Sempre que uma série de comédia encaixa na categoria de “fofinha”, numa espécie de reação ao cáustico e à acidez tão própria da maioria do humor, há alguém que diz “ah, é tipo Ted Lasso“. Esta resposta peca por imprecisa — não, é tipo Scrubs. A série passada num hospital, que regressa 16 anos depois, andou o que foi preciso para que o treinador de futebol possa correr com os bigodes ao vento.
Isto não é uma coincidência. Ted Lasso (disponível na Apple TV+) e Scrubs (disponível na Disney+, temporadas velhas e nova incluídas) têm exatamente o mesmo criador: Bill Lawrence. O guionista/realizador/produtor (também responsável por Sin City ou por Shrinking, por exemplo) baseou-se em si mesmo e no seu melhor amigo da faculdade, um médico, para criar a dinâmica de Scrubs (ou Médicos e Estagiários, como ficou conhecido por cá quando passou na SIC Radical). Entre 2001 e 2008, durante oito temporadas (há uma nona temporada de 2010, ignorada por motivos que já vamos explicar), Scrubs misturou de um modo pouco habitual lágrimas com gargalhadas. De um lado, um humor sem problemas em muitas vezes ser non sense; do outro, histórias altamente emocionais sobre morte, perda ou saúde mental. Eu, calhau confesso, já chorei mais vezes a ver esta série do que aquelas que estou pronta para assumir em público.
Para quem nunca viu — o estatuto de Scrubs está mais perto do culto do que do mainstream que descamba em T-shirts da Primark — estamos perante um relato relativamente realista da vida num hospital. Em termos de cuidado com os detalhes sobre doenças e procedimentos, estamos no mesmo patamar de The Pitt. Nas temporadas originais, o médico interno John Dorian (ou JD, como é mais conhecido) tenta navegar os corredores de Sacred Heart Hospital. É ele o narrador da série, tendo como principais interlocutores a médica Elliot Reid (o interesse amoroso) e o cirurgião Chris Turk (o melhor amigo), assim como o duro chefe Dr. Cox, um tipo sem filtros que tem na verdade um coração de ouro.
Ao fim de oito temporadas na NBC, Scrubs pendurou a bata. A história fechou, o hospital abandonado em que gravavam foi demolido e os espectadores procuraram outras séries para aquecerem o coração. Só que de repente, sem que ninguém contasse, a ABC encomendou uma temporada 9. Foi exibida em 2009 e contou apenas com breves regressos das personagens de JD e Turk, misturadas com um elenco completamente novo. A reação dos fãs foi de tal como negativa que estes episódios são taxativamente ignorados do cânone da série, como uma noite de copos que correu tão mal que ninguém fala dela.
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Apesar deste passo em falso, o interesse pelas personagens originais e pela série nunca diminuiu nos 16 anos desde que saiu do ar, em parte graças à química entre Zach Braff (JD) e Donald Faison (Turk), bem visível tanto nos anúncios da T-Mobile como no seu podcast Fake Doctors, Real Friends with Zach and Donald. Feito entre 2020 e 2025, o podcast levou os atores a verem os quase 180 episódios de Scrubs de novo (o chamado rewatch), fazendo comentários, adendas e analisando o que resultava bem e mal.
O objetivo deste rewatch não seria uma nova temporada, mas a verdade é que este exercício de autoanálise acabou por ser uma espécie de workshop para ver quais os méritos da série e como poderia ela ainda fazer sentido tanto tempo mais tarde. O resultado é então uma décima temporada (que ignora a nona). São 9 episódios, com cerca de 22 minutos cada; estão 4 já disponíveis em Portugal via Disney+ (estreiam às quintas) e o último está agendado para 16 de abril.
A grande maioria das personagens regressam e o tom e o estilo mantêm-se como se o tempo não tivesse passado. Talvez por causa da experiência imersiva do podcast, parece que aterramos em 2026 como se fosse a coisa mais natural do mundo. A história andou para a frente (JD e Elliot divorciaram-se; Dr. Cox quer deixar de ser babysitter de novas gerações de internos e chama JD, entretanto um médico privado dos ricos, para regressar para esse papel), mas ao mesmo tempo está igual. O narrador continua a ser JD, que faz muito mais do que só descrever o quotidiano em Sacred Heart. Tal como nas temporadas originais, é como se estivéssemos dentro da cabeça dele, com o seu daydreaming palerma e os seus apartes inseguros.
Nas poucas coisas nas quais Scrubs não está na mesma (e “estar na mesma” é uma qualidade), continua a acertar. Os novos personagens têm potencial e os ângulos não ficaram estagnados num mundo que mudou tanto em 16 anos. Scrubs vai deleitar os fãs de sempre e talvez arrebanhe um ou outro novo no processo. Se eu já chorei nesta nova temporada? No episódio 2, há uma parte em que JD diz: “Num hospital, passamos pela experiência da perda todos os dias. Mas a pior é a perda de esperança”. Já fui, caríssimos. Já fui.