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Mais de 20 anos após a queda de Saddam, Iraque transforma-se de novo num "campo de batalha"

Bush ordenou há 23 anos invasão que depôs Saddam Hussein. Iraque mergulhou numa guerra civil que criou as condições para surgimento do Daesh. País é agora palco indireto do conflito entre EUA e Irão.

José Carlos Duarte
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Um avião reabastecedor norte-americano que se despenhou. Bases militares dos Estados Unidos da América (EUA) atacadas. Além dos Estados do Golfo, Washington vê as suas posições no Médio Oriente a tornarem-se um alvo noutro país: o Iraque. Em simultâneo, instalações de milícias aliadas de Teerão são bombardeadas. Dividido entre sunitas, xiitas e curdos, o território iraquiano transformou-se num dos palcos de conflito desde o início da operação militar Fúria Épica. E isso pode ter consequências para a estabilidade de um país que ainda tem feridas para sarar, resultantes da invasão norte-americana que derrubou o regime de Saddam Hussein.

Foi há 23 anos — a 20 de março de 2003 — que o antigo Presidente norte-americano, George W. Bush, deu luz verde para que o Iraque fosse bombardeado para derrubar o regime visto como hostil em Bagdade. Numa altura em que os Estados Unidos estavam a tentar lidar com os efeitos do 11 de Setembro e tinham em curso a “Guerra Global contra o Terror”, a Casa Branca considerou que Saddam Hussein não podia continuar mais no poder. A ofensiva militar foi bem-sucedida: o líder iraquiano há décadas no poder foi deposto, preso e depois julgado, acabando por ser condenado à pena de morte por enforcamento.

Os EUA assumiram o controlo da transição de poder, desejando impor uma democracia liberal do estilo ocidental. No entanto, o processo fracassou inicialmente. Sunita e baathista, Saddam Hussein era uma figura odiada por muitos xiitas, que aproveitaram o vazio de poder para se impor, já que são a maioria da população no Iraque (cerca de 60%). Os curdos, que vivem principalmente no norte do país, reclamaram autonomia. O país entrou numa sangrenta guerra civil, alimentada pelas divisões sectárias e étnicas.

Essa guerra civil foi uma oportunidade para o Irão aumentar a sua influência no Médio Oriente, mesmo que condenasse publicamente a invasão dos Estados Unidos, seu principal adversário, em 2003. O regime dos aiatolas manteve sempre uma tensa relação com Saddam Hussein, resultante da guerra que opôs os dois países entre 1980 e 1988. Ideologicamente, eram também rivais: de um lado, havia uma autocracia sunita e secular, do outro uma teocracia xiita. Com o líder baathista fora de cena, os iranianos foram expandindo a sua rede de influência, dando apoio a milícias xiitas.

Em 2026, o Governo iraquiano mantém, em termos gerais, boas relações com Teerão. Líderes políticos xiitas chefiam o país, numa lógica formalmente secular em que existe representação parlamentar para outras fações. Porém, o Irão não tem apenas um Executivo aliado em Bagdade: criou e alimentou milícias armadas que funcionam à margem do Estado. Neste momento, são dezenas e estão espalhadas pelo Iraque, muitas delas integrando o “eixo de resistência” iraniano do Médio Oriente.

Num frágil equilíbrio e com assimetrias de poder entre diferentes fações, a estabilidade iraquiana está a ser posta à prova pela guerra no Irão. Entre os xiitas, coexistem posições distintas: muitos líderes religiosos e políticos procuram manter o Iraque à margem do conflito, enquanto outros declararam apoio a Teerão e atacam posições norte-americanas no país. Praticamente marginalizados da cena política, os sunitas não escondem algum entusiasmo quando veem as fundações do Governo no Irão a tremer. E os curdos iraquianos são vistos como em Washington e Telavive como um possível trunfo para iniciar uma revolta no país vizinho.

https://observador.pt/especiais/curdos-a-ambiciosa-e-arriscada-aposta-dos-eua-e-de-israel-para-derrotarem-o-irao/

Iraque. Do Rei Faisal I ao fim de Saddam Hussein

Guerra Fria, final dos anos 50. Numa altura de crescente nacionalismo no mundo árabe e da independência de vários países, o reino iraquiano entrou num período turbulento. A região que pertence ao Iraque integrou o Império Otomano durante séculos; quando colapsou depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a região ficou sob mandato britânico vários anos. A população local resistiu ao domínio do Reino Unido, que em 1932 aceitou a criação de um reino iraquiano formalmente independente, governado por uma monarquia aliada.

