foi de nove camas, que foram prontamente entregues.
“Importa igualmente referir que os meios militares que vieram a ser empenhados entraram num concelho onde o dispositivo de coordenação já se encontrava plenamente montado e em funcionamento, com Posto de Comando ativo, comunicações estabelecidas e capacidade logística assegurada pelo Município, incluindo combustível, alimentação e equipamentos disponibilizados para apoio às missões que vieram a ser executadas”.
“Durante toda a operação, o Município de Leiria manteve uma articulação permanente com as Forças Armadas, tendo recebido no Posto de Comando representantes dos diferentes ramos militares, incluindo elementos do Estado-Maior. Nessas ocasiões, o Município fez questão de expressar o seu reconhecimento e agradecimento pelo empenhamento dos militares no apoio às populações. O Município de Leiria reafirma o profundo respeito institucional pelas Forças Armadas e pelo contributo que prestaram durante este período particularmente exigente. Num momento em que o concelho continua empenhado na recuperação do território e no apoio às populações afetadas, o essencial deve permanecer na cooperação institucional que sempre caracterizou a resposta a esta emergência”, remata a autarquia no comunicado.