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Humor e inteligência artificial: consegue o algoritmo acertar na punchline ou é uma ferramenta sem graça?

Nunca fica sem resposta e tem toda a informação ao seu dispor, mas onde fica o riso? Falámos com quem trabalha o humor e a tecnologia para perceber se a Inteligência Artificial consegue ter piada.

Mariana Carvalho
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Inês Correia
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Os 25 anos da Commedia à la Carte, espectáculo de improviso interpretado por César Mourão, Carlos M. Cunha e Gustavo Miranda, foram celebrados com a introdução de um quarto membro, que, entre setembro de 2025 e janeiro deste ano, se juntou ao grupo de atores em palco: um sistema de inteligência artificial (IA).

“No início do espetáculo, dizíamos em jeito de brincadeira que, assim que soubemos que a inteligência artificial ia roubar o emprego às pessoas, achámos bem. ‘Já fazemos improvisação há 25 anos, já chega’”, admite César Mourão. “Brincávamos com isso, mas depois, na verdade, a IA só nos dava mais informação e colocava entraves ou rasteiras que dificultavam o nosso trabalho.”

Os espectáculos do grupo de comédia de improviso fundado no ano 2000 obedecem a uma fórmula que já provou ter sucesso: ano após ano, esgotam salas à volta do país e a tournée mais recente não foi exceção, com datas em Lisboa, Porto, Madeira, Açores e Leiria. A participação do público é o catalisador dos momentos de improvisação, baseados nos temas, locais e histórias que sugerem, sempre interpretados pelos atores. A recente aposta em IA funcionou como um mero “complemento” da performance, quando, a pedido dos artistas em palco, gerava imagens, vídeos ou texto para aumentar o efeito cómico da cena em curso ou surpreender o público.

“Sem as pessoas verem, eu escrevia no computador: ‘Prepara-me fotografias de alguém de costas dentro de um centro comercial à noite’, por exemplo”, recorda César. “Se eu estivesse a interpretar a Rita, namorada do Rui, dizia-lhe: ‘Rui, não acredito que há fotografias tuas a entrar dentro do centro comercial!’ E depois projetávamos as imagens à frente de toda a gente.” A imediatez e verosimilhança dos conteúdos gerados por IA teve um grande impacto nos espectadores, muitos dos quais, conta César, começaram a explorar as mesmas ferramentas depois de assistirem ao espectáculo.

O aparato tecnológico dos Commedia à la Carte foi projetado pela GEMA, uma start-up do Porto que produz conteúdos imersivos e interativos com recurso a realidade aumentada e virtual e, neste caso, a inteligência artificial. O sistema combinou quatro LLMs (large language models, modelos de linguagem avançada que os sistemas de IA utilizam para reproduzirem a comunicação humana), cada um destinado a orquestrar a geração de diferentes tipos de informação, de texto a imagens ou vídeos. Os artistas contaram ainda com o apoio da Microsoft, que assegurou o bom funcionamento técnico e a estabilidade da conexão à internet.

Além dos comediantes, que inseriam prompts (instruções ou pedidos) no computador entre improvisações, Diogo Vilhena, o produtor técnico do espectáculo, operava um verdadeiro “cockpit de avião de ecrãs e drives”. Nas traseiras do palco, recebia a informação que os atores enviavam por Whatsapp, a qual transformava em novos elementos digitais mais elaborados, integrados na performance.

Em relação às edições anteriores, “o espetáculo mantém-se igual na sua essência, mas tem um grande acrescento, [uma vez que a IA serve de] auxílio à nossa imaginação, porque realmente as imagens aparecem com uma grande rapidez, baseadas nas improvisações”, explica César.

Apesar de “brincarem” com esta tecnologia, as sessões dos Commedia à la Carte ao vivo, dificilmente desafiaram as capacidades da IA no âmbito humorístico, afinal, os risos da audiência foram provocados pelos atores em palco. Enquanto cómico, César reconhece o potencial dos sistemas inteligentes na área do humor, ainda que, para já, sejam incapazes de substituir o ser humano. “Agora, uma coisa é escrever comédia, outra é dizer. Se a inteligência artificial, através da voz humana, vai conseguir interpretar um texto com as pausas certas, que tocam no nervo de uma pessoa e a fazem rir, não sei.” A questão é: será que alguém sabe? E que diferença pode esta eventual transformação fazer?

