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O que é a fibromialgia? Nove perguntas sobre cansaço permanente, sono alterado, névoa mental e dores em todo o corpo

Associada a sintomas que afetam todo o corpo, a fibromialgia não é fácil de diagnosticar nem de tratar. Mas, com o acompanhamento adequado, é possível ter alguma qualidade de vida e manter as rotinas.

Cláudia Pinto
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1 O que é a fibromialgia?

É uma doença crónica caracterizada por dores ósseas musculares e esqueléticas, generalizadas, que afetam todo o corpo. Instala-se de forma progressiva e as dores são persistentes, arrastando-se no tempo. As dores são mais acentuadas em certos dias e em certas zonas (ombros e coxas, habitualmente), e muitas vezes paralisantes. “Esta dor resulta do deficiente processamento do estímulo doloroso”, diz Fernando Pimentel, médico reumatologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia.

2 Quais as principais queixas?

A queixa principal é a dor e está presente na esmagadora maioria dos casos. O segundo sintoma — muito incapacitante e persistente — é a fadiga. Mas existem outros frequentes, explica o também professor de reumatologia na Nova Medical School e coordenador do Serviço de Educação Pré e Pós-graduada da ULS Lisboa Ocidental. “São eles: dificuldade de concentração, de memória [alguns doentes falam em nevoeiro mental], graus de ansiedade e de depressão. Algumas pessoas revelam intolerância ao ruído, têm dificuldade em estar em ambientes com muita gente a falar alto e intolerância à luz.”

Outro sintoma frequente é a perturbação do sono, desde a dificuldade a adormecer ao sono superficial. Muitos doentes têm insónias, acordam mais cedo do que seria suposto, relatam não ter um sono reparador ou, quando acordam, sentem que não descansaram verdadeiramente.

3 Como se chega ao diagnóstico?

O diagnóstico precoce é quase inexistente. A doença está associada a sintomas que se instalam progressivamente e que podem induzir em erro. “As pessoas começam a sentir-se cansadas, acham que se deve a problemas do dia a dia e não valorizam os sintomas.” É a persistência e intensificação destas queixas, sobretudo a fadiga e a dor, que leva à procura de ajuda, que pode demorar meses.

Além da história clínica, é muito importante a observação da pessoa – o exame objetivo. “Às vezes, quando observamos podemos identificar aspetos que podem amplificar o quadro doloroso e permitem fazer o diagnóstico.”

Perante alguns exames complementares de diagnóstico (análises ao sangue, Raio-X, TAC ou outros), é muito comum ter resultados normais. “Uma pessoa com fibromialgia tem múltiplas queixas e quando  não encontramos nada de especial nos exames temos de explicar que é mesmo assim porque se o diagnóstico fosse o de outra doença, seria normal ter resultados alterados. Ou seja, exames sem alterações reforçam o diagnóstico de fibromialgia.”

Isto pode deixar algumas pessoas confusas e o papel do médico é essencial: “Temos de explicar que não estão loucas e que é normal, nesta doença, sentirem dor e receberem exames com resultados normais.”

Há como que uma exclusão de doenças. Vão-se fazendo exames de acordo com alguns sinais, resultados das análises, algum marcador suspeito e à medida em que estes forem dando negativos essas doenças são eliminadas até se chegar ao fim da linha. É aí que está a fibromialgia, conhecida também como doença silenciosa.

4 Como se trata?

A primeira coisa a fazer é explicar às pessoas quais os principais sintomas da doença e que, apesar de causar muito sofrimento, as análises ao sangue ou os exames complementares de diagnóstico (exames de imagem), à partida, vão estar normais. Esta explicação vai permitir ao doente gerir a sua própria doença.

“Não existem tratamentos dirigidos especificamente para a fibromialgia, mas sim para controlo dos sintomas, que ajudam a melhorar a qualidade de vida”, explica Fernando Pimentel.

Uma das principais formas de intervenção é a alteração dos estilos de vida: a prática de exercício físico e a higiene do sono. O exercício físico tem de ser muito bem prescrito e personalizado, adaptado a cada pessoa. “Temos de avaliar, ver qual é o seu desempenho, quais são as limitações físicas e adaptar ao ritmo de cada um.”

