“Pensem no impensável e preparem-se para isso.” O aviso deixado pela diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, resume o momento de incerteza que atravessa a economia global — um tempo em que os “cisnes negros” descritos por Nassim Taleb parecem cada vez menos improváveis. Mesmo que o atual conflito no Irão termine em breve, alertou a responsável, outro choque poderá surgir pouco depois. Num mundo que ainda tenta consolidar a desinflação após a crise energética dos últimos anos, ditada pela invasão russa da Ucrânia, a duração do conflito no Médio Oriente pode tornar-se o fator decisivo para determinar se a Europa enfrenta apenas um novo sobressalto ou o regresso de um problema que parecia estar a desaparecer: a inflação.
Nos mercados de energia, em particular dos combustíveis fósseis, que ainda continuam a ser o principal motor da economia, o risco não está apenas no choque inicial provocado pelo começo da guerra, mas sobretudo na sua duração. Um conflito curto tenderia a ditar volatilidade temporária nos preços do petróleo e do gás, algo que a economia europeia poderia absorver com relativa facilidade. Até cerca de um mês de conflito, o impacto seria em grande medida suportável para a economia global, mas, a partir daí, começariam a surgir gradualmente fatores desfavoráveis, como inflação mais elevada e menor crescimento económico, podendo culminar num cenário de estagflação, à semelhança do observado na década de 1970 e, mais recentemente, em 2022, com efeitos muito mais nefastos na Europa do que nos EUA. Todavia, um cenário prolongado, sobretudo com o impacto já visível em rotas críticas como o Estreito de Ormuz, teria potencial para desencadear um novo choque energético global, com efeitos diretos nos custos de produção, nos transportes e, inevitavelmente, nos preços pagos pelos consumidores.
A pergunta central, por isso, não é apenas geopolítica. É económica: quanto tempo aguenta a Europa?
Depois do choque ditado pela invasão russa da Ucrânia em 2022, a Europa procurou reduzir a sua vulnerabilidade energética, diversificando fornecedores de gás e acelerando o investimento em energias renováveis. Atualmente, cerca de 55% do gás natural liquefeito (GNL) vem dos EUA e entre 10% e 15% do Qatar, enquanto antes de 2022 cerca de 45% vinha da Rússia. Este esforço de diversificação quer das fontes energéticas quer da origem dos fornecedores de combustíveis fósseis aumentou a capacidade de resiliência e absorção de choques externos da economia europeia. Todavia, a margem de segurança continua limitada. O crescimento na Zona Euro é muito frágil e muitos países enfrentam níveis elevados de dívida pública, reduzindo, assim, a capacidade de resposta das políticas económicas.
Se a tensão no Médio Oriente resultar numa subida persistente dos preços da energia, o efeito poder-se-á propagar rapidamente ao resto da economia. A energia continua a ser um custo transversal, da indústria ao transporte, passando pelo setor alimentar, e aumentos prolongados tendem a refletir-se numa nova pressão inflacionista. Para o BCE, apesar do seu mandato único de estabilidade de preços, há sempre o dilema de manter políticas monetárias restritivas durante mais tempo, arriscando travar a recuperação económica, ou não subir os juros mesmo perante novos sinais de inflação.
É por isso que o alerta do FMI vai além do atual conflito. O que está em causa é um padrão cada vez mais visível na economia global, ou seja, a sucessão de choques geopolíticos, energéticos e financeiros que tornam a estabilidade cada vez mais frágil e difícil de alcançar. Num contexto destes, o verdadeiro risco pode não ser apenas a próxima crise, mas a possibilidade de que ela chegue antes de a anterior estar totalmente resolvida. No caso europeu, a evolução da inflação nos próximos meses poderá depender de um fator difícil de prever, mas decisivo, isto é, a duração do choque energético ditado pelo conflito no Médio Oriente. O fantasma de uma nova crise inflacionista na Europa está de regresso, mesmo antes de a inflação dos últimos anos estar debelada?