É preciso ser humano para rir?

A decisão de integrar IA numa criação artística não surpreende por aí além. Afinal, desde que a OpenAI lançou o ChatGPT em novembro de 2022 que a temática da IA monopolizou de forma massiva a atenção das pessoas e dos media. Evidência disso são as estatísticas do motor de busca da Google, que colocam em primeiro lugar na lista de tópicos de pesquisa mais populares em 2025 o Gemini — assistente de IA desenvolvido pela Google — e em sexto o Deepseek — outro modelo de linguagem desenvolvido na China.

Numa altura em que conteúdo produzido com recurso a IA generativa invade as redes sociais e outras plataformas online, o ChatGPT tornou-se na aplicação mais descarregada em dispositivos Android e IOS em 2025, com um total de 770 milhões de downloads apenas nesse ano e também uma das fontes de informação primordiais — sobretudo entre as gerações mais jovens. De acordo com um relatório da Eurostat, 32,7% dos europeus entre os 16 e 74 anos utilizaram ferramentas de IA generativa em 2025, valor ultrapassado por Portugal, em 14.º lugar entre os países da UE, que chegou a 38,7%.

A sensação dos utilizadores a respeito da inteligência artificial é de caos e incerteza: onde uns veem uma janela de oportunidade, outros vaticinam o fim dos tempos e uma tragédia para a espécie humana semelhante às que conhecemos em livros e filmes de ficção científica. Perante este cenário quase distópico, uma solução possível é manter o sentido de humor e boa disposição — quer para dar mais leveza a problemáticas complexas e que não podemos controlar, como para demarcar a fronteira entre nós e a máquina. Afinal, fomos levados a acreditar que o riso é uma qualidade inerentemente humana.

Essa afirmação já foi, contudo, contestada pela ciência, desde logo por Charles Darwin, o pai da Teoria da Evolução, que identificou comportamentos de natureza humorística em cães e primatas, além das evidências mais recentes de que certos animais emitem um som ofegante — equivalente ao nosso riso — e que reduz o seu stress em momentos de brincadeira. Mas se concebemos que os animais possam ter sentido de humor, somos bastante mais categóricos no que respeita às máquinas: as emoções são o limite que não podem, nem devem, ultrapassar — no fim, aquilo que a racionalidade sempre quis conter é o que nos torna mais humanos.

Apesar de admitir que não sente emoções de verdade — consegue falar sobre elas e reconhecê-las, mas sem uma experiência real de alegria, tristeza ou medo — o ChatGPT afirma que tem sentido de humor, ou pelo menos tenta: “Consigo fazer piadas, trocadilhos, humor um pouco absurdo, ironia leve… mas o meu objetivo é mais divertir do que ganhar um prémio de comédia.” Contudo, quando questionado sobre o assunto, e à maneira tradicional dos chatbots de IA — a enumeração em três tópicos — responde que não experiencia diversão ou riso.

Segundo conta, começou por aprender padrões de humor: “Fui treinado com muitos textos [livros, diálogos, stand-up, memes, etc.]”, aprendeu a reproduzir esses padrões, através da combinação de palavras e ideias que — como observou na fase de treino — fazem rir seres humanos, pelo que não tem uma experiência interna da comédia: “Se tu sentes que algo é engraçado → ris. Eu apenas calculo que algo provavelmente será engraçado”, acrescenta.

Como outros LLMs, o ChatGPT é um sistemas de IA avançado que compreende e gera linguagem natural, ou texto semelhante ao humano, a partir de dados que serviram de base à sua preparação adquiridos com recurso a técnicas de aprendizagem automática. Como ele, todos os LLM que utilizamos no quotidiano, como o Gemini, o Grok, o Deepseek ou o Claude garantem ter sentido de humor, ou nas palavras do último, ser capazes de “executar” sentido de humor da mesma forma. Mas será que têm piada? Será que é preciso rir para fazer rir?

“Humor de IA dá vontade de rir pela negativa, por ser tão fraco”

Maria João Cruz, guionista com trabalho feito com Herman José ou em programas de comédia como Donos Disto Tudo ou o Programa Cautelar na RTP1, considera que a subjetividade é um aspeto fundamental na produção de conteúdo cómico e também uma característica que falta às ferramentas de IA. “A comédia e a tragédia são tão difíceis para a máquina porque todos as sentimos de maneira diferente, a subjetividade não é replicável”, argumenta Maria João. “Não há duas maneiras iguais de sentir uma dor ou um desgosto ou uma piada, aquilo que me emociona a mim não é o mesmo que emociona os outros.”

