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(A) :: Eleições Sporting. O debate que se tornou numa entrevista com dois jornalistas (um candidato) onde o "entrevistado" falou mais 33 minutos

Eleições Sporting. O debate que se tornou numa entrevista com dois jornalistas (um candidato) onde o "entrevistado" falou mais 33 minutos

Único debate eleitoral do Sporting foi tudo menos "debate", variando entre entrevista a dois e quase interrogatório. Mais do que uma alternativa, a era Varandas foi a exame – e os factos deram a nota.

Bruno Roseiro
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Na visão mais conservadora, foi uma campanha eleitoral “atípica”. Aliás, nem chegou propriamente a ser algo a que se chamasse uma “campanha”. Um dos candidatos, neste caso o recandidato, pura e simplesmente não teve ações de campanha. Frederico Varandas anunciou num jantar do grupo Stromp que iria avançar para um terceiro mandato, explicou que tinha intenção de consolidar o projeto que iniciara em 2018 e, daí para cá, teve apenas intervenções na “condição” de presidente, sobretudo em resposta ao FC Porto de André Villas-Boas. O outro candidato, neste caso a cara nova na corrida, fez a campanha possível. Bruno Sá, alcunha pela qual Bruno Sorreluz é conhecido, visitou alguns Núcleos do clube pelo País, deu algumas entrevistas a meios de comunicação e podcasts, fez algumas publicações nas redes sociais. Agora, pela primeira vez, iriam estar frente a frente, naquele que seria o único debate entre candidatos antes das eleições na Sporting TV.

https://observador.pt/liveblogs/sporting-bruno-sa-e-frederico-varandas-em-debate-unico-a-dois-dias-das-eleicoes/

Apesar de ser um sufrágio que, na teoria, estava “traçado” em termos de resultado, Varandas apontava a este momento como o dia em que poderia explicar melhor os objetivos que tinha para o quadriénio 2026-2030, até tendo em conta que, em resumo, o programa para um terceiro mandato passa por algo sistematizado em setembro de 2024, quando foi apresentado o projeto “Future is Coming 2024-2034” num plano para uma década que apostava numa fase de crescimento com total renovação do Estádio José Alvalade e zona envolvente. Da parte de Bruno Sá, a principal mensagem passava sempre pela vontade de colocar de forma acentuada os sócios no centro de todo o clube apontando a reformas no scouting e Unidade de Performance.

Da forma mais improvável que se poderia pensar, ambos prosseguiram nessa linha mas num debate que se tornou em muitos momentos numa entrevista com dois jornalistas, um deles candidato, ao presidente do Sporting. Varandas colocou em cima da mesa todos os números e factos nas várias áreas e vertentes do clube não só em relação ao último mandato mas também em relação ao trajeto desde 2018 e do que pretende para o futuro dos leões a breve e médio/longo prazo, Bruno Sá colocou-se muitas vezes no papel do sócio que quer ter explicações em relação a alguns temas, deixando com isso que tudo girasse à volta do caminho do atual líder e não tanto em torno daquilo que defende como principais linhas programáticas em caso de vitória. Ainda assim, apesar dos 33 minutos a mais que Varandas teve pela própria forma como tudo decorreu ao longo de quase duas horas e meia (que deveriam ser “apenas” 90 minutos), houve oito despiques mais “acesos” onde foi mais a avaliação ao que foi feito que esteve em cima da mesa e não uma “alternativa”.

“Estou com uma direta em cima”: o mote para o primeiro despique sobre data do debate

Logo a abrir, no arranque da primeira resposta, Frederico Varandas deixou um reparo em relação à data do debate, apenas a 36 horas do sufrágio do Sporting. “Não tenho como não mostrar o incómodo de fazermos o debate a 36 horas de abrir as urnas para as eleições. Não pelo facto de ter chegado às 6h30 da Noruega e ter um dia de trabalho pela frente. Estou com uma direta em cima. Estamos aqui a debater e cerca de 25 mil sócios já votaram ou não por correspondência. Houve falta de sensibilidade para não haver data. O candidato Bruno disse que tinha agenda sobrecarregada mas era de evitar e lamentável”, apontou o presidente leonino.

