(c) 2023 am|dev

(A) :: Onde andam as obras de arte que nos alimentam a alma?

Onde andam as obras de arte que nos alimentam a alma?

Se a minha sugestão vier a desiludir algum leitor/a, que nos escudemos os dois nas palavras de Rilke: “As obras de artes são de uma solidão infinita”. 

Leonor Gaião
text

Onde andam as obras de arte que nos alimentam a alma? Talvez o meu leitor/a também já tenha feito esta questão a si próprio/a, principalmente em momentos de maior desesperança e saudosismo em relação ao passado. É que o passado é sempre mais apetitoso aos sentidos, talvez por isso mesmo, por ter deixado de existir. Nada consegue competir com a memória que guardamos das coisas irrepetíveis. Mas se o leitor/a ainda tem uma réstia de esperança no presente, hoje posso falar de um desses momentos em que nem sentimos falta do que se fazia no passado, de um daqueles momentos despidos de expectativa, em que se entra numa sala de cinema ou se vira a primeira página de um livro, sem deles nada esperar e, de repente, damos por nós inebriados, e aquela história já é nossa, ou então fomos nós que nos deixámos tomar por ela.

Rainer Maria Rilke, nas suas Cartas a um Jovem Poeta, aconselha-nos a fugir da crítica: “Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que a linguagem crítica, na qual tudo se reduz sempre a alguns equívocos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser tão compreensíveis ou exprimíveis como geralmente nos querem fazer crer; (…) As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas.”

Quando uma obra de arte nos arrebata, esquecemo-nos dessa linguagem crítica porque, de alguma forma, o amor que ela nos transmitiu não é compatível com uma análise racional dos factos. Talvez só sejamos verdadeiramente capazes de criticar aquilo que não nos desperta sentimentos, ou, melhor dizendo, aquilo que não nos desperta os sentimentos que queremos sentir. Talvez a crítica tenha sido a forma socialmente aceitável que inventámos para castigar as obras que não nos fazem sentir nada, ou aquelas que atrevidamente nos arrancam sentimentos que gostávamos de manter adormecidos.

Na semana passada, tive a sorte de ver um filme que, a meu ver, só o amor pode captar. A tal ponto, que me fez esquecer de qualquer vestígio dessa necessidade tão humana que é criticar. O filme foi Blue Moon, o mais recente do realizador Richard Linklater e do ator Ethan Hawke, mentores da bela “Trilogia do Antes” (Antes do Amanhecer, Antes do Anoitecer, Antes da Meia-Noite). Blue Moon é a história da vida de Lorenz Hart condensada numa só noite vagamente ficcionada. Lorenz Hart foi o letrista de músicas imortais como My Funny Valentine, Where or When ou Blue Moon, mas também foi um homem que personificou o abandono e a solidão nas suas letras. Aos 48 anos, foi encontrado desmaiado ao pé de um bar, em Manhattan. Vítima do vício do álcool e de uma pneumonia, morreu poucos dias depois. Lorenz Hart está retratado com uma sensibilidade artística certeira, daquelas que nos ameaça com a imagem da nossa própria fragilidade humana. Ethan Hawke está extraordinário, real ao ponto de o sentirmos fora dos limites do ecrã, não tivesse a pessoa ao meu lado dito, e com muita razão, — “parece que estamos no teatro”. Parecia mesmo.

Ethan Hawke representa a vulnerabilidade de Lorenz Hart com uma empatia pelo expectador rara de encontrar. O guião é de chorar por mais, como um livro que estamos a ler e que se acaba. Maravilhosamente pensado e sonhado, chegamos a confundir-nos sobre se estamos a ler um livro, se estamos a ver um filme, se estamos a ouvir uma música. Acho que foi a primeira vez que me veio à ideia a possibilidade de que a arte que vem do coração é isso mesmo: qualquer coisa como não saber sequer o que estamos a ver, porque a riqueza de cada tipo de arte mistura-se com uma agilidade tal que não é necessário catalogar o que está de facto a acontecer. Sabemos que estamos a sentir.

Sem querer pecar pelo excesso que é falar sobre obras que só podem ser testemunhadas na individualidade, calo-me agora. E se a minha sugestão vier a desiludir algum leitor/a, que nos escudemos os dois nas palavras de Rainer Maria Rilke: “As obras de artes são de uma solidão infinita”.