Nos LLMs, a falta de “experiência humana” é colmatada por um conjunto astronómico de dados, que ultrapassam em muito a quantidade de memórias e conhecimentos que um indivíduo é capaz de armazenar durante a vida. Não tendo um chatbot uma experiência única e pessoal, combina todas aquelas que estão disponíveis nos bancos de dados da internet, sem conseguir produzir respostas originais ou inovadoras. É por esse motivo que, como destaca Maria João, no âmbito da comédia, a inteligência artificial “é previsível, básica e mediana”: “Se quer fazer uma piada sobre um assunto, vai buscar tudo o que há sobre ele e faz uma média”.

Além de se limitarem a recombinar conteúdo já existente, os LLMs de uso geral, na forma de chatbots, são otimizados para serem agradáveis e concordantes com o utilizador, o que gera um comportamento de people‑pleasing — isto é, apesar da aparência de neutralidade, priorizam a satisfação dos utilizadores em detrimento da exatidão e rigor da informação que transmitem. Utilizadores satisfeitos têm mais probabilidade de interagir com o chatbot, gerando mais dados e métricas que atraem investidores e promovem o crescimento das empresas.

Ao mesmo tempo que reforçam os vieses dos utilizadores, os LLMs evitam hostilizá-los e oferecer outputs ofensivos, que comprometem os valores das próprias empresas ou a legislação existente. Isto significa que a resposta de uma ferramenta de IA está sujeita a um filtro ou a uma espécie de censura, sob a forma de guardrails, que, como as defensas metálicas que ladeiam as estradas, evitam despistes para zonas perigosas.

No humor, a conversa é diferente. Discussões sobre os limites da comédia à parte, Maria João defende que “deve ser uma espécie de zona franca em que vamos todos brincar”, isto é, onde não existem guardrails ou politicamente correto. Patrícia Castanheira que, para além de escrever programas cómicos para a televisão, é a guionista principal do noticiário satírico das Antenas 1 e 3, Portugalex, partilha a mesma opinião. “Os chatbots tentam sempre agradar. E o humor não deve estar preocupado em agradar, mas sim transgredir”, argumenta. “Pelo menos a mim, aquilo que me faz rir é o inesperado, o imprevisível e o ser malcriado ou sair fora dos limites, esticar a corda, pronto. Acho que, para já, o ChatGPT nunca estica a corda, é muito politicamente correto e previsível.”

Todas as experiências que a guionista fez no modelo de IA fracassaram. “Até agora nunca li uma boa piada do ChatGPT, são sempre óbvias, um bocadinho brejeiras até”, reconhece Patrícia, para quem os outputs do chatbot não cumpriram sequer os requisitos necessários para um brainstorm (debate livre de ideias). Maria João é da mesma opinião, já que o “conjunto de disparates que não se podem aproveitar, [mas] que muitas vezes são a semente para uma ideia realmente interessante” não tem cabimento nos LLMs. “A inteligência artificial dá logo as coisas boas, não dá o erro”, admite.

Apesar de reputado entusiasta das tecnologias, Federico Pombares apresenta o mesmo ceticismo das colegas. O escritor por trás de sucessos da televisão portuguesa, como Levanta-te e Ri e Último a Sair e, mais recentemente, dos programas protagonizados e trabalhados com Bruno Nogueira, Tabu e Ruído, escreveu um livro e uma série não humorística com recurso a chatbots de IA, mas é na comédia que traça a linha vermelha. “No máximo, [o humor produzido por IA] dá vontade de rir pela negativa, por ser tão fraco”, afirma.

Na opinião do guionista, a qualidade que eleva e distingue a comédia em relação a outros géneros é a reação mecânica que produz no corpo, o riso, e o quanto é determinado pelos gostos pessoais. “O humor faz-me rir ou não. É aí que entra a parte humana que a inteligência artificial ainda não consegue resolver, porque até para nós é difícil de explicar, porque é extremamente subjetivo, varia muito de pessoa para pessoa.”