“Da primeira vez que me desloquei ao Estádio José Alvalade, falei com o doutor João Palma, por quem tenho o maior apreço, e perguntei logo se haveria debate. Não me foi respondido nada. Alguns dias mais tarde, só para repor a verdade, já que começámos desta forma, perguntei se haveria debate, não me foi respondido. Mais tarde fui contactado, neste caso a minha mulher, que é a minha mandatária, para uma data: dia 4. Sei que o atual presidente não vai muito aos Núcleos e não precisa de se dar a conhecer, já fez isso da primeira vez e nunca mais passou por lá. Eu tenho de me dar a conhecer. Propus dia 12. Noto grande preocupação em relação aos votos correspondentes, esse tal respeito que o doutor Frederico Varandas diz ter pelos sócios. Se pensasse em descentralizar o voto e permitir a essas pessoas votar, como tem tanto respeito… Nem se dignou a fazer um programa, a visitar Núcleos, a fazer entrevistas. Este foi o único debate a que se propôs. Tenho pena que venha cansado, obviamente, mas era a única data disponível”, respondeu Bruno Sá.

“Um Sporting de entertainment“, o Sporting das pessoas e a (agora) luta pelos títulos

Bruno Sá colocou depois em cima da mesa aquilo que tem sido o grande chavão da campanha e que passa pelo que entende ser um “fosso” grande entre clube e sócios. “O Sporting vive atualmente um grande distanciamento das pessoas, é difícil participar na vida ativa do clube. As Assembleias Gerais não têm pessoas e é por isso que estou aqui. Para trocar ideias com o presidente. Acho que há muita coisa a melhorar. Não interessa só ganhar, interessa ter as pessoas presentes. Há várias ideias que quero discutir neste debate e aproveito e estou aqui frente a frente com o doutor”, referiu. “É óbvio que não me candidato contra ninguém, candidato-me pela democracia, pelos sócios, com uma ideia muito diferente da atual, baseada nos clientes, neste elogio constante. Eu estou aqui para falar sobre o presente e futuro. O doutor Frederico Varandas é um Sporting de entertainment, eu um Sporting virado para as pessoas”, acrescentou.

“Os sócios conhecem o que foi feito desde 2018. Lançámos um plano a dez anos, que o Sporting siga para lá deste mandato. Queremos continuar a missão de servir o Sporting. E sem esquecer o ponto de partida, um clube que não ganhava há 17 anos, que estava numa situação económica frágil, numa situação social nunca antes vista. O Sporting é agora o que qualquer adepto quer ver no seu clube. Que é liderar o desporto em Portugal. Ninguém ganhou mais do que o Sporting desde 2018 e fizemos com estabilidade financeira e respeitando os valores do Sporting, dignidade, ética e integridade. Era um gigante adormecido, um quarto aspirante a grande a morder os calcanhares. Passámos a lutar por títulos”, respondeu Varandas.

Os códigos de barras nos boletins de voto dos atletas que Varandas nunca viu

Outro dos pontos de despique no início do debate passou pelos boletins de voto que têm sido enviados aos associados que podem exercer o direito por correspondência. “Hoje de manhã recebi esta carta em relação ao respeito pelos sócios. Está aqui quem enviou. ‘Senhor Bruno Sá’… Como sabe tenho muitos amigos e vivo junto a alguns jogadores. Queria só esclarecer isto, o Frederico tem várias experiências. Gostava que me esclarecessem isto. Se o boletim de voto tem um código que identifica em quem é que cada atleta vota. Gostava de esclarecer. Se o Frederico me puder esclarecer se isto é verdade. Este é o respeito pelos sócios. Saber em quem é que cada pessoa vota, falar com os atletas e dizer ‘tenham atenção em quem votam’. Nunca estive em nenhuma eleição, gostava que me explicassem…”, começou por dizer o líder da lista A.

“Não faço ideia sequer de como é o boletim de voto. De há sete ou há quatro anos. O responsável pelo processo eleitoral é o doutor João Palma e a Mesa da Assembleia Geral. É a terceira vez que vou e nunca vi qualquer boletim. Os órgãos são independentes. A Mesa da Assembleia Geral organiza o ato eleitoral e só soube que ia ser a lista B, soube do dia das eleições e soube do dia de debate das eleições. Com todo o respeito, não sei qual é a sua lista sequer”, respondeu Varandas. “Olhe, eu soube a sua lista um mês depois das minhas saíram nos jornais. Verdade ou mentira? Não podemos ser profetas da verdade…” retorquiu Sá.

