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(A) :: Carlos Gil. O criador que veste "avós, filhas e netas", responde às guerras com cor, e ao Valentino azul com discrição

Carlos Gil. O criador que veste "avós, filhas e netas", responde às guerras com cor, e ao Valentino azul com discrição

"Não é preciso sermos muito exigentes, temos é que ser sensatos", diz o criador que vestiu Maria Cavaco Silva por 10 anos. No sábado leva cor à ModaLisboa como resposta aos conflitos mundiais.

Sâmia Fiates
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Carlos Gil atende-nos, por telefone, a dois dias do desfile na ModaLisboa. Está no Fundão, onde tem atelier desde 1998, a rematar os últimos detalhes. “Está tudo pronto, mas faltam sempre coisas”, diz o criador, que vestiu por 10 anos a “primeira-dama” Maria Cavaco Silva, é responsável por looks de celebridades da televisão e caminha para os 30 anos de carreira. “Quanto mais o tempo passa, mais nervosismo. Parece que com a idade, ou é por uma questão de perfeição, ou sabedoria, cada vez temos mais nervos com ultimar as coisas. Acho que é por uma questão de sabermos cada vez mais aquilo que queremos e o que somos capazes de fazer. E por essa razão, estamos sempre com vontade de fazer bem e melhor.” Já acumula experiência suficiente para equilibrar os riscos da novidade aos clássicos intemporais, que agradam as clientes “que vão à terceira geração”, conta, orgulhoso. Este sábado, leva à passerelle da semana da moda da capital uma coleção que quer “dar cor” ao atual momento de conflitos mundiais. “Falo muito da situação atual, tanto a nível social como económico, porque trabalho diretamente com a mulher e o homem que fala, que desabafa, que de certa forma demonstra as suas vivências. Não é preciso viver-se em guerra para se saber que o outro que está longe, está mal. Não precisamos de lá estar para ficarmos tristes da mesma forma. E hoje sentimos que o mundo está cada vez mais desconectado, está cada vez mais difícil de se viver”, explica sobre esta The World, que reflete culturas internacionais e padrões que procuram inspiração na Arte Nova, reinterpretados em cores dos anos 1970 e 1980.

No Fundão, onde vive e trabalha, diz que lida “com alguma proximidade” com refugiados, em quem também, de certa forma, se inspira. “Sinto que cada vez mais há uma globalização nas nossas culturas. Todos nós nos vestimos de formas iguais, mas diferentes”, assinala. “Nasci em Moçambique e vim viver para Portugal depois da Revolução. Por isso eu também sei de alguma forma o que é a tristeza de sair de um país e vir para outro. E, sem sombra de dúvida, que é um desgaste emocional muito grande. Hoje, nós acolhemos muito melhor os refugiados e os imigrantes que querem vir para o nosso país”, considera Carlos Gil, que costuma trazer referências das viagens que faz para as suas coleções. “Sinto-me à vontade em conhecer outros países, em beber novas culturas, conhecer novas sociedades, e isso para mim é algo que me enriquece muito e que faz de mim outra pessoa.”

Também define a nova coleção como um distanciar do fast fashion e da estandardização. “É preciso ter-se mais calma e eu acho que isso também se revê muito nas coleções que hoje os designers apresentam, não só em Portugal, mas em todo o mundo, principalmente em Milão e em Paris. Nós trabalhamos muito mais devagar, temos muito mais cuidado em criar com perfeição e é esse sempre o meu intuito, criar com perfeição, é o cuidado de lidar com cada peça para que seja única e que seja um produto de arte que se pode tratar de uma forma diferente”, considera o designer, que é também professor na Licenciatura em Design e Produção de Moda na Universidade Lusófona, em Lisboa. “Penso que esta nova geração prefere pouco mas bom, e é algo que os nossos antepassados também nos incutiram. Até há um ditado português que diz, ‘depressa e bem não há quem’. As coisas depressa não têm grandes resultados, não se chega a bom porto. E eu penso que esta nova geração, está-nos a dar alguns ensinamentos”, diz, afirmando que aprende muito com os próprios alunos. Uma troca que resulta também numa certa reinvenção constante, que se traduz em clientes que caminham “para a terceira geração”. “Comecei com as avós, depois passei para as filhas e agora estou nas netas. Daí eu dizer que de certa forma não há clientes, há amigos. Falo de uma marca que vai a caminho de 30 anos e que consegue impor-se todos os anos com duas coleções, com algo de novo, e sempre com credibilidade. É não estagnar, não mostrar ego, seguir a mostrar sempre mais, mas sempre com uma coerência e muita firmeza naquilo que se pretende fazer.”

