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Paul Thomas Anderson: o clássico americano

Há décadas que transforma convulsões, melancolias e saudosismos de um país em filmes. Há décadas que é aclamado, aplaudido, imitado. Agora, foi premiado com o Óscar de Melhor Realização (e não só).

Ricardo Ramos Gonçalves
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O que une um magnata do petróleo isolado no deserto, um líder espiritual rodeado pelos seus discípulos ou um costureiro de alta sociedade que trabalha em silêncio na sua casa-atelier londrina? À primeira vista, pouco ou nada. Quando transportadas para o grande ecrã por Paul Thomas Anderson, estas personagens passam, no entanto, a pertencer a um mesmo universo. São, afinal, indivíduos movidos por ambição, fé ou desejo, quase sempre condenados a uma forma particular de solidão. E se a síntese funciona para as coligir num mesmo imaginário, são também, em larga medida, uma forma de análise à carreira daquele que é um dos grandes nomes do cinema norte-americano contemporâneo, frequentemente comparado a realizadores como Martin Scorsese ou Robert Altman.

Aos 55 anos, Paul Thomas Anderson – cujo mais recente filme, Batalha Atrás de Batalha, recebeu 13 nomeações aos Óscares e venceu 6 (Filme, Realização, Montagem, Ator Secundário, Casting e Argumento Adaptado) – é um dos realizadores mais singulares da sua geração e um reconhecido cronista da história americana, nas suas virtudes e contradições — e no palco do Dolby Theatre disse que fez o filme para os filhos, como “pedido de desculpa” pelo “estado em que o mundo está). No cinema que tem construído, a América raramente surge como um lugar de redenção, mas antes como um território habitado por figuras complexas que atravessam um país em constante transformação, das incipientes cidades petrolíferas do início do século XX até aos grandes centros urbanos da atualidade.

Desde que irrompeu no cinema americano dos anos 1990, este ambicioso cinéfilo criado no Vale de San Fernando transformou o território suburbano de Los Angeles, na Califórnia, num dos cenários mais recorrentes da sua filmografia: um microcosmo onde se cruzam temas como a fé, o poder e a solidão. Em filmes como Magnolia, Haverá Sangue ou O Mentor, o realizador construiu um universo cinematográfico reconhecível pela fluidez da câmara, pela intensidade das interpretações e por narrativas que exploram obsessões profundamente americanas. No seu filme mais recente, Batalha Atrás de Batalha (a produção com maior orçamento da sua carreira até ao momento), voltado para o presente, as tensões sociais do período pós-recessão surgem como uma síntese quase perfeita dessa trajetória, num estilo cada vez mais depurado.

Paul Thomas Anderson mantém, no entanto, uma aura paradoxal. É amplamente aclamado por críticos e cineastas, acumula nomeações para alguns dos prémios mais prestigiados da indústria cinematográfica e dirigiu alguns dos atores mais célebres das últimas duas décadas, mas continua a trabalhar, em muitos casos, à margem da lógica dominante dos estúdios. O seu cinema permanece exigente, muitas vezes inquietante. Talvez por isso se explique o facto de só agora conquistar o Óscar da Academia, apesar das mais de dez nomeações em várias categorias. Sem capas de super-heróis nem mundos de fantasia gerados com recurso a efeitos especiais, os filmes de Anderson centram-se na história de lugares e personagens quase sempre em estado de ebulição e metamorfose. São, diríamos, uma antítese ao modelo dominante do cinema de Hollywood em 2026.

O cronista do Vale de San Fernando

Recuemos no tempo. Paul Thomas Anderson nasceu a 26 de junho de 1970, em Studio City, no Vale de San Fernando, uma vasta zona suburbana de Los Angeles que viria a marcar profundamente a sua imaginação cinematográfica. Filho do apresentador de televisão e locutor de rádio Ernie Anderson, cresceu rodeado por câmaras, estúdios e pelo ambiente da indústria do entretenimento californiana. Ainda adolescente começou a filmar pequenas histórias com uma câmara de vídeo, experimentando narrativas e movimentos técnicos que mais tarde se tornariam marcas estilísticas.

