Depois de 23 anos à frente daquele que foi cinco vezes considerado o melhor restaurante do mundo, o chef René Redzepi deixou o Noma, em Copenhaga, na sequência das alegações de abusos e agressões a ex-funcionários durante anos, reveladas agora pelo The New York Times.
Foi através das redes sociais que esta quarta-feira o chef cofundador do Noma anunciou a sua saída, numa mensagem onde assume a responsabilidade pelas próprias ações, reconhecendo que “um pedido de desculpas não é suficiente”. “Após mais de duas décadas a construir e a liderar este restaurante, decidi afastar-me e permitir que os nossos extraordinários líderes conduzam agora o restaurante para o seu próximo capítulo”, escreveu o chef dinamarquês, acrescentado que também se demitiu do conselho da MAD, a organização sem fins lucrativos que fundou em 2011.
“As últimas semanas trouxeram atenção e conversas importantes sobre o nosso restaurante, a indústria e a minha liderança no passado. Tenho trabalhado para ser um líder melhor e o Noma deu grandes passos para transformar a cultura ao longo de muitos anos. Reconheço que essas mudanças não consertam o passado“, lê-se ainda na mensagem. “A missão do Noma para o futuro é continuar a explorar ideias, descobrir novos sabores e imaginar o que a comida poderá ser daqui a décadas. O Noma sempre foi maior do que qualquer pessoa. E este próximo passo honra essa crença”, acrescentou.
A decisão de René Redzepi surge depois de no passado dia 7 de março o New York Times ter revelado uma investigação sobre um ciclo de abusos físicos e psicológicos infligidos ao longo de anos pelo chef aos funcionários do Noma. Segundo os 35 testemunhos recolhidos durante a investigação do jornal norte-americano, entre 2009 e 2017 o chef agrediu dezenas de funcionários — há relatos de murros, empurrões e de agressões com utensílios de cozinha –, intimidou-os e ameaçou usar a sua influência para os impedir de arranjar trabalho. Apesar de os antigos funcionários reconhecerem que depois de 2017 Redzepi se tornou mais controlado, a cultura abusiva foi perpetuada pelos chefs seniores, com a sua aprovação.
A investigação do New York Times surgiu após Jason Ignacio White, o antigo diretor do laboratório de fermentação do Noma, ter denunciado no Instagram alguns dos abusos por parte de René Redzepi que presenciou, assim como de outros testemunhos que lhe foram chegando por mensagem. “O Noma não é a história da inovação. É a história de um maníaco que cultivou uma cultura de medo, abuso e exploração”, escreveu.
Em resposta às alegações, Redzepi publicou no início da semana um comunicado nas redes sociais, onde diz que consegue ver nos testemunhos o suficiente para compreender que as suas ações foram “prejudiciais” para os funcionários com quem trabalhou. “Peço profundas desculpas aqueles que sofreram sob a minha liderança, o meu mau julgamento ou a minha raiva, eu trabalhei para mudar”, lê-se na publicação do Instagram.
Ainda antes de Redzepi se ter demitido, o New York Times noticiou ainda a perda de patrocinadores do Noma nos EUA. A American Express e a empresa de hotelaria Blackbird suspenderam os contratos com o restaurante dinamarquês dias antes da abertura de uma pop-up de quatro meses em Los Angeles, prevista para esta quarta-feira.
Considerado o melhor restaurante do mundo cinco vezes, o dinamarquês Noma anunciou em 2023 os seus planos para fechar as portas como restaurante a tempo inteiro e abrir como um laboratório gastronómico de cozinha experimental, o Noma 3.0, continuando a realizar eventos pop-up por todo o mundo. Em Los Angeles, os preços rondavam os 1500 dólares por noite mas, mesmo assim, esgotou em cerca de três minutos, escreveu o The Guardian.