“O estilista de Maria Cavaco Silva”

O interesse pela moda já vinha da juventude, quando aos 17 anos foi estudar em Lisboa, mas Carlos Gil ganhou projeção nacional em 2006, como “o estilista de Maria Cavaco Silva”. Vestiu a mulher do Presidente da República por uma década. “Quando foi essa altura, eu tive que estudar o protocolo e inteirei-me de forma a que todo o meu trabalho tivesse uma verdade e fosse transmitido de uma forma muito serena. E foi assim que foi feito durante os 10 anos em que a dra. Maria Cavaco Silva esteve na Presidência como primeira-dama. De uma forma sempre muito simples mas com o seu gosto muito próprio. Guardo esses momentos sempre com muita saudade porque foram muito felizes para mim”, assinala o designer.

Foram apresentados por amigos em comum ainda durante a campanha Presidencial, quando Carlos Gil começou a criar peças para Maria Cavaco Silva “também por curiosidade da parte dela”, recorda, sobre o encontro há 20 anos. Em 2015, recebeu das mãos de Aníbal Cavaco Silva a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, como reconhecimento pelo seu contributo para a moda e cultura portuguesa a nível nacional e internacional. Sobre a relação e a troca criativa com a mulher do antigo Presidente, mantém a discrição, revelando apenas que “não é preciso sermos muito exigentes com aquilo que queremos, temos é que ser muito sensatos. E ela é uma senhora. Tudo foi feito sempre de uma forma muito serena, com muito gosto naquilo que se fazia. E quando as coisas são feitas com gosto, tudo decorre de uma forma diferente, muito mais fácil.”

Numa entrevista em 2010 para a Revista Única, do jornal Expresso, Maria Cavaco Silva comentou a sua preocupação em representar a mulher portuguesa, especialmente em viagens ao exterior. “Faço questão de que aquilo que visto seja português”, disse a mulher do então Presidente da República, que também falou do responsável por boa parte do seu guarda-roupa: “é um jovem estilista, Carlos Gil”. Mas deixou a porta aberta a outros jovens criadores: “se houver outros candidatos jovens, que ninguém conheça, estou disponível. Tenho algumas peças da Isabel Tigranes. Faço questão de ter um resultado razoável com o mínimo de orçamento possível”, respondeu. Em 2014, Carlos Gil vestiu a “primeira-dama” na visita oficial dos Reis de Espanha, quando Maria Cavaco Silva acompanhou a Rainha Letizia a vários projetos de solidariedade. Numa delas, usou um coordenado de saia e blazer rosa feitos num tecido texturizado e com botões assimétricos, que combinou com um colar de pérolas.

Depois de Maria Cavaco Silva, Carlos Gil vestiu outras figuras da política nacional, um “nicho” com o qual tem publicamente uma relação de proximidade. Na última edição da ModaLisboa, desviou o caminho da passerelle por alguns segundos para abraçar Carlos Moedas, por exemplo. “Algumas delas tornaram-se públicas e a imprensa sabe, as que não dizem eu também não digo”, assinala o criador, que não desvaloriza o poder que uma roupa tem num contexto político oficial. “As peças de roupa que vestimos são a nossa imagem. Sem sombra de dúvida que a imagem que nós passamos aos outros é a forma como nos apresentamos.”

Diante da polémica que se instalou com a escolha de Margarida Maldonado Freitas, mulher de António José Seguro, para a cerimónia de tomada de posse na passada segunda-feira, Carlos Gil mantém o tom discreto. “É tão difícil para mim falar, por uma questão de conhecimento e de lá ter estado por 10 anos”, começa por dizer o criador. Rejeitando ser chamada de “primeira-dama”, uma posição que efetivamente não existe em Portugal, a mulher do Presidente da República optou por usar um vestido azul pastel Valentino alterado, trocando os botões originais cravejados com cristais por Corações de Viana. “Entendo que a dra. Margarida fez a opção, para ela, mais segura. Vestiu um criador de nome, com um peso no seu trabalho. O que não quer dizer que, durante os próximos cinco anos, não terá imensas oportunidades para vestir criadores portugueses. Mas nesta altura, que era a sua primeira imagem, quis transmitir segurança. Sentiu-se mais segura vestindo um Valentino. É uma escolha válida, muito boa, e realçou o portugalismo, usando as joias de Portugal“, opina Carlos Gil. “Claro que poderia ter vestido um português, mas cada um é que sabe. Acho que nessas coisas, não nos podemos meter. Os designers portugueses vão ter cinco anos para a poderem vestir. Assim, tenham atitudes nobres para com ela, assim como a comunicação social”, remata.

A olhar para um panorama mais amplo, o designer fala em Jacqueline Kennedy como uma das mulheres ícones no seu tempo. “Gosto sempre de ver um produto estável, coerente e há determinado tipo de imagem que eu tenho como referência. Depois, claro, altero e crio de uma outra forma, por vezes até chego a um fim que não tem nada a ver com aquela que me levou à inspiração. Podemos, por exemplo, falar na Audrey Hepburn, como podemos falar de uma Jacqueline Kennedy, uma Catherine Deneuve ou uma Sophia Loren. Simplesmente gosto de um clássico irreverente“, considera. Mas também se inspira nas próprias clientes. “Costumo dizer que depois de uma relação de cliente e de criador, há uma relação de amizade, porque há uma intimidade que se aproxima, há uma química que nos faz identificar. Não preciso de perguntar muitas coisas para perceber o que a cliente gosta, porque já é amiga”.