Esse lugar onde cresceu, simultaneamente banal e mítico na cultura popular americana, acabaria por tornar-se um dos espaços centrais da sua filmografia. Em filmes como Boogie Nights, Magnolia e Licorice Pizza, Paul Thomas Anderson regressa repetidamente ao Vale de San Fernando, espaço onde se cruzam ambição, fracasso e desejo de pertença. Mais do que um simples cenário, o lugar funciona no seu cinema como um mapa emocional dessa América, onde sonhos de sucesso convivem com desilusões e vidas errantes à deriva.

Do pouco que é conhecido do seu percurso académico, sabe-se que frequentou por um breve período a New York Film School, que logo abandonou. Em entrevista, diria sobre esse período que a sua formação cinematográfica advém de ter visto filmes de outros criadores, rejeitando a forma como as escolas moldam a visão dos mais jovens. “Há uma mentalidade assustadora nas escolas de cinema… Entrei numa aula de cinema sobre escrita de guiões e a frase de abertura foi: ‘Se estão aqui para escrever o Exterminador Implacável 2, saiam agora mesmo’. Achei isso terrível, porque poderia haver um miúdo num canto que quisesse escrever o Exterminador Implacável 2; esse é o filme dele, é disso que ele gosta, deixem-no fazê-lo”.

Lançando-se diretamente no mundo do audiovisual, trabalhou como assistente de produção em vários telefilmes, vídeos e concursos televisivos. Realizou a primeira longa-metragem com apenas 24 anos. Tudo começou quando Anderson escreveu o guião para uma curta intitulada Cigarettes and Coffee, que acabaria por ser premiada no Festival de Sundance de 1993. O prémio permitiu-lhe desenvolver um filme mais longo através dos Filmmaker’s Workshops do Sundance Institute.

O resultado foi Hard Eight (1996), que reúne no elenco Philip Baker Hall, John C. Reilly, Gwyneth Paltrow, Philip Seymour Hoffman e Samuel L. Jackson, destacando-se pelas suas performances complexas e pelo estudo atento da psicologia das personagens. Já visto como um promissor realizador, seria com o seu segundo filme que confirmaria definitivamente o estatuto. Em Boogie Nights, lançado no ano seguinte, Anderson constrói um retrato exuberante e trágico da indústria pornográfica californiana dos anos 1970 e 1980, acompanhando um grupo de atores, realizadores e técnicos que formam uma espécie de família improvisada em torno do negócio do entretenimento para adultos. Interpretado por um elenco que incluía Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Don Cheadle e Philip Seymour Hoffman, o filme foi recebido com entusiasmo pela crítica e valeu ao realizador as primeiras nomeações para os Óscares, consolidando-o como uma das vozes emergentes do cinema americano daqueles anos.

A estes primeiros passos sucederam-se mais sucessos. Com Magnolia voltaria a encantar a crítica e a obra rapidamente se afirmou como um dos títulos mais celebrados da viragem do milénio, figurando em inúmeras listas de melhores filmes do ano. Seguiu-se Punch-Drunk Love, uma comédia romântica atípica protagonizada por Adam Sandler e Emily Watson. Mais contido e experimental do que os filmes anteriores, o projeto valeu-lhe o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes.

Ambos os filmes confirmavam a capacidade de Anderson para se reinventar no seu próprio estilo, alternando entre o épico coral e as narrativas íntimas. Foi também a meio da primeira década do novo milénio que se aproximou ainda mais de uma das suas principais referências, colaborando com Robert Altman na produção de A Prairie Home Companion, o último filme do realizador. Recatado e pouco dado a entrevistas, diria em 2003 que, como realizador, não tinha interesse em repetir-se. “Tenho tantos interesses e tantos géneros que gostaria de fazer, e tantas histórias para contar”, afirmou.