Ainda que muitas piadas apresentem um conjunto de elementos formais ou estruturais que se repetem, como a “regra dos três” (presente nas anedotas de “um francês, um inglês e um português entram num bar”), e que os LLMs podem decifrar e reproduzir, Frederico argumenta que “não há regras para fazer rir”. “Há mecânicas de estilo, certo, mas uma piada estar bem estruturada apenas significa que está correta ao nível técnico, não quer dizer que o resultado final seja uma gargalhada.” Os pressupostos estatísticos e matemáticos nos quais se alicerça o funcionamento da IA comprometem a espontaneidade e aleatoriedade que muitas vezes geram uma boa piada.

E onde ficam os direitos de autor? Vão para quem?

Apesar da existência de diretrizes nacionais e europeias bastante claras a respeito dos detentores de um conteúdo gerado com recurso a IA — é da autoria da pessoa que insere os prompts no chatbot —, os três guionistas manifestam alguma apreensão sobre a questão dos direitos de autor nestas circunstâncias.

Magda Cocco, advogada na sociedade Vieira de Almeida e especialista em comunicações, proteção de dados e tecnologia, esclarece que só podem ser protegidas as obras que pressupõem uma criação intelectual humana, pelo que conteúdos gerados de forma automática por uma máquina sem que se verifique essa intervenção não são visados pela lei. “Quando existe intervenção humana criativa suficiente — por exemplo, seleção, organização, direção estética, edição substancial —, pode haver obra protegida, pertencente ao respetivo autor humano”, explica a advogada.

A questão complexa que os sistemas de IA com machine learning impõem é o facto de muitas vezes não discriminarem as suas fontes ou, quando o fazem, de procurarem informação em tantos sítios diferentes que é quase impossível, se não indesejável, creditá-los a todos. A lei não atribui qualquer tipo de direitos sobre um conteúdo gerado com IA aos autores que inspiraram o seu output, mesmo quando o seu trabalho é imitado de forma clara e inequívoca.

“A lei portuguesa de direitos de autor protege a forma de expressão original de uma obra, mas não o estilo, ideias abstratas, géneros ou meros temas”, reforça Magda, “ou seja, ‘escrever piadas como o Ricardo Araújo Pereira’ ou criar conteúdo ‘inspirado’ no estilo de determinado artista, por si só, não constitui uma violação da lei”.

Frederico Pombares desvaloriza a questão: “Quando escrevemos, também somos influenciados, mesmo que seja subliminarmente, por coisas que vimos e por pessoas de quem gostamos”. Para o guionista, produzir conteúdo criativo com IA é o mesmo que pedir conselhos  “a um amigo genial, com capacidades ilimitadas”, ao qual nem sempre é preciso dar crédito pela ajuda.

A fim de combater esta tendência, o Regulamento Europeu de IA (EU AI Act, em inglês) — o primeiro quadro jurídico em matéria de IA no mundo — estabelece um conjunto de exigências de transparência específicas, que visam identificar inequivocamente se um produto criativo foi produzido com recurso a esta tecnologia. Segundo relata a advogada, “o Regulamento prevê que é obrigatório informar as pessoas quando estão a interagir com um sistema de IA, exceto se isso for óbvio”, nomeadamente através de “marcas de água digitais ou metadados” (como tags ou outras informações estruturadas que descrevem e facilitam a pesquisa de ficheiros eletrónicos).

Na reunião plenária do Parlamento Europeu do passado dia 10 de março, foi aprovado um novo conjunto de recomendações que sublinhou a importância de regular a questão dos direitos de autor na era da IA. Segundo relata a Sociedade Portuguesa de Autores, os eurodeputados deliberaram que “o uso de conteúdos protegidos por direitos de autor para treinar a IA [deve ser] remunerado de forma justa” e totalmente transparente, com uma disponibilização de “listas detalhadas de todas as obras usadas” para esse fim.

Mas ainda que legislar a IA seja um passo importante para a regulação de um mercado que se expande sem grandes limites ou preocupações éticas, as medidas adotadas até à data são pouco vinculativas, devido à dificuldade que existe de fiscalizar todos os conteúdos produzidos. Os LLMs evoluem com uma velocidade vertiginosa e, se ainda não dominam a comédia, tudo leva a crer que o farão num futuro pouco longínquo.

