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(A) :: "Será sempre muito difícil compensar totalmente a interrupção do Estreito de Ormuz", diz economista do Aberdeen

"Será sempre muito difícil compensar totalmente a interrupção do Estreito de Ormuz", diz economista do Aberdeen

O segredo do impacto económico da Guerra no Irão está na sua duração. Se o Estreito de Ormuz ficar fechado muito tempo, pode levar à recessão e à subida da inflação, aponta Sree Kochugovindan.

Alexandra Machado
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Inês Correia
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O ataque dos Estados Unidos da América e de Israel ao Irão aconteceu há duas semanas. Alastrou-se à região e conduziu ao encerramento do Estreito de Ormuz, o que tem levado a uma disrupção no fornecimento de petróleo, não compensado por outras fontes, até porque a Rússia, um dos grandes produtores, está sob sanções pelo Ocidente.

Por isso, é aqui que reside um dos principais fatores que influenciam as projeções económicas sobre o impacto deste conflito. O banco de investimento Aberdeen admite menos impactos num conflito que dure quatro semanas. À medida que se for alongando, as projeções pioram e num cenário mais pessimista levará o mundo à recessão e a níveis de inflação altos. Ou, o mesmo é dizer, à estagflação. Um papão que volta a entrar na cabeça dos analistas.

Em entrevista ao Observador, a economista sénior do Aberdeen, Sree Kochugovindan, explica os riscos da atual situação, admitindo que, para já, os bancos centrais — os principais têm reuniões na próxima semana — não vão mexer-se. Mas isso também significa que os próximos passos serão revistos.

Estamos novamente no meio de turbulência económica. Qual é o maior risco neste momento? 
O principal risco em que estamos focados é a duração da guerra com o Irão. Acho que isso vai sobrepor‑se a muitos dos outros temas de fundo, porque, consoante a duração, o impacto no preço do petróleo e noutros produtos derivados do petróleo, na ureia para fertilizantes ou na cadeia de abastecimento do alumínio, é muito diferente. Quanto mais tempo durar, maior será o impacto na inflação e no crescimento.​

Os mercados estão a pressupor um conflito rápido ou mais longo?
Acho que, neste momento, o mercado está no meio, sinceramente.

Não sabe bem?
O mercado obrigacionista passou muito depressa a descontar um cenário de estagflação, enquanto o mercado acionista está a assumir que haverá alguma resolução nos próximos meses. Portanto, há aqui um ligeiro desencontro entre mercados neste momento. Se olharmos para o nosso quadro de risco, os movimentos de mercado são muito consistentes com um conflito prolongado, mas ainda não com estagflação. Ou seja, é o que chamamos um risco de conflito dominante, e os mercados estão a mover‑se em linha, com uma correção muito estreita, com esse modelo de risco. Mas, neste momento, o “beta” é de apenas cerca de 0,4%. Portanto, ainda há mais para vir se o conflito se prolongar, e aí poderemos ver alguma turbulência adicional nas próximas 4 a 6 semanas.

"Coisas como alumínio, ureia — matérias‑primas — já estão a começar a subir de preço. Ainda não houve um dano efetivo no abastecimento desses produtos, mas quanto mais tempo durar o conflito, mais começaremos a ver estes efeitos secundários noutros materiais e, consequentemente, um impacto maior na inflação de longo prazo."

O conflito está na segunda semana, o que não era antecipado.
Sim, exato. A forma como estamos a olhar para o conflito é com base em cenários ligados a diferentes horizontes temporais. No nosso cenário base, não olhamos apenas para o conflito em si, mas para a reabertura do Estreito de Ormuz. Se o Estreito de Ormuz reabrir nas próximas quatro semanas, esse é o nosso cenário central.

É o cenário base mas não o melhor?
Na realidade é também o melhor.​​ Quanto mais cedo melhor. Achamos que ainda haverá pelo menos mais duas semanas [de conflito], mas vamos trabalhar com uma janela de até quatro semanas para a reabertura do Estreito de Ormuz. Depois disso, ainda demorará algum tempo até a produção voltar a fluir em pleno.