O Rei Faisal I, da dinastia haxemita — à qual também pertence a atual família real da Jordânia —, foi o primeiro monarca do Iraque. Não teve uma missão nada fácil. A coroa iraquiana enfrentou inúmeros problemas internos, enquanto os britânicos nunca abandonaram efetivamente a região, o que alimentou ressentimentos entre muitos iraquianos. Foi, aliás, no país que ocorreu o primeiro golpe de Estado militar no mundo árabe, em 1936.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a criação do Estado de Israel contribuiu para aumentar ainda mais as tensões no Médio Oriente, o que afetou diretamente a coroa iraquiana, aliada de Londres. A deslocação de populações palestinianas dos territórios do Estado judaico e a derrota árabe em 1948 reforçaram o nacionalismo e o anti‑imperialismo na região. É neste contexto que o movimento baathista vai ganhando força, exigindo a unificação do mundo árabe sunita sob princípios socialistas.

Em 1958, a monarquia dos haxemitas foi derrubada por um golpe de Estado militar liderado por grupos nacionalistas, abrindo caminho para o fim da monarquia iraquiana e à criação da República do Iraque. Nos primeiros anos do novo sistema político, coexistiam várias correntes e o movimento baathista ia ganhando força. Os baathistas assumiram mesmo o controlo do país nos anos 60, instalando o regime que Saddam Hussein viria a liderar até 2003.

Inicialmente, o Governo de inspiração baathista fez jus ao seu cariz socialista e aproximou-se da União Soviética, no mundo da Guerra Fria dividida entre dois blocos. Em 1979, o Iraque assistiu preocupado ao que se passava do outro lado da fronteira: o início de uma revolução iraniana que acabaria por colocar uma República Islâmica xiita de carácter teocrático no poder. As relações com o regime secular do Xá da Pérsia não eram as melhores, mas os iraquianos temiam que os xiitas no país — a maioria da população — quisessem seguir o exemplo iraniano e assumir o poder.

Já Presidente durante a revolução iraniana, Saddam Hussein nunca escondeu a animosidade que sentiu pelo Governo dos clérigos xiitas. Com o apoio tácito de várias potências ocidentais, invadiu o Irão em 1980. Os iraquianos obtiveram várias vitórias iniciais, mas os iranianos conseguiram virar a situação e chegaram mesmo a avançar sobre território iraquiano. O conflito terminou em 1988 sem uma vitória clara — e com os dois países a entrarem em ruína económica.

A difícil situação económica foi um dos fatores que levou Saddam Hussein a invadir o Kuwait em 1990. O Iraque acabou derrotado de um conflito em que as potências ocidentais defenderam o pequeno (mas rico em petróleo) emirado do Golfo Pérsico. Seguiram-se anos bastantes turbulentos para o regime iraquiano: ficou praticamente isolado (já nem sequer tinha a União Soviética) e passou a ser tratado como um pária, alvo de duras sanções impostas pelas Nações Unidas. O país entrou numa grave crise humanitária como consequência.

Apesar do isolamento, o Iraque manteve uma relação fria com o regime dos aiatolas, que continuava a ser visto em Bagdade como uma potencial ameaça estratégica. Nos últimos anos do mandato de Saddam Hussein, os principais rivais eram os Estados Unidos, país onde sempre houve quem defendesse uma mudança de regime no Iraque desde a Guerra do Golfo. Mesmo que o regime iraquiano não estivesse diretamente associado à Al-Qaeda, o clima criado nos Estados Unidos após os atentados do 11 de Setembro de 2001 deu nova tração às vozes que apoiavam uma intervenção militar no Iraque.

A 20 de março de 2003, depois de uma primeira vaga de bombardeamentos, os Estados Unidos e os seus aliados avançam por terra e invadem o Iraque. O regime iraquiano de inspiração baathista colapsou em cerca de duas semanas. No entanto, Saddam Hussein conseguiu fugir e só foi capturado em meados de dezembro de 2003, sendo detido e posteriormente julgado. O antigo Presidente foi condenado à morte por enforcamento, tendo morrido em dezembro de 2006.

A guerra civil, Daesh e o início da influência iraniana

Durante o vazio de poder que se seguiu à queda de Saddam Hussein, os Estados Unidos criaram a Autoridade Provisória da Coligação, um órgão que tinha como objetivo preparar a transição para um novo regime democrático. Porém, rapidamente as rivalidades religiosas vieram ao de cima. Depois de décadas de ostracização e repressão sob o regime baathista, muitos líderes xiitas sentiram que tinha chegado o momento de assumir  protagonismo político, enquanto amplos setores sunitas resistiam a perder influência e a posição dominante.