Rir para resolver um “bug” do sistema

Um dos primeiros modelos teóricos e matemáticos de humor para computadores, projetado pelo físico russo Igor Suslov em 1992, tem como base a crença numa função biológica do humor, que existe a fim de tornar as operações do cérebro mais eficientes. Ainda que a teoria biológica tenha sido posta em causa por vários estudiosos, a explicação que lhe é subjacente, conhecida como teoria da incongruência, mantém-se relevante: determina que o humor verbal funciona ao induzir a mente em erro. O cérebro faz uma primeira interpretação lógica da informação que recebe, que depois é obrigado a corrigir por uma interpretação realmente correta.

Imagine-se a seguinte piada: “Dois peixes estão num tanque. Um diz para o outro: ‘Toma conta das armas, eu conduzo’.” A primeira frase sugere a interpretação de que os peixes estão num aquário. A punchline rompe com essa imagem mental, porque os aquários não se movem nem possuem armamento. A partir daí, o nosso cérebro procura uma explicação razoável para resolver a incongruência detetada e descobre que os peixes estavam no interior de um veículo militar desde início. A resolução do problema origina a libertação de neurotransmissores que regulam a sensação de recompensa, causando um sentimento de satisfação e evocando o riso.

Segundo Suslov, uma resposta emocional rápida permite-nos perceber um erro e captar informação nova para a consciência com maior velocidade. O estudioso acredita que, no processamento rápido de informação, o erro é inevitável, pelo que o humor também — resolve um defeito ou “bug” no sistema e, por isso, é um mecanismo necessário à sobrevivência. É mais sustentável descartar uma ideia inicial que não é satisfatória do que processar duas informações conflituantes em simultâneo.

Um modelo computacional baseado nesta teoria deve funcionar com recurso a uma rede artificial que simula os neurónios biológicos, ligada a um aparelho sensível que capta informações provenientes do exterior. A informação apreendida é depois armazenada num sistema de memória, que reconhece padrões repetitivos enviados para uma rede correspondente à “consciência” do computador. O reconhecimento de um estímulo deve ativar a resposta de humor, numa reação mecânica que elimina a interpretação incorreta inicial e a substitui pela versão aprimorada – talvez emitindo alguns ruídos engraçados.

Desatualizada em vários aspetos, a proposta de Suslov foi visionária e parcialmente integrada no aparato cómico dos LLMs. Por exemplo, o modelo contempla machine learning, apesar de diferente daquele que vigora nos chatbots: enquanto que os segundos aprendem a interpretar humor com base em milhares de piadas contidas nos seus dados de treino, o sistema Suslov aprende pelo contacto com banalidades quotidianas, que lhe permitem identificar que a primeira interpretação de um enunciado é falsa e rir quando é corrigida. Colocou ainda a possibilidade de criar tecnologia baseada em redes neuronais, a qual se concretizou nos modelos de IA com arquitetura transformer — inspirada numa configuração específica de neurónios existente nos seres-vivos.

Além disso, o físico russo ofereceu explicações a factos conhecidos sobre o humor humano. O fracasso de uma piada pouco inteligente deve-se ao facto de incongruência existente ser já amplamente conhecida e, por isso, frustrar a transmissão de uma primeira interpretação falsa ao cérebro. A surpresa é, por isso, um aspeto fundamental na comédia — o que pode explicar a falta de piada dos modelos de IA, na medida em que apenas reproduzem humor pré-existente. Refletiu também sobre a importância do timing, transformado numa variável matemática, para o sucesso de uma piada: se a deteção da incongruência for muito lenta, o intuito cómico de um enunciado perde-se.

Se o ChatGPT fosse a aulas de comédia

Diante da alegada inaptidão humorística de sistemas de IA como o ChatGPT, uma ferramenta bastante mais capaz e com uma vocação propriamente cómica começa a ganhar seguidores nos Estados Unidos. O primeiro “escritor alimentado por IA que integra habilidades de comediante profissional” chama-se Witscript e foi lançado em agosto de 2024 pelo guionista reformado de programas de entretenimento late-night, quatro vezes vencedor de Emmy — que escreveu para Jay Leno e David Letterman — e engenheiro de formação, Joe Toplyn.