Quanto tempo pode demorar?
Depende muito do produto. Por exemplo, no Qatar, as infraestruturas de gás natural liquefeito foram encerradas por questões de segurança, tal como outras unidades de GNL noutros sítios. Reabrir essas instalações em segurança leva 3 a 4 semanas por causa da pressão. E depois é preciso pegar no gás natural e convertê‑lo em gás natural liquefeito, o que leva mais algumas semanas. Portanto, no caso do GNL, estamos a falar de alguns meses. Já o petróleo pode voltar mais depressa, dependendo do estado das refinarias e das infraestruturas.​

No Irão houve danos.
Exatamente. Algumas empresas falam em 1 a 2 meses, outras falam em uma semana. Depende muito da sua infraestrutura. Portanto, vamos ter uma situação mista: algum petróleo a sair relativamente depressa, mas sem um fluxo total durante alguns meses.

E quanto aos outros produtos que passam por ali?
Coisas como alumínio, ureia — matérias‑primas — já estão a começar a subir de preço. Ainda não houve um dano efetivo no abastecimento desses produtos, mas quanto mais tempo durar o conflito, mais começaremos a ver estes efeitos secundários noutros materiais e, consequentemente, um impacto maior na inflação de longo prazo.

"O Estreito de Ormuz está no meio dessa rede, mas é a principal rota de escoamento do petróleo do Golfo.​​"

Também nos fertilizantes que depois têm impacto na oferta alimentar.
Sem dúvida. Os preços dos fertilizantes já tinham subido durante a pandemia, e os efeitos já estavam a filtrar‑se para os preços dos alimentos. Usa‑se o fertilizante, semeia‑se hoje, e atingem-se os preços agrícolas do ano seguinte. A guerra na Ucrânia foi um exemplo disso. Neste momento ainda não estamos nesse ponto, mas este conflito pode começar a afetar os fertilizantes e, por essa via, os preços agrícolas.​

Podemos assistir a escassez de alguns materiais?
É possível, mas, mais uma vez, depende da duração. Se tomarmos o nosso cenário base, em que tudo reabre nas próximas quatro semanas, o que veremos será essencialmente um impacto na inflação. Talvez entre maio, junho e julho começaremos a ver a inflação a subir. O impacto global rondaria cerca de 40 pontos base na inflação. É algo que os bancos centrais podem encarar como um choque de oferta. Nessa altura já saberemos se o petróleo voltou a fluir. Portanto, por volta de maio ou junho, penso que os bancos centrais terão um quadro mais claro. Ainda assim, é provável que o ciclo de descida de juros seja adiado. Por exemplo, no caso da Fed, antes da guerra esperávamos dois cortes na segunda metade do ano, mas agora achamos que haverá apenas um corte, em setembro. É muito difícil cortar já em junho. Antes tínhamos [projeção de descidas em] junho e setembro. Agora penso que adiarão para setembro.

Mas ainda não vão subir?
Subir não.

Nem o BCE?
No nosso cenário base tínhamos o BCE em pausa este ano e a subir em 2027 — e isso antes da guerra.

Mantêm esse cenário?
Mantemos no nosso cenário base. No segundo cenário, se o conflito se prolongar por mais alguns meses, entrando pelo verão, o que temos é uma pressão inflacionista maior. E então os bancos centrais começam a ponderar subidas de juros na segunda metade deste ano. Mais bancos centrais podem considerar subidas de cerca de 25 pontos base, aguardando para ver quanto tempo durará o conflito. E no pior cenário, aí sim, estamos a falar de estagflação.