Os resultados da SAD e o financiamento de 225 milhões que se tornou num monólogo

A parte financeira fez com que os tempos mais se desequilibrassem entre os dois candidatos, com Frederico Varandas a escalpelizar de forma pormenorizada vários pontos relacionados com as contas verde e brancas. “Em relação às finanças, foi mais um ano de resultado líquido positivo, o quarto ano consecutivo. Falo de factos e do trabalho feito ao longo de oito anos. Se foi bem feito ou mal feito, daqui 36 horas dirão de sua justiça. Nas seis épocas que esta Direção planeou do princípio ao fim, em cinco tivemos lucro. Não tivemos numa época, no ano da pandemia. É a nossa linha. É muito importante, independentemente dos resultados desportivos, garantir a sustentabilidade do Sporting. Que nunca coloquemos em perigo o Sporting por uma conquista no futuro. Apresentámos lucro com um resultado de 80 milhões de euros em quatro exercícios. De facto aumentámos o passivo. De forma estratégica, achámos que era o momento de o fazer. Tínhamos duas vias para governar o Sporting. Nos últimos 16 anos antes de chegarmos, houve zero investimento e degradação de todo o património do clube e SAD”, começou por dizer Frederico Varandas.

“A partir de 2018, tentando reequilibrar as contas primeiro, fizemos investimento com capitais próprios, com investimento na Academia, no Polo Universitário e no último mandato no Estádio. Os resultados estão à vista. Para poder continuar a investir, ou continuamos nós próprios porque somos nós que temos de criar receita através de receitas operacionais ou venda de jogadores, ou então podemos financiar-nos. Gozamos de uma credibilidade financeira, daí ser um clube altamente credível do ponto de vista financeiro”, frisou.

“Fazemos o financiamento de 225 milhões de euros e investimentos para outra dimensão. O mercado deu razão ao Sporting, que estava na altura ideal de o fazer. Tivemos uma procura de nove vezes mais. Dois mil milhões foi o que quiseram investir no Sporting. Falamos de investidores internacionais de referência. Tivemos a assessoria da JP Morgan e o crédito de risco foi avaliado em credit investment rate. Os próprios investidores queriam que o Sporting fizesse ainda mais dívida. O projeto está claro no plano que apresentámos num documento com mais de 100 páginas. Em dez anos, o Sporting vai dobrar as receitas. Vamos promover um espaço José Alvalade, aberto de 15 em 15 dias, quando jogamos em casa e daí fazemos receitas. Esse espaço vai permitir meter o Sporting noutro patamar. Lojas online, físicas, o Museu de última geração, o espaço da Alvaláxia e surpresas que vão ser detalhadas brevemente. Estamos completamente confortáveis. A receita desse investimento vai pagar confortavelmente o empréstimo”, assegurou.

“O que eu exijo neste momento é preocupação. Tenho receio que tenha de ser a troika do Sporting. O Frederico faz-me lembrar uma pessoa que esteve no governo, que empurrava sempre de barriga para a frente e depois tivemos de chamar a troika. Não desmentiu os factos. O que exijo é transparência, que não engane os sócios. Se formos contabilizar os juros, estamos a falar de um passivo de mais de 900 milhões. Continue a ofender-me. É a forma que encontra para reagir a quem diz o que você não quer…”, acusou Bruno Sá.

“O Bruno disse que em 2018 tínhamos um passivo de 200 milhões e agora está em 500 milhões. A diferença é que quando chegámos em 2018 o Sporting tinha em incumprimento 50 milhões, 42 milhões desses a clubes e jogadores. Agora temos 500 milhões, temos 100 milhões de fundo de maneio. Dívida é só dívida. Existe dívida corrente, dívida incumprida e dívida a longo prazo. O Bruno é um grande sportinguista, é empreendedor mas tem de ter a humildade de ver que quem faz estas agência de rating – das melhores do Mundo – considera o projeto do Sporting sólido. Não é a mesma coisa ter 200 milhões de dívida com incumprimento e insolvência, o Sporting agora cumpre com todos. O passivo aumentou para duplicar as receitas. Onde aumentou a dívida de fornecedores? Deve-se à compra de jogadores, investimento. O que interessa no balanço de uma empresa é o passivo versus ativo. Aumentámos o passivo investindo. Sabe qual era o valor do plantel em 2018? 140 milhões. Hoje o ativo é de 470 milhões, triplicou”, disse Varandas.