Recomenda-se a aposta na flexibilidade, mas também em exercícios de carga. “Estes exercícios, muitas vezes, iniciam-se só com o peso da própria pessoa, sem pesos externos, para manter e reeducar o músculo.” Se, por um lado, é importante que a pessoa escolha a atividade de que mais gosta, por outro, há que entender até onde pode ir.

Estas pessoas podem ter perturbações cardíacas e respiratórias, podem estar em má forma e, nestes casos, é preciso melhorar o desempenho cardiovascular. Caminhar, correr, andar de bicicleta, dançar, ir à piscina podem ser opções. A Organização Mundial da Saúde indica que devemos fazer uma hora de exercícios, “que pode ser dividida em vários blocos superiores a dez minutos”.

É também recomendada uma boa higiene do sono. Fernando Pimentel recomenda evitar ecrãs de computador e de telemóvel duas horas antes de ir para a cama e optar por fazer uma atividade relaxante: uma meditação, ver um filme ou ouvir uma música tranquila, fazer croché ou ler um livro.

Também se deve evitar café, chá, bebidas alcoólicas ou estimulantes e tabaco. Antes de adormecer pode ainda fazer alguns exercícios de flexibilidade, respirações profundas e tentar relaxar o corpo… “Devemos dormir sete a oito horas por dia e definir uma hora  para deitar e para acordar.”

É sugerida muitas vezes fisioterapia na água ou tratamentos com quente e frio, que ajuda com os músculos.

5 Qual a especialidade médica que se deve procurar?

O primeiro passo deve ser procurar o médico de família. “Muitas pessoas podem ser diagnosticadas e até tratadas por este profissional. Mas não é simples ter a certeza do diagnóstico. Se houver dúvidas devem ser reencaminhadas para a reumatologia, a especialidade mais adaptada e preparada para receber e acompanhar estes doentes.”

É importante o doente ser acompanhado por equipas com profissionais de várias áreas, como psicólogos, especialistas em motricidade humana e educação física, fisioterapeutas, médicos de outras especialidades, dependendo do doente e das complicações associadas que possa ter.

Se for seguido em reumatologia, quando estiver estabilizado pode manter as consultas, uma a duas vezes no ano, para garantir a vigilância de forma adequada, mas pode também ser acompanhado pelo seu médico de família.

6 Que medicamentos costumam ser prescritos?

“As organizações internacionais identificaram alguns medicamentos que podem ajudar neste contexto: antidepressivos, gabapentinoides [utilizados na dor neuropática] e analgésicos.”

O reumatologista costuma ver casos de pessoas medicadas com opioides fortes, mas não são recomendados. “Diria até que deve ser evitado, pois a eficácia é questionável e os efeitos nocivos desses medicamentos são frequentes. Podemos experimentar anti-inflamatórios, mas a probabilidade de insucesso é grande.”

Pode ser também recomendada a toma de vitamina D — que está em défice numa franja considerável da população portuguesa —, relaxantes musculares, entre outros.

7 Sabe-se quantas pessoas afeta a doença?

A prevalência desta doença é de 2 a 8% das mulheres a nível mundial. Afeta sobretudo o sexo feminino, o que não significa que não haja homens com a doença, mas é raro.

8 Quais os fatores que conduzem a esta doença?

É uma doença multifatorial. “Existem causas de natureza genética e muitas situações de stress, sobretudo físico e psicológico, na infância e na adolescência, poderão ser gatilhos para desencadear a doença”, destaca o reumatologista.

9 É possível continuar a trabalhar?

Em fases críticas, quem tem fibromialgia pode ter grandes perturbações de sono, dor, cansaço e grande dificuldade em cumprir horários rígidos. O ideal seria ter um apoio da medicina do trabalho para ter maior flexibilização de horário e evitar trabalhos que envolvam movimentos muito repetitivos ou com grandes cargas. “É desejável que as pessoas se mantenham integradas no ambiente profissional, pois continuar a trabalhar é um sinal direto de que estão controladas e se sentem válidas.”

Fernando Pimentel reforça esta ideia com base nas conclusões de alguns estudos que indicam que as pessoas com estas e outras doenças reumáticas têm pior qualidade de vida quando se reformam. “Costumo dizer aos doentes que vamos tentar encontrar um equilíbrio e estar bem o suficiente para continuarem a trabalhar. O objetivo é manter as pessoas ocupadas a desempenharem a sua função.”