O pior cenário prevê que o conflito se prolongue quanto tempo? 
Intensificar‑se e prolongar‑se por mais tempo, por um período de vários meses. No cenário base estamos a falar de um preço médio do petróleo em torno dos 90-95 dólares por barril — subindo e descendo, mas com média nos 90–95 dólares.​​ No segundo cenário, falamos de 120 dólares, mas a partir daí cai lentamente, estabilizando ligeiramente acima do nível pré‑guerra. No terceiro cenário, estamos a olhar para uma média em torno dos 150 dólares e para um preço que se mantém elevado, com uma nova média em torno dos 100 dólares por um período mais prolongado, antes de descer gradualmente. É um processo muito lento — ao longo deste ano veríamos o petróleo acima dos 100 dólares, que é o cenário típico de estagflação.​

Sem chegar aos 200 dólares como alguns bancos de investimento antecipam?
Sinceramente, não acho que isso seja o mais relevante. Se o petróleo for a 200 e cair logo de seguida, já vimos isso no passado. O problema é se se mantiver persistentemente acima dos 100 dólares. Aí, sim, temos um problema de estagflação. O facto de o preço ser muito volátil é negativo, claro, mas não é estagflação por si só. Estagflação é se se mantiver alto de forma persistente. Nessa situação, o que vemos é a inflação global a subir muito mais agressivamente…

Acima dos 3%?
Na casa de um dígito elevado, quase a voltar ao que vimos na pandemia. Mas com o crescimento já em terreno negativo.

Qual é a projeção para o crescimento económico nesses três cenários?
No primeiro cenário, o crescimento aguenta‑se relativamente estável. O impacto no crescimento é mínimo, não há subidas de juros e pode haver estímulos orçamentais. Por exemplo, no Reino Unido existe um teto para os preços da energia, que pode ser prolongado para aliviar a pressão sobre os consumidores. No pior cenário, vemos uma recessão global e em vários países. Aí os bancos centrais, primeiro, seriam forçados a subir juros — em 25 pontos base em três ou quatro subidas — e, depois, teriam de voltar a cortar por causa das perspetivas de crescimento. Ou seja, teríamos um caminho de subidas, um período de pausa e, mais à frente, novas descidas para lidar com o lado do crescimento. Esses cortes ocorreriam mais para 2027–2028. Seria uma história recessiva mais prolongada para um conjunto de economias, mas isso só acontece se o petróleo se mantiver acima dos 100 dólares de média este ano, subindo para 150 e depois descendo, mas continuando elevado.

A importância do Estreito de Ormuz

Alguns veem esta crise como um choque sem precedentes nos preços do petróleo. Concorda?
“Sem precedentes”… Se pensarmos em exemplos anteriores, a Rússia–Ucrânia foi um choque e a Rússia é uma superpotência de matérias‑primas, tem de tudo, enquanto a Ucrânia era o celeiro da Europa. Mas havia rotas alternativas.

Uma delas era o Médio Oriente.
Precisamente. O Golfo é uma parte absolutamente crítica da infraestrutura global. Se pensarmos nos portos mais movimentados, a Ásia é muito importante. Vimos isso na pandemia, com os confinamentos na Ásia houve uma disrupção mundial. O Estreito de Malaca, o Estreito de Taiwan são grandes rotas de navegação. O Estreito de Ormuz está no meio dessa rede, mas é a principal rota de escoamento do petróleo do Golfo.​​

E é especialmente importante para a Ásia.
Sem dúvida. A Ásia está neste momento muito vulnerável, especialmente países como o Japão, dependente de gás natural e de gás natural liquefeito. Reforçaram as reservas. Temos esta dinâmica novamente: a Europa também está bastante exposta ao gás natural e ao GNL, e os níveis de armazenamento estão baixos por causa do inverno frio. Portanto, a curto prazo, quanto maior a perda, maior o problema. A Europa está vulnerável, a Ásia está vulnerável. Os Estados Unidos estão mais isolados, mas não por muito tempo. Acabarão também por ser afetados num cenário de estagflação. Têm a sua produção de “shale” [petróleo de xisto] e as suas reservas estratégicas, mas esta é uma história global. O preço nas bombas de combustível já está a subir e, como a fiscalidade sobre combustíveis é baixa, a transmissão para o consumidor é muito rápida.