Em 2006, a violência entre milícias sunitas e xiitas deu origem a uma guerra civil no Iraque. Por sua vez, o Irão acompanhou o conflito de muito perto e prestou o apoio a milícias e partidos xiitas, vendo no colapso do regime de Saddam Hussein uma oportunidade para transformar um antigo inimigo num aliado, num momento em que o regime dos aiatolas já estava praticamente isolado no seio da comunidade internacional. Os iranianos também aumentaram a sua influência no país vizinho através da religião, incentivando peregrinações xiitas às grandes cidades sagradas do Iraque, como Najaf e Karbala.

Depois de anos de confrontos, os partidos e milícias ligados ao xiismo emergiram como os principais vencedores na disputa pelo poder no Iraque. E isso teve implicações nas relações com o Irão. O Governo iraquiano iniciou uma fase de abertura ao Irão, se bem que nunca tenha rompido com os Estados Unidos. “Desde a invasão americana de 2003, o país tornou-se gradualmente uma arena de rivalidade entre a interferência americana e a influência iraniana. De uma perspetiva geográfica e geopolítica, o Iraque constitui um Estado pivô no Médio Oriente, o que explica que as rivalidades regionais e internacionais acabem por ter rapidamente consequências”, diz, em declarações ao Observador, Carole Massalsky, do think tank European Institute for Studies on the Middle East and North Africa.

"Desde a invasão americana de 2003, o país tornou-se gradualmente uma arena de rivalidade entre a interferência americana e a influência iraniana. De uma perspetiva geográfica e geopolítica, o Iraque constitui um Estado pivô no Médio Oriente, o que explica que as rivalidades regionais e internacionais acabam por ter rapidamente consequências."
Carole Massalsky, membro do think tank European Institute for Studies on the Middle East and North Africa

No Iraque pós guerra civil, o Irão não perdeu tempo, frisa Carole Massalsky: “Expandiu a sua influência através de partidos políticos xiitas, atores religiosos e grupos armados”. Em Teerão, já dominava a doutrina de que o país deveria espalhar e apoiar milícias pelo Médio Oriente, através de um eixo de resistência: por essa altura, havia o Hezbollah no Líbano e o Hamas nos territórios palestinianos. “Apesar desta forte influência, o Iraque tentou desde 2003 manter um equilíbrio delicado entre os Estados Unidos e o Irão, de maneira a preservar a sua estabilidade”, ressalva a especialista.

Em 2011, a administração Obama concluiu a retirada total de tropas do Iraque, o que consolidou ainda mais o poder dos partidos xiitas, acusados pelos sunitas de políticas de exclusão e segregação. Entre os movimentos do sunismo, ganharam espaço movimentos cada vez mais radicais que se revoltaram contra Bagdade. Neste terreno, reemergiu a organização que evoluiria para o Daesh — herdeira da Al‑Qaeda no Iraque — com o objetivo de estabelecer um califado sunita nos territórios árabes.

Era um novo desafio para o Iraque que colocava lado a lado dois rivais: quer os Estados Unidos, quer o Irão desejavam eliminar a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico. O Daesh avançou rapidamente num país dizimado e com profundas divisões sectárias: em 2014, controlou grandes parcelas a norte e a oeste de território iraquiano. O regime dos aiatolas enviou apoios às milícias xiitas para o país vizinho, de forma a conter os movimentos que desejavam a criação de um califado sunita.

O apoio iraniano foi fundamental para o Governo iraquiano derrotar o autoproclamado Estado Islâmico. Mas essa intervenção também foi uma oportunidade para Teerão consolidar o domínio no país vizinho. “A influência aprofundou-se significativamente após 2014, com a criação das Forças de Mobilização Popular formadas para combater o autoproclamado Estado Islâmico, juntamente com as Forças Armadas iraquianas e uma coligação liderada pelos Estados Unidos”, lembra Carole Massalsky.

As milícias xiitas apoiadas pelo Irão “beneficiaram de uma forte legitimidade popular”, devido ao papel que desempenharam em “resistir” ao Daesh, sublinha Carole Massalsky. Em declarações ao Observador, Louise Kettle, professora de Relações Internacionais na Universidade de Nottingham, diz que o regime iraniano “treinou e financiou um número de diferentes milícias”, acrescentando que o território iraquiano serviu para Teerão “como um corredor através dos quais conectava com outros aliados na Síria e no Líbano”.

