Para muita gente, o que está em causa no Irão é apenas a presidência de Donald Trump num ano de eleições legislativas intercalares nos EUA. Os inimigos de Trump, com esperança, mas também alguns dos seus partidários, com apreensão, encaram a guerra como um erro fatal. Por isso, só conseguem ver como os mullahs podem vencer. Por exemplo, prolongando e alargando a guerra, de maneira a provocar uma crise económica que os eleitores de Trump não lhe perdoarão.
É possível que isto aconteça? É. O Irão vive sob uma ditadura apocalíptica que, como o Hamas em Gaza, não terá problemas em sujeitar o país a todas as destruições, à espera que Trump se inquiete com os custos da guerra e desista, ou que os Democratas, vitoriosos nas eleições de Novembro, o obriguem a desistir. Mas tem de ser assim? Não tem. O objectivo dos EUA e de Israel é acabar com o Irão como fonte de ataques de mísseis e de terroristas. Isso pode ser obtido mudando o regime, ou privando-o de meios. Não é impossível. A população iraniana, como se viu em Janeiro, ressente a ditadura de um clero que vê como arabizado. O Irão está sem defesa aérea, o que tem permitido a americanos e israelitas destruir os seus recursos militares sistematicamente. Isolou-se, ao atacar os países vizinhos e bloquear o estreito de Ormuz. Nem a China e a Rússia impediram que fosse condenado no conselho de segurança da ONU.
Trump pode perder, mas também pode ganhar. Porque é que tão pouca gente admite isso? Por duas razões. Primeiro, porque os críticos da economia de mercado e da democracia liberal criaram no Ocidente uma cultura de derrotismo que contrabalança a sua superioridade tecnológica e financeira. Assenta na ideia de que, por mais recursos que o Ocidente tenha, falta-lhe força moral, por exercer uma “opressão” capitalista sobre o mundo. Os “oprimidos” estariam destinados a vencer. Segundo, porque os políticos ocidentais estão habituados a permitir-se tudo, inclusive usar derrotas no exterior para marcarem pontos uns contra os outros nas suas lutas domésticas. Como neste caso: o que interessa é que Trump vá abaixo, e por isso não importa que os mullahs ganhem.
Importa, sim. Essa nonchalance fazia sentido quando o Ocidente era tão predominante que nenhum revés podia abalar esse domínio. Já não é assim. Há outras potências a emergir no mundo. O Ocidente acolheu muitas populações vindas do exterior, e a sua assimilação depende também da força que for capaz de demonstrar. Uma vitória do Irão seria aproveitada pelos radicais islâmicos para assinalar aos muçulmanos no Ocidente que não têm de se integrar em sociedades afinal decadentes, mas subvertê-las. Foi o que já começaram a conseguir no Reino Unido, ao obterem, a pretexto da “islamofobia” e portanto só a favor do Islão, uma potencial proibição da blasfémia. Voltaire teve esta semana a sua maior derrota num país ocidental. Talvez só Trump o possa salvar.
A guerra com o Irão vai definir o resto do século XXI. Uma vitória dos EUA e de Israel confirmará a supremacia do Ocidente e dos seus valores, e uma vitória da ditadura clerical iraniana o seu declínio. Pode não ser o fim, mas talvez seja o princípio do fim. Terá o Ocidente força moral e histórica para lutar e vencer? É verdade que a civilização ocidental é apenas uma entre outras civilizações. Não quer dizer que não devamos defendê-la como aquilo que valorizamos e nos define. Também é verdade que nenhuma civilização durou sempre, e a das democracias ocidentais talvez acabe um dia. Não quer dizer que não devamos fazer todos os esforços para prolongar o que tem sido e ainda é um dos grandes momentos da humanidade. Temos esse direito – e esse dever.