Se o conflito terminar rapidamente, os EUA recuperarão mais depressa e melhor do que a Europa e a Ásia?
Sim, exatamente. Estas economias até entraram neste choque com alguma resiliência. No caso dos EUA, havia dúvidas sobre alguns dados, sobre a paralisação e sobre o mercado de trabalho, mas, no conjunto, a economia estava relativamente resiliente. Começou numa situação melhor.​

E têm petróleo e gás.
E têm independência energética, o que é muito importante. No nosso cenário base, o impacto sobre a economia dos EUA é bastante limitado, mas o corte de juros será adiado e haverá apenas um corte este ano.

"É preciso que o Estreito de Ormuz reabra para evitarmos os cenários de cauda, os extremos. Não são o nosso cenário base, mas a estagflação é algo que temos de considerar."

As reuniões dos bancos centrais? Esperar para ver

O que é que espera que aconteça nas reuniões da próxima semana?
No próxima semana haverá reunião da Reserva Federal, do BCE, Banco de Inglaterra e Banco do Japão. O Japão já entrou num ciclo de subida de juros, mas penso que, na próxima semana, será muito difícil para estes bancos centrais tomarem decisões. Não vão mexer. Estávamos à espera de um corte do Banco de Inglaterra na próxima reunião; tivemos de adiar esse cenário. Não podem cortar neste ambiente. Acho que todos vão sublinhar que este conflito é um problema para as suas economias, um risco para o crescimento e para a inflação, tanto doméstica como global. Vão realçar as incertezas, mas podem dizer muito pouco em termos de direção clara. O que importa ouvir é em que indicadores se estão a focar. No caso da Europa, estarão a olhar mais para o preço do gás ou dos s combustíveis? Qual é o principal receio: crescimento versus inflação. Acho que haverá muitas incertezas.

Os sinais que possam dar são importantes.
Exatamente. Toda a gente vai, no fundo, reconhecer que o indicador central é o Estreito de Ormuz e o fluxo de navios que o atravessa.

Há pouco estávamos a falar das alternativas ao Estreito de Ormuz, mas há poucas alternativas.
Há poucas alternativas. Houve muito entusiasmo com a libertação de reservas coordenada da Agência Internacional de Energia, mas é muito importante o fluxo diário. No Estreito de Ormuz, o fluxo diário é de cerca de 19 milhões de barris por dia.​​

Que neste momento está parado.
Está parado.

Mas as rotas alternativas estão a aumentar?
Estão, mas não têm escala. A capacidade do pipeline [da Arábia Saudita, que permite o escoamento através do Mar Vermelho] é de 5 milhões de barris, e o outro [nos Emirados] nem metade da capacidade desse tem. Depois há as reservas estratégicas nos EUA e outras da AIE e estamos a falar de um fluxo diário de 2 a 3 milhões de barris, sendo que o valor realista é mais perto de 2 milhões. Portanto, pode-se compensar ligeiramente, mas não totalmente. O que ajudaria…

Seria a Rússia?
Que tem armazenamento flutuante mas está sob sanções. A grande questão é saber se haverá ou não uma mudança política nessa frente. É a grande interrogação. Não sabemos. Mas será sempre muito difícil compensar totalmente esta interrupção.​​ Ou seja, conseguimos aliviar um pouco a pressão mas é preciso que o Estreito de Ormuz reabra para evitarmos os cenários de cauda, os extremos. Não são o nosso cenário base, mas a estagflação é algo que temos de considerar.

Continuamos sem estar preparados para uma disrupção desta escala no petróleo, apesar da descarbonização em curso?
Ainda estamos numa fase inicial.

Ainda é sobretudo retórica?
Sim, exatamente. Ainda não temos energia verde suficiente para compensar um choque desta dimensão. Continuamos a precisar daquele fluxo proveniente do Golfo — é essa a questão. Apesar de termos capacidade excedentária, e entrámos neste conflito a pensar nos 12 dias de conflito do ano passado, com preços relativamente estáveis, mas não conseguimos retirar de lá o petróleo. Ninguém estava à espera de ver o Estreito de Ormuz totalmente fechado.