Do investidor minoritário na SAD às Assembleias Gerais versão McDrive do clube

Aproveitando um virar de assunto, foi Bruno Sá que começou a falar na parte do investimento externo no capital social da SAD, mais uma vez colocando várias questões a Frederico Varandas. “É a oportunidade que tenho de estar com Frederico Varandas, como posso estar a falar numa AG com uma pessoa que está assim?”, começou por dizer, tentando exibir uma imagem do presidente leonino numa reunião magna. “Tem de passar sempre tudo pelos sócios. Você não esclareceu isto. Falou na possibilidade do Chelsea, disse que ia voltar a falar, não fala, não esclarece. Para mim é claro: nunca vender a maioria da SAD. A entrada de capital tem de passar sempre pelos sócios. Gostava que o Frederico esclarecesse. Se admito a entrada de capital? Obviamente. Mas isso tem de passar pelos sócios. Como não esclarece, não é transparente e não responde ao que disse, é óbvio que a dívida cada vez maior do clube à SAD significa que vai entrar capital estrangeiro. Não disseram quem era nem se era a maioria. Queria esclarecer isto”, inquiriu o candidato.

“É falso que tenha dito que o Chelsea iria entrar no Sporting. No nosso plano estratégico a dez anos é referido que temos previsto a entrada de um parceiro num capital minoritário que ajude a alavancar o clube e sempre nos valores desportivos. Não há algo neste momento. Está garantida a maioria do capital da SAD. Deve e vai manter-se no clube. No Sporting, como afirmámos já em 2022 e até antes, temos prevista a possibilidade de entrada de um parceiro na minoria do capital da SAD mas deve ser um parceiro que promova uma sinergia e faça crescer o clube. Essa decisão será sempre levada a Assembleia Geral do clube, como também foi a compra do Alvaláxia. Sabe qual era a média de participantes nas AG antes de chegar? 300 a 400 pessoas. Sabe qual é agora? 6.000. A AG antes devia ser com uma minoria que achava que controlava o clube, agora são abertas em dias de jogo. E vão lá falar. O Bruno é que gostava do modelo de AG para 200 pessoas. Participam mais de 6.000, existem dois tempos de perguntas aos órgãos sociais. Quem quiser, inscreve-se. Os sócios estão muito contentes com o Sporting…”, respondeu Frederico Varandas sobre o tema.

“Lá está você traumatizado… Isto não é o McDonald’s, não é o McDrive. Você vai para as Assembleias Gerais bocejar e comer amendoins. Já chamou notáveis, já chamou estúpidos [aos sócios], já chamou tudo, já os fez descalçarem-se… Eu gostava que houvesse debate de ideias. E você não quer debater com ninguém, quer fazer tudo sem ouvir os sócios. As pessoas vão lá votar e vão-se embora…”, atirou ao empresário.

Humildade (ou falta dela), orgulho e os lugares para os influencers tirarem selfies

Foi na parte de sócios versus clientes que Bruno Sá falou mais tempo para defender também o porquê da sua candidatura. “Parece óbvio para toda a gente, menos para o doutor Frederico Varandas, que os sócios hoje no Sporting não têm direitos. Fala de aumentos, aumentos… Ele que diga quantos sócios aumentou com um Sporting bicampeão… Ele raramente vai ao pavilhão. Há um desligar com esta Direção. Até tinha o lema ‘Unir os sócios’, agora já não convém dizer. Aliás, tinha membros das claques dentro da sua Direção, depois chateou-se e afastou-se das pessoas. É estranho falar em sócios quando os critérios de bilhética são o que são. Fala em sócios, raramente vai aos Núcleos. Marca jogos para horários em que as pessoas não podem vir. Fala em sócios, tem o site que tem. Fala-se muito em futuro, em termos ingleses… É óbvio para toda a gente. Cria uma bancada para as pessoas tiraram selfies. Prefere ter uma green list com lista de espera, fazer obras só na central e abandonar os outros sócios. Os 300 que está sempre com o trauma, os tais notáveis. Esta Direção é alérgica a pessoas e essa é das minhas grandes preocupações”, começou por dizer.

