1Um dia viajei entre Istambul e Telavive, numa peregrinação à Terra Santa. No voo, dada a diversidade cultural da região, era possível identificar, por exemplo, judeus ortodoxos e muçulmanos não laicos. Mesmo não percebendo nada do que diziam, ou talvez por isso, entendi que, apesar da interação nada amistosa entre os grupos, cada um deles repetia o mesmo tipo de comportamentos. O que mais me chocou: recusarem-se a obedecer a uma hospedeira de bordo, pelo simples facto de ser mulher.
Este episódio sempre me fez duvidar de diagnósticos simplistas segundo os quais vivemos um choque de civilizações, consequência de um choque religioso. Embora separadas por religiões que, creio, elas entenderiam como visceralmente rivais, aquelas pessoas, lá no fundo, partilhavam a mesma cosmovisão. O problema central parecia ser mais a maneira através da qual elas liam, recebiam ou se relacionavam com a modernidade, o iluminismo e o mundo secular.
No entanto, há alguma verdade nisto. Em 2023, partilhamos nas redes sociais da Diocese de Viana do Castelo uma mensagem do Papa Francisco desejando bom ramadão aos irmãos muçulmanos. Prática que, aliás, Bento XVI e João Paulo II também levaram a cabo. Nunca recebemos tanto ódio e violência em mensagens e comentários. Em novembro passado, enquanto estava em Londres, percebi que pessoas de outras confissões religiosas não iam à WinterWonderland – lugar, aliás, totalmente despido de sinais cristãos – simplesmente por esta ser uma festa ocidental motivada pelo Natal.
É verdade que as religiões, por lidarem com uma noção de absoluto, podem ter um elevado grau de toxicidade. Nesse campo, concordo com parte do diagnóstico de Christopher Hitchens. Afinal de contas, nunca houve uma guerra motivada por razões ligadas à pichelaria, mas seria ridículo dizer que a religião, mesmo com todas as contextualizações possíveis, não foi usada como justificação de crimes e massacres. No entanto, tal como naquela viagem entre Istalmbul e Telavive, acredito que este não é um problema religioso, nem sequer fundamentalmente civilizacional. É outra coisa.
2 É um equívoco profundamente redutor definir Ali Khamenei como um líder religioso, e equiparar a sua morte ao assassinato de um Papa. Muito menos de um Papa no sentido contemporâneo, destituído de exércitos e de Estados Papais. A sua queda será, antes, a de um estratega supremo à frente de um aparelho de segurança implacável.
Para compreender esta realidade, é preciso recuar à génese do regime, que se ergueu, de facto, sobre uma singular interpretação marxista do Islão. Ali Shariati, o principal arquiteto ideológico da revolução do final dos anos 70, transformou o Islão xiita numa ideologia revolucionária de libertação, focada na luta contra a opressão económica e política. Rapidamente, Khomeini apropriou-se desta retórica, incitando a guerra entre mostazafin (os deserdados e oprimidos) e mostakberin (a elite corrupta e opressora, ligada ao Xá e ao Ocidente).
No entanto, à luz da complexidade histórica, esta apropriação ideológica foi apenas o motor de arranque. Uma vez consolidado o poder absoluto através da tutela dos juristas islâmicos, e após eliminarem de forma sangrenta os seus antigos aliados marxistas, o regime não se limitou a replicar a “ditadura do proletariado” à espera do advento do 12.º profeta. O que emergiu foi uma doutrina de Estado impulsionada não pela escatologia teológica, mas por um instinto de sobrevivência nacional e geopolítica.
O Irão não é, nem era, um estado teocrático no sentido estrito. É a inversão rigorosa disso mesmo: um proto-Estado-nação onde o sagrado é subjugado aos imperativos seculares da segurança. Khamenei nunca teve a erudição de um Grande Aiatola clássico; ele era, como define Vali Nasr no livro Iran’s Grand Strategy: A Political History, um “comandante-em-chefe de turbante”. A sua mundividência não é a de um peregrino devoto, mas a de um líder político e militar, forjada no trauma de invasões estrangeiras, na devastadora Guerra Irão-Iraque e na obsessão estratégica de repelir a hegemonia ocidental. Neste aspeto, o seu pragmatismo calculista e autoritário aproxima-se muito mais do materialismo de um Mao Tsé-Tung do que da transcendência de um líder espiritual.
O que os aiatolas construíram, e que Khamenei militarizou e cristalizou ao longo de décadas, não foi a Cidade de Deus. Foi um totalitarismo terreno que instrumentalizou o léxico religioso para blindar o seu poder absoluto contra o cerco externo e a dissidência interna. A fé, neste contexto, foi despojada da sua essência e reduzida a um manual tático de engenharia social e repressão política. A religião tornou-se, no fundo, apenas a farda institucional que a razão de Estado e o autoritarismo vestiram para garantir a sua perpetuação e não terem de prestar contas a ninguém.