A “montanha‑russa” que vimos estas duas semanas no preço do petróleo o que nos diz? Haverá aqui também alguma especulação?
Acho que há muita confusão e especulação. Vemos otimismo quando Donald Trump diz que vai acabar com a guerra…​​

É mais um outro momento de “TACO [acrónimo para Trump Always Chickens Out que começou a ser utilizado para designar as variações do discurso de Donald Trump] trade”?
Sim. Mas se ouvirmos a entrevista toda, não fica nada claro. Em primeiro lugar, não é claro o calendário: falou em “talvez duas semanas”, “estamos a trabalhar nisso”, “em breve” — foi muito vago. Em segundo lugar, não basta a vontade dos EUA, é preciso que os outros dois atores, Irão e Israel, cheguem a um acordo, e não estão nesse ponto ainda. Por isso, o nosso cenário base continua a ser o de uma resolução nas próximas quatro semanas; ainda é preciso algum tempo para chegar a um entendimento.​

Como é que lidam nos modelos de mercado e no “research” com os momentos “TACO” e com as variações de declarações do Presidente dos Estados Unidos?
Não é fácil. Mas vemos um padrão: os movimentos de mercado acabam por pressionar a Administração norte‑americana. Acompanham de muito perto o que se passa nos mercados — vimos isso no ano passado.

Com as tarifas.
O tema das tarifas continua aí…. não desapareceu. Tínhamos inicialmente uma taxa média de tarifas de 16%, depois uma parte foi anulada, baixando para 6%, mas agora temos nova legislação e novas investigações, por exemplo ao abrigo da secção 301, e provavelmente o resultado será uma taxa média em torno dos 12%. Continua a ser um nível elevado. As tarifas funcionam como uma alteração ao nível dos preços, o que se vai infiltrando na inflação de bens nos EUA, ainda que a inflação global estivesse a descer, a inflação nos serviços estava descer. A posição era bastante mais confortável.

Os mercados já estavam a incorporar o efeito das tarifas…
Agora, há muitas dúvidas em torno do petróleo. Mas, mais uma vez, os indicadores essenciais são o fluxo de navios no Estreito de Ormuz e as expectativas de inflação. Os bancos centrais vão acompanhar muito de perto as expectativas de inflação das famílias antes de definirem a projeção de longo prazo. Aposto que vamos ouvir os quatro bancos centrais na próxima semana a falar de expectativas de inflação, do alumínio, da ureia, dos efeitos secundários… Mas vão falar da incerteza, porque é isso que sabemos neste momento.

A mudança na presidência da Fed, que acontecerá em maio, quando o próximo presidente será alguém da confiança de Donald Trump, pode já ter impacto na próxima semana ou só mais à frente?
Penso que a guerra com o Irão eclipsou um pouco todas essas outras dinâmicas.

É uma estratégia para fazer desaparecer do radar outros problemas?
Não posso comentar. Em relação ao presidente da Fed, convém lembrar que o presidente é apenas uma pessoa. A Fed tem independência. Há o Conselho de Administração, há membros mais “dovish” [expansionista] e mais “hawkish” [restritiva], há milhares de economistas, há os bancos regionais e os membros com direito a voto. A estrutura é robusta. Uma pessoa é apenas uma voz — influente, claro, mas uma voz. Neste contexto de guerra no Irão, ninguém está propriamente focado na discussão sobre a presidência da Fed. Vão olhar sobretudo para as projeções, para a comunicação do conjunto dos membros e para a conferência de imprensa da próxima semana será importante, mas há muito pouco que possam dizer em concreto. Vão falar de incerteza.

"O ouro não está a funcionar como refúgio, em parte porque já valorizou muito e há tomada de mais‑valias, e também porque é um ativo que permite liquidez."

