A Área Metropolitana de Lisboa, responsável por mais de um terço da riqueza produzida no país, continua a ser um território onde todos reconhecem os problemas, mas poucos assumem a coragem de os enfrentar. Falta planeamento, faltam decisões, falta capacidade de execução. E, durante demasiado tempo, faltou também responsabilidade política. Hoje, com várias autarquias e o Governo politicamente alinhados, o argumento da impossibilidade desapareceu. Agora resta fazer e fazer bem.
A mobilidade é talvez o exemplo mais óbvio da distância entre o que se promete e o que se concretiza. Mais de 60% das deslocações continuam dependentes do automóvel, apesar de existir um sistema ferroviário suburbano que, numa região com ambição metropolitana, deveria ser o verdadeiro motor das deslocações quotidianas. Mas como exigir confiança num sistema onde o material circulante envelheceu e onde várias intervenções anunciadas, sobretudo em concelhos governados pelo PS, ficaram sempre à espera da tal “janela política” que nunca aparece…Não será coincidência que, em tantos desses municípios, as obras estruturantes passem décadas à espera enquanto se multiplicam promessas rápidas em períodos eleitorais?
Nos concelhos liderados pelo PSD, a conversa tem sido outra. É um facto. Não por terem recursos infinitos, longe disso, mas porque não tiveram o luxo de esperar que o Estado central resolvesse. Foram obrigados a reorganizar redes locais, criar corredores urbanos, negociar intermodalidade, ser exigentes com o Governo e demonstrar que a mobilidade metropolitana não se resolve com remendos, algo que outros preferiram aceitar em silêncio.
A gestão de resíduos revela uma divisão semelhante. A AML produz vários milhões de toneladas anuais e opera num sistema que, há muito, ultrapassou a capacidade, estimando-se que até 2030 sejam necessários mais de 900 milhões de euros de investimento na gestão de resíduos. Há municípios onde a deposição ilegal se tornou quase parte da paisagem urbana e é curioso verificar como muitos desses territórios são historicamente património da esquerda pseudo-progressista, como Loures ou Vila Franca de Xira, onde a estratégia parece ter sido sempre a mesma: esperar que o problema se resolva por exaustão. Já noutros concelhos, como Mafra, Oeiras ou Cascais, houve investimento em soluções inovadoras, fiscalização reforçada e critérios de gestão mais rigorosos. Não porque fosse fácil, mas porque não havia alternativa.
Na habitação, o padrão repete-se. Lisboa e a sua primeira coroa metropolitana perderam mais de 100 mil residentes em dez anos. A expulsão da classe média foi fatal. No entanto, os municípios que mais apostaram na criação de instrumentos de habitação acessível, programas de reabilitação e políticas eficazes neste domínio não foram aqueles que mais falaram sobre “cidades inclusivas”. mas sim, em grande parte, aqueles que decidiram agir em vez de apenas anunciar. Aqui também, a diferença entre PS e PSD é nítida: uns optaram pelo conforto das medidas mediáticas outros pelo desafio das políticas duradouras.
É neste contexto que o alinhamento com o Governo se torna decisivo. Pela primeira vez em muitos anos, existe a possibilidade real de coordenar políticas metropolitanas sem bloqueios partidários, uma vantagem que se transforma imediatamente em responsabilidade pois não podemos culpar “Lisboa” por aquilo que não se faz. Se falharmos, a falha será exclusivamente nossa.
A AML precisa de estratégia, estabilidade, visão técnica, coragem política e sobretudo de uma liderança que não confunda governação com propaganda, nem proximidade partidária com complacência.
A diferença entre concelhos governados pelo PSD e aqueles administrados pelo PS é visível quando se compara discurso e realidade. Uns avançam, outros esperam. Uns planificam, outros justificam. Uns assumem riscos, com programas concretos, outros preferem anunciar promessas genéricas de forma cíclica. Lisboa, a Grande Lisboa, não tem tempo para ciclos de propaganda.
Para isto, a AML precisa de um pacto metropolitano para os próximos 15 anos: um compromisso sério com metas, calendários e responsabilização pública. A região não pode continuar a funcionar ao ritmo de emergências. Precisa de planeamento na mobilidade, nos resíduos, na habitação, no urbanismo. Precisa de ambição técnica e coragem política. Precisa de um PSD exigente, reformista e alinhado com o interesse metropolitano, não com o conforto partidário.
O País não cresce sem uma metrópole competitiva. E Lisboa não será verdadeiramente competitiva enquanto funcionar numa lógica de improviso. Não se trata apenas de governar melhor, mas sim de garantir que a Área Metropolitana de Lisboa deixa de ser um território reativo e passa a ser um território que planeia e lidera. Esse é o compromisso que devemos assumir perante o país e esse é o desafio que estamos preparados para enfrentar. Sem medos, de olhos postos no futuro, e sem pedir licença a ninguém.