A vida de Mário Zambujal (que morreu esta quinta-feira, dia 12 de março, aos 90 anos) foi feita de palavras. Às vezes nos jornais, por vezes nos livros, mas sempre com humor. De sorriso fácil e amplo, a sua boa disposição era uma característica pessoal que deixava uma marca em tudo o que tocava: a imprensa escrita, a rádio, a televisão, o teatro. Jornalista acima de tudo, Mário Zambujal foi também muitas outras coisas — embora, para ele, esses outros afazeres fossem apenas um passatempo, uma maneira de se divertir e de divertir os outros. Nos anos 70, apresentou “Grande Encontro”, um programa de desporto que se tornou uma referência na programação da RTP. Nos anos 80, mudou o panorama radiofónico nacional juntamente com o painel de ilustres que faziam parte da equipa do programa Pão com Manteiga, da Rádio Comercial. Escreveu guiões de séries televisivas de comédia, como Nós os Ricos, com Fernando Mendes, Carlos Areias e Rosa do Canto, e peças de teatro de revista que se tornaram clássicos do género. Publicou 20 livros de ficção. Histórias de malandros e vigaristas, “desalinhados”, como ele próprio, que vivem nas margens das aldeias e cidades, às vezes, em Lisboa. Histórias sobre “pessoas”, o seu tema predileto. “Cada ser humano é em si mesmo um universo”, disse, certa vez.
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Bicho noturno, benfiquista, apreciador de longos serões e de uma boa conversa, era os convívios que recordava com maiores saudades. Ao longo dos seus mais de 40 anos de carreira, conheceu jornalistas, artistas, atores e escritores, como Fernando Assis Pacheco, com quem trabalhou nos jornais a partir de 1969, Afonso Praça, Álvaro Guerra, Carlos Pinhão, Dinis Machado ou José Cardoso Pires. “Muitos craques”, como ele próprio os descreveu em entrevista a Fátima Campos Ferreira, no programa Primeira Pessoa, em 2022. “Mas também conheci muita gente humilde, que não é craque e por quem ganhei muita estima”, afirmou. Cruzou-se com muitos desses “craques” em Lisboa, onde passou grande parte da vida. Mas não foi na capital que ganhou consciência do amor pela palavra. Isso aconteceu antes, mais a sul, numa outra zona do país.
O alentejano que viveu no Algarve e que se tornou jornalista em Lisboa
Na certidão de nascimento, surge um nome longo: Mário Joaquim Marvão Gordilho Zambujal, nascido a 5 de março de 1936, em Moura, no Alentejo. Foi na vila da Amareleja, do município de Moura, que viveu até aos cinco anos, quando a família se mudou para o Algarve, onde passou a juventude junto ao mar e a jogar à bola. Foi por lá que, aos 16 anos, arriscou publicar o seu primeiro texto, num jornal de Lisboa: um conto no satírico Os Ridículos, nascido em 1898. Parecia ser o destino: seria na capital que passaria quase toda a sua vida e se tornaria jornalista profissional, com carreira feita em alguns dos mais importantes periódicos lisboetas e nacionais, muitos dos quais entretanto extintos. O primeiro deles foi A Bola, onde o irmão, Francisco Zambujal, fez também carreira, mas como cartoonista. O emprego parecia promissor, mas não seria definitivo — sete anos depois, o jornalista trocou a redação do jornal desportivo pela do generalista Diário de Lisboa, iniciando um périplo jornalista que o levaria de jornal em jornal, redação em redação, até à sua entrada para a RTP, décadas depois.
Um ano depois de ter entrado para o Diário de Lisboa, trocou-o pelo Record, então dirigido por Artur Agostinho. Do Record, onde durante seis meses ocupou o cargo de subdiretor adjunto, passou para O Século, onde trabalhava como chefe de redação quando se deu o 25 de Abril. Em meados de 1975, voltou a mudar de redação, desta vez para o Mundo Desportivo, onde também só esteve seis meses, como diretor. Seguiu-se o Diário de Notícias, onde assumiu o cargo de chefe de redação a convite de Vítor Cunha Rego, então diretor. Em 1977, tornou-se o primeiro diretor do Se7e, um semanário de espetáculos fundado pelo mesmo grupo que detinha O Jornal, onde ficou como redator. Nesse mesmo ano, passou a integrar os quadros da RTP, onde apresentou os programas desportivos Grande Encontro e Domingo Desportivo, ambos transmitidos ao domingo, que atingiram grande sucesso. Na estação de televisão pública, foi ainda responsável por programas como Quem Conta um Conto, que concebido por si, Fim de Semana e A Semana Que Vem. Também para a RTP, escreveu, às vezes sozinho e outras vezes acompanhado, diferentes séries de comédia, como Lá em Casa Tudo Bem, com Raul Solnado; Isto é o Agildo, com o ator brasileiro Agildo Ribeiro e participação de vários atores portugueses; Nós os Ricos, com Fernando Mendes; e Os Imparáveis, com Henrique Viana.