A força do dólar e os preços do ouro

Este conflito também está a reforçar a força do dólar. Isso é bom para os EUA?
Não é assim tão claro. Há pouco tivemos problemas no Japão, e o Fed de Nova Iorque fez uma “rate check” [verificar as taxas junto dos bancos comerciais, o que antecede, por normal, uma intervenção], sinalizando a disponibilidade para cooperar com o Banco do Japão no sentido de fazer subir o iene e baixar o dólar, porque o iene estava demasiado fraco e queriam travar essa desvalorização desordenada. Pouco dias depois, Donald Trump disse que gostava de um dólar fraco porque era bom para as exportações. E, dois dias mais tarde, o secretário do Tesouro [Scott Bessent] disse que queria um dólar forte. Muito, muito inconsistente. No fundo, o que querem…

Um dólar dominante, mas mais fraco…
Com movimentos ordenados, não abruptos. Não querem grandes oscilações.

Querem ter uma palavra a dizer sobre a trajetória. E nesta guerra caminha para onde?
Neste conflito em particular, o dólar está a funcionar como ativo de refúgio. O ouro não está a funcionar como refúgio, em parte porque já valorizou muito e há tomada de mais‑valias, e também porque é um ativo que permite liquidez, permite levantar cash em momentos de grande volatilidade. Mas o suporte estrutural ao ouro continua lá: os bancos centrais continuam a comprar para as reservas, o que é uma fonte de procura de longo prazo. Portanto, o ouro poderá voltar a comportar‑se como ativo de refúgio mais à frente. Por agora estamos a ver sobretudo o levantamento de liquidez. Assim, o dólar pode ser um ativo de refúgio enquanto durar o conflito, mas, no nosso cenário base, se o conflito for resolvido neste horizonte temporal, o dólar voltará a ser determinado pelos fundamentais. E aí temos vários fatores. Por um lado, a perspetiva de crescimento com o “big beautiful bill”, que traz estímulo orçamental, é favorável ao dólar; mas por outro, a narrativa da inteligência artificial, que está a diversificar fluxos para lá das “Sete Magníficas” — a olhar para outras ações nos EUA e para outras regiões, incluindo mercados emergentes, que hoje têm avaliações atrativas e forte exposição a minerais críticos no Brasil, na China, etc, com avaliações muito baixas mas boas perspetivas de resultados. Portanto, o dólar tem forças contraditórias a atuarem em simultâneo. Estávamos neutros no longo prazo em relação ao dólar, mas com alguns riscos em baixa. A guerra alterou um pouco essa dinâmica, mas tudo depende da duração do conflito. Sem o conflito, estaríamos a olhar para um dólar neutro a ligeiramente mais fraco.

As tarifas e agora a guerra no Irão podem “tornar a América grande outra vez” em termos económicos?
O “big beautiful bill” confere algum suporte, mas precisa de financiamento. As tarifas são uma fonte de receita. Em pano de fundo, o mercado obrigacionista funciona como disciplina: não se pode gastar indefinidamente sem uma base razoável de receitas, e vimos muita volatilidade nas yields nos últimos dois anos. E sempre que surgem sinais de falta de disciplina orçamental o mercado obrigacionista reage e isso pode regressar, é um risco.

Nas obrigações dos Estados Unidos?
Nos Estados Unidos, na Europa, no Japão, no Reino Unido. A política e os mercados de dívida estão hoje muito interligados. Neste conflito, vimos as obrigações a corrigir, em parte por causa da inflação. Antes estava relacionado com questões orçamentais, agora é a história da inflação e da estagflação que está a ser incorporada nos preços. Mas as yields já estão bastante altas. Não é claro que essa pressão vendedora vá continuar muito porque os níveis atuais já são bastante esticados. De novo, tudo depende da duração do conflito. Se houver uma resolução [do conflito], poderemos ver as yields a estabilizar em patamares mais baixos.