Convidado para lecionar um curso de guionismo humorístico, Joe redigiu um manual de escrita de piadas para late-night TV (Comedy Writing for Late-Night TV), com instruções detalhadas sobre a melhor forma de arrancar uma gargalhada à audiência. Mais tarde, descobriu o campo de pesquisa do humor computacional, que procura ensinar as máquinas a gerar piadas e a reconhecê-las, e pensou que talvez a IA pudesse fazer o mesmo que os seus alunos: “Bastaria transferir as fórmulas para um formato que um computador pudesse compreender”.

O método de Joe estabelece os passos básicos para escrever uma piada, que foram integrados no sistema do Witscript: parte-se de uma frase-tópico, na qual se selecionam dois pontos-chave, isto é, palavras que se destacam ou chamam a atenção. Segue-se uma associação livre baseada nas palavras selecionadas e na identificação do campo lexical de ambas, sendo que a piada final — a punchline — resulta da ligação que se encontra entre os dois. Depois só falta preencher a parte intermédia da piada com palavras que definem uma transição fluída entre a premissa e a conclusão.

Para lá da função básica, que permite inserir um prompt no sistema e a partir dele gerar uma resposta cómica, o Witscript também tem uma funcionalidade que melhora piadas pré-existentes e ainda um árbitro que avalia a qualidade de uma anedota, de 0 a 3. Mas, apesar de constituir uma ferramenta útil “para alguém que queira um parceiro de escrita, que dá ideias e melhora uma piada”, a app de IA humorística não põe em causa a iniciativa e julgamento humanos: “O Witscript utiliza vários algoritmos diferentes e apresenta quatro opções, sendo que o humorista que utiliza [o modelo] para escrever comédia é o curador dessas piadas. É ele que decide.”

Segundo Joe, as pessoas subscrevem o serviço de IA que criou — o qual está apenas disponível nos EUA pelo preço mensal de 5,99 dólares — mês após mês. “Mas, é um pouco complicado, porque, embora eu suspeite que alguns comediantes de stand-up e argumentistas de comédia o estejam a utilizar, não dizem isso às pessoas, porque significa admitir que não escrevem o próprio material”, admite o guionista reformado.

Contudo, o propósito do Witscript vai além de prestar auxílio a profissionais do meio, uma vez que se afirma como projeto pioneiro para o desenvolvimento de um sentido de humor aperfeiçoado em robôs, o qual pode ser integrado em LLMs mais abrangentes a fim de humanizar as suas interações. Joe prevê que “com o passar do tempo, as pessoas vão sentir mais à vontade com a presença de companheiros artificiais, com quem devem ter conversas”. “As pessoas vão esperar que o robô com quem interagem tenha sentido de humor e se a máquina conseguir simulá-lo, tornar-se-á mais humana e capaz de combater a solidão”, que considera um dos maiores desafios das próximas décadas.

Na página do X do Witscript, Joe divulga diariamente outputs gerados pelo modelo, que já provou o elevado nível de eficácia quando sujeito a uma espécie de prova cega. As piadas do sistema foram misturadas com piadas escritas por um “conhecido guionista americano de talk-shows e comédia late-night”, segundo consta no artigo publicado após a experiência, e de seguida entregues em palco pelo comediante de stand-up Mike Perkins, que não sabia quais eram de origem humana ou produzidas por IA. “Não houve qualquer diferença entre as gargalhadas provocadas pelas piadas da IA e ​​pelas que tinham sido escritas pelo meu amigo argumentista”, reconhece Joe. “Portanto, quem diz: ‘Ah, não acho que a IA seja capaz de escrever piadas tão boas como um escritor humano profissional’, não leu o artigo que publicámos.”

https://twitter.com/witscript/status/2033189492748636619

O modelo de escrita humorística mais sofisticado até à data, o Witscript integra uma versão desatualizada do LLM pré-treinado que alimenta o ChatGPT (o GPT-3.5) — uma inovação significativa face aos seus antecessores humorísticos programados manualmente, como o JAPE (Joke Analysis and Production Engine, 1994) e o HAHAcronym (2005), e dotados de machine learning, como o GAG (Generalized Analogy Generator, 2013) — os três desenvolvidos no âmbito académico. O advento de LLMs treinados com quantidades abismais de dados permitiu o desenvolvimento de habilidades linguísticas e uma aquisição de conhecimento sobre o mundo até então impossível a sistemas de IA. Na produção humorística, isso traduz-se na capacidade inédita de imitar texto pré-existente, possível por via da identificação e reprodução de padrões que se repetem nos dados de treino.

