Esta é a história de Artur, um pai alienado. Na semana passada visitámos o seu testemunho num artigo intitulado “Só mais tarde percebi o que estava a acontecer”: o testemunho de Artur, um pai alienado (I), aqui publicado a 6 de março de 2026. Neste e nos próximos artigos, daremos continuidade ao percurso da sua vivência, passo a passo. Trata-se de um retrato da alienação parental realizado a partir da experiência de um pai alienado que, durante anos, procurou insistentemente compreender o que estava a acontecer na sua relação com a filha. Hoje, falamos do momento em que perdeu o contacto com a filha e começou a procurá-la, e das dificuldades que encontrou nesse caminho.
O testemunho de Artur permite observar como, muitas vezes, as situações de alienação parental se desenrolam de forma silenciosa e gradual, deixando pais e mães num estado de grande incerteza e desorientação emocional. Artur era casado e vivia com a mulher e a filha Matilde e recorda assim o momento em que tudo começou a mudar na sua vida familiar: “eu saí de casa 24 de Março de 2012…depois, ao final de duas ou três semanas, meados de Abril, eu fui à África e quando volto da África, tento buscar a menina e não me dão acesso à menina”. Nesta fase inicial, surgiu um dos primeiros sinais, frequentemente descritos em situações de alienação parental, que é o da interrupção do contacto entre o pai e o filho ou filha. Para muitos pais e mães, este afastamento começa de forma abrupta, sem explicações claras, criando um sentimento profundo de confusão e impotência.
Foi no momento em que regressou a casa, depois de uma viagem que estava previamente planeada, que deixou de contactar a filha. Tentou depois retomar esse contacto: “Quando eu voltei de África, tentei contactar a mãe para ver a menina, mas isso nunca acontecia. A mãe dizia sempre que sim, nunca dizia que não. Eu batia à porta e ninguém estava em casa. Depois diziam: ‘Não percebeste, é para estar na casa da tal’. Eu ia para a casa da tal e, quando chegava lá, diziam: ‘Não é aqui, a casa da menina é…’. E assim começou aquilo que eu chamo destes balés, deste carrossel. Eu andava de um lado para o outro, mas nada acontecia. A Matilde tinha 8 anos”.
Neste testemunho, Artur descreve uma situação de tentativas falhadas para conseguir ver a filha. Como em muitas outras situações de alienação, à primeira vista, não existe uma recusa direta de contacto, a resposta é sempre a de que “sim”, mas, na prática, o encontro nunca acontece. As indicações mudam, os locais alteram-se e o pai ou mãe alienado acaba por ser conduzido de um lado para o outro, sem conseguir estabelecer o contacto desejado com a filha. Ao longo desse tempo, instala-se também a sensação angustiante de não saber exatamente onde está o filho/a. Artur designa esta dinâmica por “balés” ou “carrossel”. A expressão traduz bem a sensação de movimento constante sem conseguir chegar a lado nenhum. Em vez de uma proibição clara, o que surge é uma sequência de desencontros que, repetidos ao longo do tempo, acabam por impedir o contacto entre pai e filha.
Este tipo de situação é relatado por muitos pais e mães que dizem ter vivido experiências de alienação parental. A ausência de uma recusa explícita torna a situação mais difícil de compreender e de explicar, porque formalmente não existe uma proibição, mas na prática o contacto acaba sempre por falhar. Estas experiências provocam um forte sentimento de frustração, sentimento de impotência, desgaste emocional e alimentam a sensação de perda progressiva da relação com o filho ou filha.
Segundo o Artur, o afastamento prolongou-se ao longo dos meses seguintes: “Portanto, passa-se o verão, passam as férias, e nada acontece. Quando chega a altura da menina começar a escola primária, ela não vai para a escola onde estava antes. A mãe não a inscreve na escola primária onde ela estava anteriormente. Inscreve-a noutra escola primária e não me diz nada. Eu não fico a saber de nada”. Neste testemunho, surge outra dimensão frequentemente descrita em histórias de alienação parental, a ocultação de informações importantes sobre a vida da criança. A escola é um dos espaços centrais na vida de uma criança e a mudança de estabelecimento de ensino sem o conhecimento de um dos pais pode tornar ainda mais difícil o acompanhamento da vida escolar e quotidiana do filho ou filha. Para muitos pais alienados, este momento representa uma rutura particularmente dolorosa. A escola costuma ser um dos últimos lugares onde ainda é possível manter algum contacto ou acesso à criança. Quando essa informação deixa de ser partilhada, instala-se um sentimento profundo de exclusão da vida do filho ou filha. Ao afirmar “Eu não fico a saber de nada”, Artur expressa precisamente essa sensação de apagamento da sua presença enquanto pai. Deixa de saber onde a filha estuda, quem são os professores, como está a correr o seu percurso escolar ou quais são as suas rotinas diárias. Este desconhecimento prolongado reforça ainda mais os sentimentos intensos de impotência, ansiedade e perda, porque o pai ou a mãe passa a sentir que está a desaparecer da vida da criança. Além disso, a falta de informação cria também um cenário de grande incerteza. Sem saber onde a filha está ou em que escola estuda, Artur vê-se impedido de exercer um papel que, para muitos pais, faz parte da vivência natural da parentalidade, que é de acompanhar o crescimento, a aprendizagem e o dia a dia da criança. É nesse contexto de alienação parental que muitos pais começam a procurar alternativas para tentar reencontrar os filhos ou obter informações, muitas vezes recorrendo a estratégias improvisadas que revelam o nível de desespero e de angústia vivido.
