Chego a casa depois de me ter perdido e pensando que não tinha uma casa. Mas não somos nós que reclamamos os lugares, são eles que nos reclamam.
Na infância, olhava com espanto e alguma inveja para as pessoas que, nas férias, iam para a terra. Chamavam-lhe assim: terra. E depois voltavam e traziam caixas de fruta e hortaliças, que repartiam pela família e pelos vizinhos, bolos de mel e canela, frascos de geleia de marmelo.
Caminho pela rua e observo o lixo pelo chão: beatas, latas pisadas, sobras de uma obra, ninguém o apanha. Vou atenta às faces que passam por mim: castiças, doces e rudes, um senhor tisnado, talvez pescador, fuma com urgência uma cigarrilha, a senhora que passou, de sobretudo preto, tinha tatuado no pescoço um código de barras. Não conheço ninguém e, contudo, sou daqui.
É libertador ninguém me conhecer onde todos se conhecem. A rua é pobre e para trespasse, não há franceses finos nem crianças louras bem vestidas.
Como já aqui vivi, reencontro de vez em quando algumas caras familiares, que parece que se lembram de mim, mas não sabem de onde.
Pergunto-me, então, que será para alguém ser de um lugar, se também aqui, onde caminho, os clientes habituais vieram de longe. Falo com uma de três conhecidas que tenho na cidade. Veio de Minas Gerais, onde lavava a louça dos ricos na margem do rio. Ela conta-me do seu passado, vejo-a franzina lavadeira, descalça, as calças arregaçadas, os cabelos negros caindo sobre o rosto húmido, em pleno século XXI, ajoelhada dentro da água doce: a louça empilhada, pratos, talheres de um faqueiro, copos de vinho, primeiro suja (teriam dado um banquete?), depois lavada. Agora, trabalha numa fábrica que produz peças para aviões.
A hospitalidade de um lugar começa na paisagem, que nos acolhe ou nos molesta. Sou daqui porque foi aqui que chorei os meus mortos. Sou daqui porque foi aqui que deixei de conseguir caminhar no passeio e foi aqui que voltei a conseguir caminhar sozinha. Sou daqui porque me ofereceste a tua terra — e porque esta é a tua terra. Talvez seja o maior acto de amor. Darmos a alguém que amamos o lugar onde nascemos. Maior ainda se quem amamos não tinha uma casa antes de nos conhecer.
Vou e venho da rua. Entro nas lojas chinesas. Passo à porta da frutaria, que cheira a maçãs Bravo de Esmolfe. Na loja de jardinagem, uma senhora olha para o trevo que escolhi e comenta “Esta senhora tem jeito para escolher as plantas. Eu vivo numa mansão grande de mais só para mim, cheia de plantas, mas já não lhes ligo, estou doente, venho aqui só cheirar o jasmim.”
A baixa abandonada, e deixo-me abandonar, caminhando pelas ruelas, olhando os grafitti espirituosos, acelero o passo quando passam grupos de motards, ao domingo, perto do rio, andam peixeiras, lavradores, brasileiros, africanos, indostânicos, camones. Parecem todos arrumados no sítio certo e, ao mesmo tempo, fora do lugar. Se estou nervosa, treme-me a mão direita e custa-me escrever, tenho de ir parando, então páro, afago a aliança na mão esquerda, saboreio o parágrafo, toco nos dedos de uma mão com os dedos da outra. Atrevi-me a pôr a tocar a canção que ouvi na última semana que o meu pai viveu. Parece pouco, mas são incomensuráveis atrevimentos. Estamos aqui. Estamos vivos.