As diferentes milícias e a dependência do Iraque do Irão

Ainda que alguns militantes se mantenham no Iraque, o Daesh foi oficialmente derrotado no final de 2017. Realizaram-se eleições legislativas no ano seguinte, que foram ganhas por partidos xiitas. Desde então, o país tem vivido com relativa estabilidade — mas sempre bastante frágil. O Irão também foi mantendo os esforços para solidificar as suas redes de influências no antigo inimigo, procurando consolidar o Iraque como peça central no Médio Oriente.

Como parte desse esforço, o Irão financiou dezenas de organizações xiitas no Iraque. Algumas mantêm uma certa autonomia face a Teerão, enquanto outras funcionam praticamente como uma extensão do braço armado da Guarda Revolucionária em território iraquiano. Esses movimentos, em alguns casos, evoluíram mesmo para partidos políticos — como a organização Badr ou o Asaib Ahl al‑Haq. Há também grupos que são mais ligados ao Hezbollah do Líbano — como Harakat Hezbollah al‑Nujaba ou Kataib Hezbollah.

Estes movimentos são relativamente organizados, embora muitos estejam em constante mutação. Carole Massalsky explica também que muitos desses grupos armados “já não são apenas meras forças auxiliares” mas “integraram-se profundamente no Estado iraquiano”: “Fazem parte do aparelho estatal, ao mesmo tempo que mantêm autonomia política e estruturas económicas próprias”. “Na prática, formam uma rede complexa que liga líderes políticos, burocratas, autoridades religiosas, atores económicos e organizações civis.”

Carole Massalsky indica que as diferentes milícias armadas iranianas administram determinadas regiões no Iraque, “controlando circuitos informais da economia”. “Neste sentido, a sua influência vai muito mais além da esfera militar e representa uma componente estrutural da ordem política após o que aconteceu ao Iraque em 2003”, sentencia a especialista.

A autonomia vai variando, se bem que haja algo que una as milícias armadas xiitas no Iraque: a lealdade a Teerão. “Estes grupos providenciam ao Irão uma presença indireta de segurança e exercem pressão contra as forças militares norte-americanas estacionadas no país”, afirma Carole Massalsky. O Irão mantém ainda “relações próximas” com os partidos políticos criados a partir desses grupos, o que lhe concede uma “influência significativa no sistema político de Bagdade”.

A nível económico, o Iraque também permanece “parcialmente dependente do Irão”, especialmente no que toca “às importações de gás natural e eletricidade, bem como para o comércio transfronteiriço”, continua Carole Massalsky. “Essa interdependência económica dá a Teerão meios adicionais para influenciar e pressionar” o poder central em Bagdade.

Para Louise Kettle, não há dúvidas de que os dois países estão “ligados economicamente”: “O Irão é um dos principais parceiros comerciais do Iraque”. Mas não é apenas isso: existe, na mesma medida, uma componente religiosa. A professora universitária britânica destaca que o território iraquiano “acolhe alguns locais religiosos” sagrados para os xiitas.

Milícias xiitas "providenciam ao Irão uma presença indireta de segurança e exercem pressão contra as forças militares norte-americanas estacionadas no país."
Carole Massalsky, membro do think tank European Institute for Studies on the Middle East and North Africa

Nos últimos anos, ainda assim, a relação entre Bagdade e Teerão tem ficado um pouco mais tensa. Desde o 7 de Outubro que o Irão tem instado as milícias armadas no Médio Oriente a defendê-lo mais ativamente. O Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen têm respondido a esse apelo, mas as milícias iraquianas têm estado divididas entre a necessidade de manter a estabilidade no Iraque — um país ainda a recuperar de vários conflitos — e a lealdade ao regime iraniano.

Iraque. O palco da guerra indireta em 2026

Na Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025, algumas milícias xiitas iraquianas mais radicais realizaram ataques com drones para apoiar o Irão, mas a maioria evitou envolver‑se diretamente na ofensiva contra Israel, receando uma retaliação que pudesse desestabilizar o Iraque, mantendo a postura de cautela adotada desde o início da guerra na Faixa de Gaza. O Governo central em Bagdade apelou para que o país se mantivesse à margem de qualquer conflito.

Sete meses depois, a situação agravou-se e é cada vez mais difícil para o Iraque manter-se em cima do muro. Os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar que terá como objetivo derrubar o regime iraniano, que, em teoria, é o principal aliado do Governo iraquiano. O ayatollah Ali Khamenei foi assassinado. O Irão retalia com força e tem atacado países do Golfo com bases militares norte-americanas. Ora, o Iraque também as acolhe — e o território iraquiano também já foi bombardeado.

Publicamente, os governantes iraquianos mantêm a neutralidade, desejando que o país não acabe arrastado para a guerra. O Executivo do Iraque declarou que não pretende ver o seu território ser usado como base para ataques aos países vizinhos. No entanto, este pedido não tem sido ouvido por nenhuma das partes em confronto.