“A parte comercial já está criada. O ideal será haver um meio-termo. Recorda-se o que acontecia a adeptos que tinham Gamebox há mais de 20 anos? Além de serem descalços para entrarem no estádio… Chegou ao ponto de meter uma claque lá em cima depois de ter feito um acordo. O clube está fechado, as pessoas não conseguem adquirir bilhetes. Quem entra na porta 10 não tem revistas, nas portas 8 e 9 as pessoas entram a meio do jogo. As pessoas, os sócios não se sentem em casa. Ninguém pode ficar de fora. Todos os sócios são importantes. Um dos critérios tem de ser ‘Quem tinha lugar há mais de 20 anos não pode ser agora excluído’. Há pessoas que não podem pagar tanto por ano. Tem de haver uma bancada comum, para todos. Todos têm direito de estar no Estádio. Claro que o meio termo é difícil alcançar mas o Sporting está muito virado para o corporate. Aqueles lugares novos são muito virados para o corporate, para os instagramers, influencers Mas o que é que isso interessa? Ganhar e ter a família toda de fora?”, acrescentou Bruno Sá.

“Se concordo? Não, de todo. E basta agarrar nos factos, que são os números. O Sporting tinha 74 mil sócios com quotas em dia, hoje tem 125 mil. O Bruno insiste que o sócio é mal tratado, então o sócio deve ser masoquista e atrasado mental, porque há muito mais sócios hoje. Não admito que há pessoas que se acham os donos morais do amor ao clube e que só eles sentem o clube. Há pessoas que gostam de ser presidentes do Sporting e não fazem noção do que é estar neste cargo. Fala sempre no Sporting dos sócios e que sentia ao ir ao pavilhão… Ser presidente do Sporting não é bater no peito. Sou sócio desde que nasci, o meu avó era dos mais antigos, o meu pai, o meu irmão, a minha mãe… A minha tia avó trabalhou na ginástica, colega do professor Reis Pinto. A minha sobrinha professora da ginástica. Não me ensina o que é ser Sporting. Sofri a minha vida toda a ver o Sporting e ver Benfica e FC Porto lá em cima. A minha geração, que é a sua, é a mesma. O sócio hoje é feliz no Sporting porque ganha e vê os rivais abaixo, coisa que nunca vi, coisa que o meu pai que tem 71 anos também nunca viu…”, respondeu Varandas num tom mais irritado até Bruno Sá dizer que conhecia uma tia do atual presidente, que aí esboçou um sorriso com a abordagem.

“Hoje o sócio do Sporting tem orgulho do Sporting, tem orgulho dos valores e tem títulos. Hoje chego à escola do meu filho, na primária, e dois terços dos miúdos são sportinguistas. Infelizmente o estádio tem 50 mil lugares, hoje vendemos 30 mil Gamebox, 16 mil sócios em espera e sabem porquê? Porque gostam de ser maltratados? Gostamos dos sócios, tomara eu ter um estádio para 120 mil. Não só nos preocupamos mas sabemos o grau de satisfação deles. Todos os jogos fazemos um inquérito de satisfação e a média é de oito numa escala de um a dez. Temos um fosso fechado, mudámos as cadeiras, pintámos o estádio, tirámos os azulejos”, disse depois Varandas. “Você tem de ser verdadeiro. Está farto de falar, basta olhar para o cronómetro. Já em o dobro do tempo… Você quer ser o presidente de alguns, eu quero ser o presidente de todos. Até já antecipou que daqui a 36 horas vai ganhar outra vez. Você é maior do que o Sporting, esse é que é o seu grande problema, falta de humildade”, voltou a referir Bruno Sá a esse propósito.

