Pouco tempo depois da Comissão Europeia ter dado início a uma investigação formal à Shein por suspeitas de design aditivo, falta de transparência nas recomendações e venda de produtos ilegais na União Europeia (UE) — que incluem conteúdos associados a abuso sexual de menores – a Greenpeace volta a denunciar a retalhista chinesa, apontando os impactos ambientais e sociais associados ao seu modelo de negócio.
“E o prémio de maior poluidora da moda vai para… a Shein”, pode ler-se numa publicação da Greenpeace do Reino Unido desta quinta-feira.”Isto acontece porque disponibiliza no seu site mais produtos do que qualquer outra marca alguma vez fez”. De acordo com a organização ambiental, a gigante chinesa de fast fashion lança no site entre 2 mil a 10 mil artigos todos os dias, cuja maior parte acaba em aterros têxteis. “A Shein descarta os produtos tão rapidamente que apenas 6% estão disponíveis no site mais de 90 dias. Na pior das hipóteses, isto significa que poderia produzir um milhão de artigos num único dia, 90% dos quais podem acabar em aterro”.
A Greenpeace do Reino Unido aponta que o sucesso da retalhista chinesa Shein assenta num modelo de negócio baseado na lógica de “testar e descartar”. Para cada artigo colocado à venda site da marca, são inicialmente produzidas entre 50 e 100 unidades e, se a procura for elevada, a produção é rapidamente ampliada. No entanto, quando o produto não gera vendas suficientes, os artigos são descartados. Na mesma publicação no Instagram, a organização sublinha ainda a dimensão da oferta da empresa: enquanto a Zara lança cerca de 20 mil novos produtos no site anualmente, a Gap 12 mil e a H&M 35 mil, a Shein disponibiliza aproximadamente 1,3 milhões.
Shein “continua simplesmente a vender produtos altamente contaminados”
A Greenpeace Alemanha detetou, tanto em 2022 como no final do ano passado, substâncias químicas perigosas nas peças de vestuário da Shein — que excediam, por muito, os limites legais permitidos pela União Europeia.”Entre as substâncias, foram encontrados químicos que têm sido associados a diversas doenças, incluindo cancro, distúrbios reprodutivos e de crescimento em crianças, bem como enfraquecimento do sistema imunitário”, descreve a organização. Em resposta, a marca online prometeu retirar os artigos em questão, que incluíam roupa de criança, afirmando que a segurança dos produtos e o respeito pelas normas da UE eram a sua principal prioridade.
No início deste ano, a organização alemã voltou a verificar se a Shein estava a cumprir estas promessas ou se as roupas contaminadas continuavam à venda. Uma equipa testou um total de 31 peças que já tinham levantado preocupações em 2025 e constatou que a retalhista online apenas removeu os artigos com os números de referência reportados pela Greenpeace — “se é que o fez”. “Artigos quase idênticos, ou mesmo idênticos mas em cores diferentes, continuam disponíveis online. No total, a Greenpeace encontrou substâncias químicas perigosas acima dos limites da UE em cerca de 80% das roupas testadas”, alerta a organização num comunicado publicado no seu site.
“A audácia da Shein é impressionante. Perante o Parlamento Europeu, a empresa promete proteger os consumidores, mas, na prática, continua simplesmente a vender produtos fortemente contaminados”, afirma Moritz Jäger-Roschko, especialista da Greenpeace em economia circular.

A marca foi fundada em 2008, na cidade chinesa de Nanjing, por Chris Xu, um empresário nascido nos Estados Unidos, especialista em otimização para motores de busca. Com cerca de 363 milhões de acessos por mês, segundo a Greenpeace, o site da marca é o mais visitado do mundo – mais do que os três maiores retalhistas seguintes juntos, nomeadamente a Nike, Myntra e H&M. “Os preços são baixos, mas o preço a pagar é a destruição e a exploração ambiental. 82% das fibras são feitas de poliéster, ou seja, um derivado do petróleo, e as emissões quadruplicaram em três anos. A Shein contorna as normas alfandegárias e viola as leis de proteção do consumidor e as regras ambientais – apesar de já ter recebido multas milionárias“, escreve a organização.
Apesar do crescente escrutínio de várias organizações ambientais, das multas milionárias e da recente abertura de investigação por parte da Comissão Europeia, a retalhista chinesa de fast fashion continua a reforçar a sua presença na Europa. A Shein abriu esta quinta-feira um novo hub em Barcelona, que vai funcionar como um centro de marketing e produção de conteúdos. Esta será a segunda base da Shein em Espanha e um dos mais de 40 escritórios da marca espalhados pelo mundo.