Após um breve período de hiato, Paul Thomas Anderson regressaria, em 2007, com o filme que muitos consideram a sua obra-prima. Inspirado livremente no romance Oil! de Upton Sinclair, Haverá Sangue acompanha a ascensão de um explorador de petróleo no sul da Califórnia no início do século XX. Protagonizado por Daniel Day-Lewis e Paul Dano, o filme é uma poderosa alegoria sobre ambição e relações de poder na formação da América moderna. Com uma receção crítica praticamente unânime, é considerado um dos grandes filmes da década de 2000, alguns chegando mesmo a classificá-lo como uma das obras mais importantes do cinema contemporâneo.

Nas páginas da revista The New Yorker, David Denby escreveu que Anderson alcançou um nível comparável às grandes realizações de D. W. Griffith e John Ford. Já o crítico Richard Schickel descreveu Haverá Sangue como “um dos filmes americanos mais originais alguma vez feitos”. A interpretação de Day-Lewis acabaria, de resto, por ser distinguida com o Óscar de Melhor Ator. A obra assinala também a chegada de uma dimensão mais minimalista ao cinema de Paul Thomas Anderson, tendência que se aprofundaria cinco anos depois com O Mentor, um drama psicológico centrado na relação entre um veterano de guerra instável e o líder carismático de um movimento espiritual.

O confronto interpretativo entre Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams voltava a colocar Anderson como um dos autores mais consistentes e inquietantes do cinema contemporâneo. O filme viria a obter três nomeações para os Óscares. Ainda nessa linha, o realizador dirigiu Vício Intrínseco, uma adaptação do romance homónimo de Thomas Pynchon (o mesmo autor que adaptou agora para Batalha Atrás de Batalha, a partir do livro Vineland), com Joaquin Phoenix a assumir novamente o papel de protagonista. Mergulhado numa Los Angeles psicadélica e desconexa dos anos 1970, combinando humor, crime e conspiração, o filme marcou o fim de um período intenso de incursão sobre a história dos Estados Unidos.

Íntimo, nostálgico, combativo

Numa nova fase do seu percurso, seguiu-se Linha Fantasma, um drama ambientado em Londres, nos anos 1950, protagonizado por Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps e Lesley Manville. O filme consolidou a reputação de Anderson como um realizador capaz de aliar rigor formal e intimismo emocional, explorando com delicadeza os jogos de poder e obsessão dentro de uma relação amorosa complexa. Entre as nomeações aos Óscares, estavam as categorias de Melhor Filme e Melhor Realizador, nesse ano entregues a A Forma da Água e ao seu realizador, Guillermo del Toro.

Mais recentemente, em 2021, Licorice Pizza voltou a colocar Anderson no epicentro do cinema americano contemporâneo. O filme, uma história de formação ambientada novamente no Vale de San Fernando durante os anos 1970, combina elementos de nostalgia, humor e sensibilidade. Foi, uma vez mais, celebrado como mostra profunda e calorosa do trabalho de Paul Thomas Anderson, capaz de equilibrar a narrativa emocional e o charme da cultura pop americana.

Chegados a 2025, três décadas depois do início da sua carreira, foi para essa América mais expansiva e contraditória que o realizador continuou a olhar. O seu Batalha Atrás de Batalha aponta baterias a um país em estado policial, paradoxal e revoltante, onde a violência irrompe mesmo nos lugares mais inesperados. Visto como um dos filmes mais declaradamente políticos da sua filmografia, é também um reflexo sobre a América de Trump, embora o realizador se defenda dessa leitura: “Esta história poderia ter sido contada há 20 anos. Poderia ter sido contada na Idade Média. Poderia pegar nesta história e colocá-la no espaço. É como a frase que Perfidia diz no filme: ‘Dezasseis anos depois, e o mundo mudou muito pouco'”, sublinhou em entrevista ao LA Times.

Dez longas-metragens de ficção, um documentário e exatamente trinta anos depois da estreia do seu primeiro filme, chegou, por fim, a vez de Paul Thomas Anderson. Aos prémios já conquistados por Batalha Atrás de Batalha – Melhor Filme e Melhor Realização nos BAFTA, três Critics’ Choice Awards e quatro Globos de Ouro – junta-se agora um momento de consagração para um realizador que, num curto espaço de tempo, alcançou um estatuto quase intocável no cinema contemporâneo, assinando um clássico americano de cada vez.