É um dos sistemas de defesa militar mais complexos e avançados do mundo, desenhado para proteger a complexa posição israelita no Médio Oriente, mas as fragilidades da famosa Cúpula de Ferro podem estar a ficar expostas. Isto porque o sistema de deteção e interceção de ataques instalado em Israel desde 2006 foi desenhado para proteger o país de ataques de curto alcance, mas a nova guerra com o Irão mostra que há falhas nas suas defesas.
Um texto do jornal israelita Haaretz parte de um exemplo recente para explicar o “choque de realidade” com que os israelitas estão agora, no presente conflito com o Irão, a ser confrontados. Na semana passada, a população foi avisada com apenas dez minutos de antecedência sobre a necessidade de se proteger rapidamente, recolhendo-se a um dos abrigos desenhados a pensar em ataques militares, dentro ou fora de casa.
Isto porque o Irão lançara um ataque contra um sistema de radares norte-americano no Qatar, destinado também a detetar ataques com mísseis contra Israel, tendo sido atacado também um sistema de defesa antimíssil nos Emirados Árabes Unidos; além disso, o Hezbollah anunciou ter disparado mísseis contra uma estação de comunicações militares por satélite em Israel.
Para os peritos ouvidos pelo jornal, tudo isto contribui para provar que existe um “buraco” na capacidade de Israel de se proteger e avisar atempadamente a população, ainda que até agora não tenham sido reportados danos no sistema de defesa aéreo durante o atual conflito.
O general Ran Kochav explica ao Haaretz que uma bateria de mísseis Patriot, por exemplo, “só consegue intercetar mísseis a certa distância”, mas não é capaz de se “defender de mísseis balísticos de longo alcance do Irão ou de drones, mísseis anti-tanque ou balas de 5,56 milímetros de uma metralhadora”. Ou seja, estes sistemas “conseguem defender-se das ameaças contra as quais foram desenhados, mas não de outras ameaças”.
Além disso, o militar explica, nesta lógica, o racional dos ataques do Hezbollah e do Irão: “Eles percebem que se desviarem as nossas capacidades de defesa aérea poderão atacar-nos melhor pela retaguarda. Por isso é que o Hezbollah atingiu radares em Meron, lançadores da Cúpula de Ferro no norte, e a estação de observação em Tal Shamayim”.
Ou seja, a lógica do “desvio” é simples: se as baterias de mísseis estiverem ocupadas a defender-se, desviam-se das funções de defender outros alvos de ataques, como seria suposto. “Em Israel, pode colocar-se a situação de a Cúpula de Ferro ter de escolher se protege uma cidade ali perto ou uma bateria de mísseis” — até porque um ataque a estes sistemas também representa um grande risco para quem se encontrar ali perto, além de um rombo financeiro muito significativo, de centenas de milhões de euros por cada sistema destes.
Outro problema apontado pelo Haaretz é que a defesa dos próprios sistemas de defesa aéreos não conseguem operar sem serem visíveis, pelo que o Hezbollah, perto do início da guerra após o 7 de outubro, conseguia mostrar nos seus vídeos como conseguia evitar, com os seus drones, barreiras à volta de baterias que compõem a Cúpula de Ferro.
O mesmo general dá algumas sugestões para evitar estes riscos, como distribuir lançadores falsos pelo território ou colocar lançadores verdadeiros mas disfarçados, “numa camioneta do lixo, da Coca-cola ou um camião agrícola”. Há, de resto, várias empresas israelitas que se dedicam a trabalhar nesta camuflagem de materiais de Defesa.
Kochav explica que a abordagem norte-americana, por exemplo, é colocar baterias perto umas das outras para que se protejam mutuamente. “Mas quando uma bateria Patriot defende uma bateria THAAD, não está a defender outra coisa”, nota.
O Jerusalem Post acrescenta que o sistema de defesa por laser, que faria parte da Cúpula de Ferro, não está pronto para ser usado de forma regular nesta guerra, segundo informações do exército israelita transmitidas esta quinta-feira. Este sistema novo tinha sido anunciado pelo ministério da Defesa em dezembro de 2025 com “pompa e circunstância”, mas o exército diz agora que o sistema não está “maduro” o suficiente para ser utilizado.
Segundo o jornal, se e quando o sistema chegar a estar pronto para ser utilizado, terá mais força e alcance do que a versão anterior do sistema de defesa com laser (que se defendia de drones), podendo responder a um número maior de ameaças e abater mísseis, rockers e morteiros. Mas as forças israelitas não adiantaram quando é que o novo sistema estará, então, operacional.
A Cúpula de Ferro, sistema de defesa aérea israelita, foi construída no verão de 2006, durante a guerra do Líbano desse ano, quando o Hezbollah lançou milhares de rockets contra Israel. Como o Observador explicava neste texto, na sequência desse período de violência, Israel decidiu investir num novo sistema de defesa contra rockets, que foi encomendado à empresa de segurança israelita Rafael Advanced Defense Systems e à empresa de aeronáutica Israel Aerospace Industries. O sistema foi desenvolvido com apoio dos Estados Unidos.
O Iron Dome deteta ameaças por radar, sendo que essa informação é enviada em tempo real para o centro de controlo, onde são feitos os cálculos que determinam automaticamente o local estimado para o impacto do rocket. O sistema avalia também o risco para a população e, em poucos segundos, determina se o rocket vai cair numa zona povoada ou não.
Se for essa a previsão, o sistema dispara de modo automático um míssil de interceção a partir de um dos dez locais de lançamento espalhados por todo o país. Este míssil vai atrás do rocket e explode junto a ele ainda a grande altitude, inutilizando-o e transformando-o em detritos — que depois caem em terra. Por esse motivo, os sistemas de alerta israelitas mantêm as sirenes ligadas durante um período depois das explosões, para evitar que os cidadãos andem na rua durante a queda dos detritos e acabem por ser atingidos.
A “Cúpula de Ferro” faz parte de um sistema mais alargado de defesa aérea que inclui também o “Arrow” (Flecha), uma tecnologia semelhante capaz de intercetar mísseis balísticos de longo alcance; e o “David’s Sling” (Funda de David), que interceta mísseis de alcance médio, como os usados pelo Hezbollah no Líbano.