A mulher britânica resgatada pelas autoridades em 2021, após 25 anos de cativeiro e trabalhos forçados, está a receber o tratamento e os cuidados de que não beneficiou durante as décadas de isolamento e negligência que viveu. Sequestrada quando tinha 16 anos, a mulher apresentava dificuldades de aprendizagem, subnutrição e sinais de violência frequente quando foi libertada do jugo de outra mulher – Amanda Wixon — que está a cumprir pena de 13 anos de prisão desde terça-feira.
Acolhida por uma família adotiva, a expectativa é de que irá recuperar do trauma que sofreu, embora nunca esquecer. A cuidadora da mulher, que se mantém no anonimato para proteger a identidade da vítima, prestou declarações ao jornal The Guardian sobre os últimos cinco anos de convivência com a pessoa que apadrinhou, quando já era adulta.
A cuidadora recordou a magreza extrema da mulher na altura em que foi recolhida, quando já tinha cerca de 40 anos, e salientou que ela necessitou de um acompanhamento médico rigoroso, uma alimentação cuidada e, também, e bastante amor.
“Era muito difícil abraçá-la, ela não queria”, admitiu a cuidadora. “Eu costumava dizer: ‘Quando estiveres pronta, estou aqui para ti’. E, no fim da primeira semana, ela virou-se para mim e começou e começou a ser carinhosa.”
O caso ocorreu no condado de Gloucestershire, no Reino Unido. Vítima de agressões frequentes praticadas pela sequestradora, a cativa era forçada a desempenhar trabalho doméstico, apesar do estado de subnutrição em que se encontrava. “Basicamente, não era alimentada. Só tinha direito aos restos”, refere a cuidadora.
“[Amanda Wixon] batia-lhe, trancava-a no quarto, onde sacos pretos tapavam as janelas para que não recebesse luz. Obrigava-a engolir produtos de limpeza e derramava lixívia [na sua cara]. Ela tem cicatrizes na boca. Fazia todo o trabalho doméstico, limpezas, engomar a roupa, tudo. Era uma verdadeira escrava.”
Apesar de impedida de aceder a cuidados de higiene básicos durante o tempo em que permaneceu cativa, a cuidadora destaca o asseio da mulher que apadrinhou. “Quando a acolhi, às vezes ouvia o chuveiro a correr às três da manhã.”
“Acho que ela vai recuperar com o tempo”
A complexidade do caso de Amanda Wixon atrasou em cinco anos a audiência em tribunal, para grande desgosto da vítima, incapaz de perceber os procedimentos da justiça. Com uma educação limitada, mal sabia ler ou escrever quando começou a ser tutelada pela família de acolhimento. Desde então, já frequentou a universidade.
“Ela chamava bruxa” à mulher que a manteve cativa, recorda a cuidadora. “Tem muito medo dela, um medo aterrador, na verdade. Antes de o caso avançar para tribunal, encontrou-a no supermercado e ficou em pânico”, recorda.
A mulher que acolheu a vítima censura a lentidão e ineficácia da justiça e das autoridades, que já haviam identificado a violação de direitos humanos muito antes da data do resgate. “Ninguém fez nada. Deixaram-na lá para sofrer. Não sei como permitiram que a situação”.
A recuperação física e psicológica da mulher deverá ser longa, apesar dos cuidados que recebeu nos últimos cinco anos, entre os quais sessões frequentes de psicoterapia. “Acho que ela vai recuperar com o tempo”, enfatiza a cuidadora. “Mas a agressora tem de pagar pelo que fez. Se não, [a vítima] nunca vai superar os traumas que sofreu. Ela disse-me que se vai sentir mais segura com [Amanda Wixon] atrás das grades.”
Desde que foi libertada, a mulher já viajou para o estrangeiro e deixou crescer o cabelo, como sempre quis. “Estou a tentar proporcionar-lhe a vida que não teve quando era jovem”, reconhece a cuidadora.
“Espero que toda a gente consiga oferecer-lhe o cuidado de que precisa. Ela é uma pessoa muito bonita. Tem muito amor para dar”, conclui a cuidadora.