Os maravilhosos anos 80
Os anos 80 foram importantes para Mário Zambujal, que se desdobrou por diferentes meios. Em 1980, estreou-se na literatura. Crónica dos Bons Malandros, ainda hoje o seu livro mais conhecido, foi um sucesso inesperado. “Foi uma coisa escrita sem nenhuma intenção, para além de divertir os meus amigos, que era quem eu pensava que seriam os únicos leitores do livro”, admitiu, em entrevista à Renascença. “Depois aquilo começou a crescer e a multiplicar-se o número de leitores e continua a sair e a ser a minha marca de água.” Descrevendo o romance como “um livro abrangente”, que “tanto divertiu doutores como operários”, o autor, em entrevista ao Expresso, confessou que “não é um livro para intelectuais, mas eles divertem-se, é uma paródia”. O enredo de Crónica dos Bons Malandros é centrado num bando de ineptos que prepara o roubo de uma peça de René Lalique no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa. “Um percurso trágico-burlesco pelo mundo da marginalidade lisboeta, pela precariedade quotidiana dos vigaristas de pacotilha que sonham com ‘o grande golpe’ que os arranque do pequeno submundo anónimo”, como resume a biografia do jornalista no site da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), o romance inspirou um filme, realizado por Fernando Lopes, em 1984. Foi também adaptado, nos anos 2000, para a televisão por Jorge Paixão da Costa e para os palcos por Francisco Santos em colaboração com o autor.
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Ao mesmo tempo que se estreava como escritor, Mário Zambujal fazia sucesso na rádio, com o programa Pão com Manteiga, que partilhava com Carlos Cruz, José Duarte, Bernardo Brito e Cunha, Eduarda Ferreira, Orlando Neves, Joaquim Furtado, José Fanha e Artur Couto e Santos. Pão com Manteiga, que durante dois anos integrou a grelha de programação da Rádio Comercial, foi uma pedrada no charco da radiodifusão nacional. Não só revolucionou o humor em Portugal, “com doses calóricas” de boa disposição e “textos barrados com sarcasmo”, como marcou profundamente o panorama radiofónico português, que nunca tinha visto nada igual. Alguns dos textos foram publicados em livro pela editora Oficina do Livro, em 2007. Autor multifacetado, nos anos 80, colaborou também com o teatro de revista, como coautor de algumas peças de grande sucesso, incluindo Toma Lá Revista, que estreou em 1988.


Em 1983, três anos depois de Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal publicou um segundo romance: Histórias do Fim da Rua, uma história passada numa Lisboa condenada a desaparecer devido aos planos urbanísticos. Passados outros três anos, voltou a publicar. À Noite Logo se Vê foi bem recebido, ao contrário de Histórias do Fim do Mundo, que passou meio despercebido. O romance acompanha as andanças de Mino Miralva, um narrador de histórias tornado investigador que procura uma explicação para um acontecimento extraordinário: “No tempo inteiro de quatro anos, quatro, não nasceu nenhuma criança, uma que fosse, menino ou menina, na aldeia do Roseiral”. Entre um e outro livro, Mário Zambujal recebeu o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique das mãos do Presidente Ramalho Eanes, por serviços relevantes prestados ao país.
Depois de Histórias do Fim da Rua, Mário Zambujal esteve quase 20 anos sem publicar. O silêncio foi quebrado em 2003, com Fora da Mão, uma coletânea de contos e crónicas bem humorados sobre “pequenos vadios” e “sedutores encartados”, as personagens favoritas do autor. Depois de Fora da Mão, Mário Zambujal nunca mais parou de publicar, fazendo chegar, com frequência, novos romances às livrarias, apesar de sempre se ter considerado, acima de tudo, um jornalista, que escrevia livros para se divertir e para divertir os outros. “Jornalismo é uma profissão e escritor não é”, disse ao Expresso. “Não gosto de rótulos. Quero escrever livros que as pessoas apreciem.”
Em 2016, Mário Zambujal recebeu a medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa e, em 2022, a Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica, em Lisboa, homenageou-o com um mural da autoria de Mariana Duarte Santos. Um pouco antes disso, em 2020, foi o escritor homenageado pelo Escritaria, o festival literário de Penafiel. Mais recentemente, recebeu o Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube de Jornalistas, pela sua longa carreira jornalística. Com ligação ao Clube de Jornalistas desde a sua fundação, em 1983, foi presidente da associação durante 14 anos consecutivos e presidente da Mesa da Assembleia Geral de 2021 a 2023.
O último a sair
Em 2020, Mário Zambujal, a propósito da homenagem do Escritaria, foi entrevistado pelo Observador. Questionado sobre o futuro, o jornalista, então com 84 anos, disse que estava “a pensar escrever um livro”: “Ainda não tomei bem a decisão”, confessava. O pensamento transformar-se-ia no seu último romance. O Último a Sair foi publicado em novembro de 2025. É um “policial desatinado”, repleto de mistério, amor e humor, que surgiu de uma promessa feita pelo autor a si próprio: “Esta é a tentativa de escrever um livro policial. Não ser um típico. Um livro em que as personagens devem ter afeto e conflitos e contradições”.
Sete dias antes de morrer, Mário Zambujal celebrou o 90.º aniversário. Para assinalar a data, e também os seus 45 anos de carreira, o Clube do Autor, a sua editora, lançou edições comemorativas das obras Crónica dos Bons Malandros, Dama de Espadas (2010) e Cafuné (2012), esta última considera pelo jornalista um dos seus melhores trabalhos, por ser mais esmerado e cuidado, com maior qualidade na forma e no conteúdo. Apesar disso, a Crónica ocupou sempre um lugar especial — foi o livro que mais o marcou. À semelhança do seu autor, o romance sobre um bando de ladrões sem jeito nenhum resistiu ao passar do tempo, conquistando sempre novos leitores. Talvez tenha sido da malandrice. Talvez seja o sorriso largo que provoca em quem o lê, uma digna homenagem ao jornalista feito escritor e ao observador atento da natureza humana, que procurou sempre o riso nos outros.