Bilhar ou fosso, a questão das claques e um Sporting acima de tudo e todos

A parte dos Grupos Organizados de Adeptos, um dos previsíveis pontos quentes do debate, começou por ser abordado por Frederico Varandas. “Estou no Sporting com missão e a missão era entregar o Sporting melhor do que o tinha encontrado. O Sporting não está melhor, está 100 vezes melhor. Quero lá saber do nome de Frederico Varandas, nas placas, no que quer que seja. Interessa-me o Sporting. Não quero o meu nome em lado nenhum. O que quero são os títulos do Sporting e que as novas gerações continuem a ser Sporting”, começou por referir Frederico Varandas, antes de abordar a questão das claques… e não só.

“Os GOA, os Leões de Portugal, o Grupo Stromp, os Cinquentenários… Respeito todos. Estes grupos estão para servir o Sporting e não o contrário. O Sporting não tem problema com qualquer GOA, não quer a extinção de nenhum GOA ou qualquer grupo. Mas a política é clara: estes grupos existem porque existe o Sporting.  O Sporting respeita os grupos e só há um que aceitou ser um grupo oficial, que é a Brigada. Directivo, Juventude Leonina e Torcida não querem estar nas ZCEAP. Respeitamos, agradecemos, estamos gratos pelo apoio que dão no estádio e no pavilhão, foram fundamentais pelos inúmeros títulos que conquistámos. Gostaríamos de dar melhores condições. Já perguntámos à UEFA mas os grupos recusam-se a ir para as ZCEAP porque não querem ser identificados. Falar da Casinha ou das sedes… Acabámos com o bilhar e tirámos o ténis de mesa dali porque precisamos do espaço… A prioridade é o Sporting, enquanto estivermos aqui. O ténis de mesa está a treinar fora, uma modalidade que nos dá títulos. A resposta é simples: Sporting Bilhar? A resposta é simples: ou era bilhar ou era fechar o fosso…”, apontou o presidente.

“Manda uma modalidade com 30 anos de história como o bilhar embora… Manda todos embora? Você é o maior populista que passou pelo Sporting, chama de tudo às pessoas. Diga mais. Você está com mais 20 minutos do que eu… Mandou toda a gente embora, não arranjou alternativa. Nem para o Diretivo, nem para a Brigada, nem para o bilhar…”, salientou Bruno Sá. “Os GOA fazem parte da história do clube. Este senhor não quer falar com ninguém quando ganha, imaginem quando não ganhamos… Evidente que não podemos ganhar sempre, então não há diálogo com os GOA. Bilhar, sai. Brigada, sai. Tira-se a sala aos Leões de Portugal, sai. Você não quer saber das pessoas, só pensa em negócio…”, acrescentou o empresário.

O futuro de Rui Borges, duas eras pré e pós Amorim e a Unidade de Performance

A parte final do debate colocou em cima da mesa o tema do futebol, neste caso com Bruno Sá a começar e a ter o período mais “longo” a falar de forma contínua. “O grande mentor do projeto Frederico Varandas foi o Ruben Amorim. Há um pré e um pós Ruben Amorim. Em relação à Champions, recordo-me do que disse há dois anos, que não era obrigatório o Sporting vencer o Marselha e a Atalanta. Então não era obrigatório ganhar ao Bodö/Glimt… Há um pré-Amorim, uma série de treinadores contratados e despedidos, depois há a época Ruben Amorim, um pouco entregar a chave na mão do clube. Escolheu as pessoas da Academia, o sistema tático, ele e os seus familiares criaram um Sporting vencedor e agora nota-se. Depois houve a derrapagem João Pereira e agora já se nota que a corda vai partir com o Rui Borges. Os cartilheiros de Frederico Varandas já falam da questão. Basta olhar para os mercados na altura do Ruben Amorim e o pós… No ano passado tivemos Biel e Rui Silva, com 12 lesionados. Este ano no verão substituímos dois grandes jogadores, Harder e Gyökeres, com dois jogadores da lista de Ruben Amorim, Suárez e Ioannidis. E agora assistimos a mais um mercado vergonhoso. E estamos nas três frentes…”, começou por referir.