Quando Artur tentou obter informações diretamente na escola, encontrou mais obstáculos: “Vou à escola e a professora que encontro é outra, tinha sido colocada recentemente. Não conhecia a minha filha, não conhecia a Matilde, nem conhecia a mãe. Também fiquei com a sensação de que a professora sabia mais do que aquilo que dizia, mas tinha receio de falar. Percebia-se isso… não sei se é verdade ou se é mentira, mas ainda hoje fico com essa sensação”. A sensação de que existem informações que não são partilhadas é muito marcante para os pais alienados. A incerteza e a falta de respostas reforçam essa sensação e criam uma situação constante de dúvida e inquietação.
Perante a ausência de informação, Artur acabou por desenvolver estratégias próprias para tentar descobrir onde estava a filha: “Andei assim durante algum tempo e acabei por montar-me em detetive particular. Fiz de detetive particular, o que hoje reconheço que foi um erro, mas na altura foi a única forma que encontrei. Fui tentando perceber: a casa da tia, a casa de um, a casa de outro… onde é que a menina poderia estar, até que um dia descobri. Cheguei mesmo a comprar uma carrinha. Arranjei um lugar novo, pus vidros escuros na carrinha para não reconhecerem o carro, para eu poder estar lá dentro sem ser visto. Montei até uma cama dentro da carrinha. Eu vivia assim, à procura de saber onde estava a minha filha, porque ninguém me dizia nada. Eu não tinha acesso a nada”. Este testemunho revela o impacto psicológico profundo que a perda de contacto com um filho pode provocar. A procura constante por informações, a vigilância e a tentativa de reconstruir os movimentos da criança mostram até que ponto a necessidade de manter a ligação parental se pode tornar central na vida de um pai ou de uma mãe.
Também as instituições, neste caso a escola, podem tornar-se, involuntariamente, parte deste bloqueio de informação: “A mãe era a encarregada de educação e o agrupamento de escolas de A. também não me dizia se ela estava lá ou não, porque eu não era o encarregado de educação. Diziam que não me podiam dar essa informação. Eu cheguei a percorrer todas as escolas do concelho, mas ninguém me dizia nada”.
Num momento inesperado, e já marcado pelo desespero de Artur na procura da filha, surgiu uma pequena pista através das redes sociais: “Pronto, fui sabendo algumas coisas. Um dia vejo uma fotografia que a mãe publica no Facebook, não no meu, porque eu estava bloqueado, mas através do Facebook de uma pessoa conhecida de ambos. Nessa fotografia, a menina estava sentada à porta de uma casa. Com aquela fotografia, comecei a percorrer as ruas todas da cidade de Peniche à procura daquela porta. Andei assim durante dias e, ao fim de duas semanas, descobri aquela porta. Descobri mesmo aquela porta”. Este episódio revela até que ponto a perda de contacto com um filho pode transformar profundamente a vida de um pai ou de uma mãe. A partir de uma simples fotografia, Artur inicia uma busca quase obsessiva, percorrendo ruas, bairros e portas de uma cidade inteira à procura de um sinal que o pudesse aproximar da filha. A imagem de um pai a caminhar durante dias pelas ruas de A., tentando reconhecer uma porta vista numa fotografia, traduz o nível de desespero, de angústia e de solidão que muitas vezes acompanha estas histórias. Mas, para muitos pais alienados, qualquer pequena pista pode tornar-se uma esperança. Uma fotografia, um comentário nas redes sociais ou um detalhe aparentemente insignificante podem ser suficientes para desencadear longas tentativas de reencontro. Nesses momentos, ganhasse uma esperança e a vida volta a girar em torno de um único objetivo, encontrar o filho ou a filha e recuperar uma relação que parece estar a desaparecer.
Quando finalmente tenta voltar a aproximar-se da filha, o encontro com as instituições volta a gerar tensão: “A partir daí comecei a perceber por onde ela iria para a escola, e foi assim que a encontrei. Quando fui à escola tentar saber da menina, tudo se complicou. Houve discussões, houve problemas, a escola não queria dizer nada. Eu, na altura, estava muito emotivo e nervoso. Dizia: ‘Mas eu sou o pai da criança, porque é que não podem dizer onde está a minha filha?’ Reagi de forma muito impulsiva. Hoje reconheço que cometi muitos erros no início, porque não percebia nada de alienação parental. Zero”. Esta última reflexão de Artur é particularmente importante. Muitos pais que passam por situações semelhantes reconhecem, anos mais tarde, que reagiram de forma impulsiva ou emocional. No entanto, essas reações ocorrem frequentemente num contexto de grande desinformação e sofrimento psicológico.
A história de Artur mostra como a alienação parental pode transformar profundamente a vida de um pai ou de uma mãe, obrigando-os a viver entre a esperança de reencontrar o filho e a frustração de um contacto constantemente interrompido.
Nos próximos artigos continuaremos a acompanhar o percurso de Artur e a compreender, passo a passo, as consequências humanas e psicológicas deste fenómeno, ainda pouco compreendido por grande parte da sociedade.