Assim sendo, pode o Iraque ser considerado um palco do conflito? Os especialistas ouvidos pelo Observador acreditam que sim. “Pode considerar-se que o Iraque se tornou um espaço de confronto neste conflito, mesmo que o Governo não tenha oficialmente anunciado a participação na guerra”, expõe Carole Massalsky, ressalvando, porém, que a influência do Irão não “empurra necessariamente para um campo de confronto aberto contra os Estados Unidos”.

A especialista dá conta da dinâmica com “território iraquiano a ser atacado de ambos os lados”. “O Irão atua indiretamente, através dos grupos armados iraquianos pró-iranianos. Essas organizações têm levado a cabo ataques contra alvos norte-americanos no Iraque e no Curdistão iraquiano”, detalha, pormenorizando na mesma medida a resposta de Washington: “Os Estados Unidos têm executado ataques de retaliação contra posições das milícias dentro do Iraque, de modo a neutralizar as suas capacidades militares”.

“Este ciclo de ataques de milícias e contra-ataques dos Estados Unidos cria um risco real de que o território iraquiano possa tornar-se uma frente indireta de um conflito mais amplo entre Washington e Teerão”, sustenta Carole Massalsky.

Em declarações ao Observador, Brendan O’Leary, professor de Ciência Política na Universidade da Pensilvânia, não tem dúvidas: “O Iraque é, de facto, um campo de batalha nesta guerra.” “Ainda vou mais longe e digo que muitos no Governo federal do Iraque são pró-iranianos e estão a ignorar os ataques contra militares norte-americanos na região do Curdistão pelas milícias xiitas pró-iranianas”, assinala, aludindo à rivalidade que muitos xiitas nutrem pelos curdos — os principais aliados dos Estados Unidos no Iraque.

Xiitas divididos, mas a maioria dos iraquianos não quer uma guerra

Apesar das juras de lealdade a Teerão, nem todas as milícias revelam o mesmo empenho em defender o regime iraniano. “Muitos iraquianos querem evitar a participação nesta guerra”, contextualiza Brendan O’Leary, enfatizando que os sunitas (cerca de 35% da população) não se querem envolver em qualquer conflito. Em relação aos xiitas, há “uma divisão entre aqueles que colocam o Iraque em primeiro lugar e entre aqueles que colocam a identidade xiita em primeiro lugar”.

Para os xiitas mais nacionalistas, a salvaguarda e a manutenção da soberania do Iraque são as prioridades. Já para os mais alinhados com Teerão, muitos sentem, de acordo com Brendan O’Leary, que o “enfraquecimento do regime iraniano vai debilitar a sua posição no Iraque”. A sua sobrevivência pode estar mesmo em risco com o fim do Governo dos clérigos xiitas iranianos.

"Há uma divisão entre aqueles que colocam o Iraque em primeiro lugar e entre aqueles que colocam a identidade xiita em primeiro lugar."
Brendan O'Leary, professor de Ciência Política na Universidade da Pensilvânia, sobre divisão entre as milícias xiitas

É neste estado de divisão que estão os xiitas iraquianos. Por sua vez, os sunitas do Iraque não escondem que a queda do regime do Teerão pode ter consequências positivas para a sua posição dentro do país. “Com intensidade distinta, odeiam a influência norte-americana no Iraque, mas odeiam ainda mais os persas e os xiitas”, caracteriza Brendan O’Leary. Sem o regime dos aiatolas, muitos sunitas sentem que poderiam voltar a controlar as instituições estatais.

Já as milícias curdas iraquianas mantêm-se num impasse sobre o que fazer na guerra. “São pró-americanas por natureza”, aponta Brendan O’Leary. O docente universitário recorda, no entanto, que muitos curdos acabaram desiludidos com os Estados Unidos no passado. “Os curdos no Iraque estão divididos: a sua região está a ser atacada. Mas não querem envolver a sua região e os seus cidadãos noutra guerra com objetivos imprecisos, porque ficarão [no Iraque] depois de os aviões e os soldados americanos regressarem às suas bases.”

Independentemente do grupo étnico ou da religião, existe uma “sensação crescente de frustração e preocupação” entre muitos iraquianos que, durante as últimas décadas, sentiram na pele as consequência de vários conflitos — desde a guerra civil causada pelo fim do regime de Saddam Hussein aos ataques do autoproclamado Estado Islâmico. “Muitos iraquianos temem que a relativa estabilidade alcançada depois de décadas de conflito possa ser destruída por uma guerra que não é deles”, conclui Carole Massalsky.