“O Sporting tem de ter um modelo de clube e o treinador é só mais uma pessoa que integra a estrutura. Um scouting de referência, uma formação de excelência, investir nas instalações… Será que os 225 milhões, em vez de serem para o corporate, podem servir para o desenvolvimento do futebol, para investir no scouting, na formação e instalações? E depois o departamento médico, que é aqui com o doutor Frederico Varandas, acho que também deveríamos investir. O modelo nunca pode ser com chave na mão para um treinador e depois passar para outro que não decide nada. Se Rui Borges é o meu treinador? Isso veremos quando lá chegarmos… Falo mais uma vez do doutor Frederico Varandas, uma pessoa que gostas muito de pessoas e de tratar bem toda a gente. O que disse foi: tendo em conta o que o doutor dá ao Rui Borges e o que ele nos deu, eu já teria renovado no caso de estar lá no Sporting. Chegando, tenho de analisar, ver resultados e ver se se enquadra no modelo. Mas já percebi que é por lá que vai partir a corda…”, continuou o empresário.

Os quatro pilares que já referi e um diretor desportivo que não vale a pena referir. Está identificado mas não vale a pena entrar num leilão de nomes. Estou preparado para entrar já mas se não entrar já terei de estar vigilante. No caso de ganhar, também quero que haja vigilância. Nenhum treinador ou presidente podem ter carta branca. Mercado de janeiro? Sabendo que estamos em três frentes, os jogadores que vamos buscar em dezembro têm de conhecer o campeonato e entrar logo no 11. Perdemos o Alisson, vieram jogadores que não sabemos no que vão dar. Face às lesões e cansaço dos jogadores, estamos a ter as dificuldades previstas face à falta de soluções e investimento. A Unidade de Performance foi uma bandeira para 2018 de Frederico Varandas mas não resultou. No ano passado 12 lesões, este ano vamos em dez. Bragança foi operado fora do clube, Trincão e Pote tratam-se fora do clube, Ioannidis lesiona-se, Nuno Santos, Debast… Temos de ir buscar os melhores profissionais. A Unidade de Performance é para manter mas com outros especialistas. Até tenho aqui uma foto do tempo do Jesé, não sei se conhece”, prosseguiu Bruno Sá.

Foi nesse ponto que, percebendo que estava em causa a sua clínica, Frederico Varandas começou por dizer que a imagem dizia respeito ao tempo em que era ainda diretor clínico [n.d.r. Jesé chegou já com Varandas como presidente] mas voltou a sublinhar algo que defendeu ainda na campanha de 2018: “Os jogadores faziam os exames de borla”. “Eu era diretor clínico do Sporting, abri as clínicas em 2015 e tinham melhores condições de 2015 a 2019, faziam os exames lá de borla. Não houve um euro pago entre o Sporting e a clínica. Fui eleito em 2018, em 2019 reorganizei a unidade de performance e houve só acordo com a CUF para exames e operações. De 2002 a 2018 houve zero investimento. Eu era diretor clínico e, de borla, os jogadores usavam a clínica para tratamento. Hoje o Sporting tem condições de luxo”, frisou o líder leonino.

“Esta Direção foi buscar Francisco Tavares, coordenador da Unidade de Performance. Foi convidado para ser diretor num clube que está no top 4 da Premier League. O diretor clínico, João Pedro Araújo, teve um convite para ir para diretor clínico de clubes na Arábia Saudita do top 5. Tenha orgulho nos seus colaboradores… Temos de falar em títulos de futebol profissional e esta Direção conquistou nove. É a mais titulada da história do clube. Pela primeira vez na história o Sporting está no top 20 no ranking da UEFA. Estamos em 18º. Pelo segundo ano consecutivo o Sporting tem o plantel mais valioso de todas as ligas a seguir ao top 5 europeu. Desde que Ruben Amorim saiu, fomos bicampeões e ganhámos a Taça de Portugal. Isto é sobre o projeto desportivo do Sporting. O Sporting está a lutar pelo tri, na meia-final da Taça, terminou a fase regular da Champions como sétima equipa da Europa. Tem um treinador que a decisão [da renovação] está tomada e jamais irei utilizar em campanhas eleitorais”, prosseguiu Frederico Varandas, que falou ainda no seu caso quando falou numa proposta 15 vezes superior que recebeu da Arábia Saudita.