Mulheres que vêm da política mas também médicas, advogadas, farmacêuticas, juízas, e figuras da televisão. Carlos Gil vai das poltronas do The Voice com Marisa Liz às bancadas dos telejornais, com a pivô Ana Patrícia Carvalho, passando por personalidades como Lili Caneças, que na edição passada da ModaLisboa recordou ao Observador que fechou o primeiro desfile do criador, há quase 30 anos. “É uma pessoa que me conhece desde quando eu iniciei a minha carreira. Que me deu grandes elogios quando viu a minha primeira coleção e que me deu alguns conselhos que ainda hoje guardo”, assinala, sem querer revelar quais são. Fiéis, visitam o designer no Fundão ou vão ter com ele nas suas deslocações semanais a Lisboa ou ao Porto. “Estamos numa região que é o centro. De Lisboa ao Fundão, como é do Fundão ao Porto, é o mesmo tempo de Lisboa a Paris”, compara, afirmando que também tem clientes que vivem fora de Portugal. “São pessoas que já me conhecem há muitos anos, algumas delas que tiveram cargos importantes e que depois foram para outros países. E eu continuo a vesti-las e a servir, de certa forma”. Este sábado, é provável que algumas delas estejam na plateia, a aplaudir as novas criações de Carlos Gil.

Com a mira no mercado asiático

Foi em 2009 que se estreou no Portugal Fashion, e em 2014 apresentou pela primeira vez no calendário da ModaLisboa. Entre 2015 e 2017 investiu na internacionalização, participando inclusive da Semana da Moda de Milão. Agora, entretanto, aponta para mercados no Médio Oriente e na Ásia. “A marca continua a trabalhar, principalmente para o Dubai e o Qatar, e estamos ainda com vontade e com muita perspectiva de chegar a Xangai e Tóquio, que foi um público que se perdeu na altura da Covid”, assinala o criador, afirmando que reconhece que a atual tensão provocada pela guerra no Irão cria “problemas a muita gente”, mas que acredita que a situação será “rapidamente resolvida. Estamos a lidar com muitos egos e com muitos orgulhos e, normalmente os egos e os orgulhos são passageiros.”

Em 2017, em Milão, recordou em entrevista ao Observador o dia em que tropeçou numa imagem de uma coleção sua, quando folheava um catálogo de tendências da Next Book. “Até pensei que me tinham copiado. Nunca pensei poder estar ao lado da Gucci ou da Prada, fiquei estupefacto”, disse, na altura. Anos antes, já havia recebido o convite para integrar a equipa da Armani. “Isso foi quando eu acabei o meu curso, que havia estágios e na altura fui convidado para estagiar, mas a minha vontade naquele momento era ficar em Portugal e começar a trabalhar. Comecei a dar aulas no ensino secundário, mas ao mesmo tempo a trabalhar numa fábrica como designer, que na altura trabalhava para o mercado externo, para várias marcas conceituadas”, conta. Com a experiência de tentar a sorte lá fora em nome próprio, Carlos Gil é otimista. “Temos que pensar sempre que nós somos, provavelmente, a imagem mais fácil de mostrar o que se faz em Portugal. E nós temos uma boa referência no estrangeiro, eu pelo menos tenho isso em conta. Temos designers que são reconhecidos e bons designers”.

Nos dias que antecedem o desfile, Carlos Gil ocupa-se menos das agulhas e mais das produções. Na última edição fez da passerelle palco para o cantor Syro, e enquanto as modelos desfilavam, artistas concluíam uma pintura de graffiti ao vivo. Em outras edições, o criador já trouxe Mimicat, performances de dança e uma equipa de violinistas. Mas esta última aposta não terá corrido exatamente como o planeado. “Tínhamos 10 meninas a tocar violino, e quatro delas ficaram presas no trânsito. Quer dizer, o evento tinha de começar com elas ou sem elas, não é? E começou, mas imagina a minha afronta, a minha e a das outras meninas, que eram 10 e faltavam logo quatro. Mas teve que começar o desfile e ninguém deu conta que faltavam lá quatro. Não tem o mesmo impacto, porque todas as pessoas são fundamentais, para mim fizeram falta, mas não estando, o desfile continuou”, conta-nos Carlos Gil, que repete variações do conceito de perfeição como mantra, uma forma de expressar o quanto se dedica às peças, às relações e ao espetáculo final. “Em todos os desfiles há algo que transcende, que marca, ou por questões técnicas, ou porque quem levava os sapatos chegou mais tarde, há sempre umas histórias para contar que na altura são muito aflitivas mas que depois até têm a sua graça e de certa forma é isso que dá alguma pica a estes eventos. O que é preciso é levar com educação, com algum estilo e com muita serenidade todas estas novidades, para que as coisas possam ter um bom fim. E eu gosto sempre que tudo tenha um bom fim.”