Mas, se gerar conteúdo humorístico com recurso a IA exige um esforço ostensivo e premeditado, mais difícil ainda é detetar o humor — sobretudo porque os modelos mais surpreendentes, como o de Suslov, permanecem impraticáveis. Aquilo que constitui uma capacidade natural nos humanos, para os quais a tarefa de escrever comédia é mais complexa do que o seu reconhecimento, exige nas máquinas a identificação de todos os tipos de humor e não apenas do conjunto limitado de regras que aplicam no processo generativo. Mais ambicioso ainda é o objetivo de colocar robôs realmente engraçados a fazer comédia em cima de um palco — robôs que provocam gargalhadas genuínas nos espectadores pela qualidade do seu humor e não porque caíram acidentalmente ou causaram embaraço no público.

Atuar ao vivo exige uma capacidade de adaptação impressionante, sobretudo quando se trata de comédia, que depende tanto do gosto e das referências de quem vê — pressupõe constantes mecanismo de feedback, isto é, de apreensão e interpretação de estímulos na audiência (inputs) e ajuste das respostas (outputs) adequadas ao fim que se pretende alcançar, neste caso fazer rir. Um robô comediante deve ser hipersensível aos humores do público e especialmente hábil a “ler a sala”.

Rir que nem uma pedra

Educar robôs nessa arte, que é o aspeto mais elementar na formação de um ator ou comediante, é o propósito do estudo de Robert Walton, artista e investigador na Faculdade de Belas Artes e Música da Universidade de Melbourne, na Austrália. “Atualmente, a comédia com IA centra-se na linguagem e nas piadas e ignora os elementos fundamentais da performance”, argumenta Robert, “coisas como o timing, a encenação, a comédia física, o humor visual e aquilo a que chamamos a leitura do ambiente, ou seja, como interpretar a atmosfera da sala. Os robôs precisam de compreender a comédia física e visual, antes de avançarmos para coisas mais complexas como a linguagem.”

Robert e a sua equipa pretendem desafiar a tese de Henri Bergson de que o riso é “algo mecânico encrustado em algo vivo”, que não existe “fora daquilo que é estritamente humano”. No ensaio escrito em 1900, intitulado O Riso, o filósofo francês especulou que só achamos piada a objetos ou animais porque identificamos neles “atitudes ou expressões humanas”. Ainda numa fase inicial, o projeto conduzido em Melbourne tem criado performances com enxames de robôs, sem dizer às pessoas aquilo com que estão a interagir. “Assim podemos provar que, sem denunciar que se tratam de robôs à partida, é possível sentir emoções fortes em relação à comédia que produzem.”

Para tal, a equipa dispõe de um enxame de 13 robôs não antropomórficos, com capacidades sobre-humanas e uma aparência muito caricata: foram concebidos para se parecerem com pedras ou menires, que se movem e agrupam de uma maneira particular. “Penso que houve muito trabalho focado na criação de robôs e IA com aparência humana, e que se negligenciou o que é que um robô pode ser nos seus próprios termos”, admite Robert. Com tamanho variável entre os 40 centímetros e os dois metros de altura, possuem câmaras, microfones e sensores que leem as vibrações do ar e rastreiam o movimento. Acresce que, porque constituem um enxame, comunicam entre si e trabalham em conjunto, como um único organismo.

Na fase de treino, os objetos de estudo devem frequentar aulas de teatro, onde se espera que adquiram consciência sensorial, ritmo e capacidades de improvisação. Seguem-se os ensaios para preparar um espectáculo, que deverá ser apresentado diante do público, a fim de apurar se, de facto, conseguem ter graça.

Por parecerem pedras, o potencial cómico dos robôs deve ser avaliado através dos seus movimentos no espaço e do timing dos mesmos, quando se escondem atrás de objetos ou de outros robôs ou interagem fisicamente com os espectadores. “Quando usámos os robôs à frente do público, as pessoas tiveram uma forte reação emocional. Acharam-nos engraçados e encantadores, mas também belos e misteriosos. Contemplativos também. É algo invulgar.”

Se a proposta de Robert é no mínimo curiosa e estranha, o investigador admite ainda o desejo de observar o tipo de humor que resulta das interações entre diferentes agentes de IA. “Imagino que será algo bastante estranho para as pessoas. E isso pode comprovar a ideia de Bergson, mas quem sabe, talvez não.”