Os governos e bancos centrais devem, por agora, agir com alguma cautela nas medidas a adotar ou devem avançar com estímulos?
Neste momento já temos algum estímulo orçamental no nosso cenário, sobretudo na Europa e em várias economias asiáticas, ligado à defesa, e também no Reino Unido. Nos EUA, o “big beautiful bill” é estímulo para as famílias e para as empresas, sobretudo via cortes de impostos. Há estímulos a caminho. Mas, com este conflito, pode ser necessário ajustar um pouco as medidas e reforçar o apoio aos consumidores, com mecanismos como tetos aos preços da energia, como já existe no Reino Unido ou no Japão. Pode ser necessário prolongar ou adaptar essas políticas para dar algum alívio às famílias. No cenário de estagflação, os consumidores são muito atingidos e isso conduz a economia para a recessão.

Vê algum cenário em que o BCE volte a usar um programa de compra de ativos, como o “quantitative easing”?
É possível no cenário de estagflação, quando se atingir a recessão e dependendo da gravidade dessa recessão. Mas, neste momento, não. Agora não vemos necessidade de novos programas de QE [Quantitative Easing, em que os bancos centrais compram títulos] ou de QT [Quantitative Tightening, ou seja redução do balanço dos bancos centrais]. Subidas de juros são um sinal mais simples e com transmissão mais direta para a economia.

Este é o tema dominante neste momento.
Sim, mas, se o nosso cenário base se confirmar, voltaremos a preocupar‑nos com a América Latina e a Doutrina Donroe [adaptação da política externa de James Monroe, que foi Presidente dos EUA, por parte de Donald Trump para alegadamente proteger a região da América]. Vamos preocupar-nos com a inteligência artificial e com a próxima etapa da aposta em IA, e assim por diante. Esses temas continuam lá. A narrativa estrutural da IA continua, tal como a necessidade de minerais críticos e de repensar cadeias de abastecimento, independentemente do fim da guerra amanhã ou não.​ Continuamos a ter de nos preocupar com isto. Essas questões não desaparecem.

No conflito a questão é quanto tempo durará.
Os dois aspetos que seguimos mais de perto são o preço do petróleo, claro, mas também o Estreito de Ormuz e as expectativas de inflação.

Tentaram vender-nos a história de que o Estreito de Ormuz já não é tão importante como antes.
Continua a ser muito importante. 400 milhões de reservas é um número grande, mas não o conseguimos distribuir rapidamente. Demora. É um ponto de estrangulamento.

E vai ser preciso repor as reservas.
Em teoria, temos cerca de 90 dias de reservas, é essa a regra, mas depois é preciso reconstruí‑las.

Já houve conflitos anteriores com o Irão, mas o envolvimento do Qatar e do Dubai foi a verdadeira surpresa?
Sim, foi um risco que agora se concretizou. A estratégia parece ser causar o máximo de dano económico possível, porque podem, e isso faz parte da lógica do conflito — criar um desafio à economia global.​​

Qual pode ser o impacto para a China?
A China está mais protegida do ponto de vista energético. Também tem independência energética, tal como os EUA. Tem vastas reservas de carvão — não é uma fonte limpa, mas é energia — e deixou de exportar alguns produtos refinados. Apesar de tudo, as exportações chinesas têm sido fortes, apesar das tarifas. Continuam a conseguir contar a sua história. Têm, claro, desafios internos — o mercado imobiliário, a fraqueza do consumo — mas, no conjunto, continuam capazes de atingir a meta de crescimento entre 4,5% e 5%. O objetivo continua exequível, ainda que haja hoje menos foco no plano quinquenal porque toda a atenção está no Irão. Estão, de certa forma, mais protegidos neste momento. Mas têm os seus desafios internos e desempenham um papel político. Será interessante ver se entrarão em cena para pressionar um cessar‑fogo. Isso poderia aumentar a pressão sobre Irão ou Israel. Precisamos de uma pressão mais coordenada, não só de Trump.

E a China continua a comprar petróleo russo.
Sim, petróleo russo e podem também comprar petróleo iraniano. Podem comprar. Têm, de facto, independência energética e acesso aos fornecimentos da Rússia.