Ascenso Simões avisa que se José Luís Carneiro “continuar nesta vidinha de pedir licença para existir, o PS não terá grande futuro”. Em entrevista à Vichyssoise, o antigo governante do PS considera “estranha” a forma como o secretário-geral do PS convocou o órgão máximo do partido e que ao “fazer um Congresso que é um congressozinho demonstra medo.”
O ex-dirigente do PS elogia o novo chefe de Estado, que “não tem uma única dívida com o PS“, até porque houve “muita gente do PS com elevadas responsabilidades a fazer tudo para que o António José Seguro não fosse eleito”.
Ascenso Simões avisa que o PS “não tem nenhuma condição de ir para eleições nos próximos anos” e que, por isso, o PS deve ser um “partido responsável” e viabilizar o Orçamento do Estado. Destaca que “os portugueses não querem saber nada dessas coisas das vitórias e das derrotas temporárias, do dia a dia” para nada e que isso só interessa à “rapaziada do Palácio de São Bento.”
[Ouça a primeira parte da Vichyssoise:]
https://observador.pt/programas/vichyssoise/o-presidente-sopa-de-peixe-e-as-espinhosas-reformas-de-boca/
[Ouça a segunda parte da Vichyssoise:]
https://observador.pt/programas/vichyssoise/carneiro-deve-largar-vidinha-de-pedir-licenca-para-existir/

“Este António José Seguro não é o Tó Zé que nós conhecíamos”
O novo Presidente da República, António José Seguro, por ser um ex-líder do Partido Socialista, pode significar um balão de oxigénio para o próprio PS?
Não me parece. O António José Seguro que conhecemos enquanto candidato a Presidente da República e agora como Presidente da República, é uma pessoa muito diferente daquela que nós conhecíamos em 2014 quando abandonou as funções de secretário-geral do PS. Estes dez anos trouxeram a António José Seguro robustez na leitura do país, a perda de alguma ingenuidade que ainda tinha na assunção das coisas políticas e partidárias, uma leitura profunda sob o ponto de vista da política internacional, uma sustentação daquilo que são as políticas centrais do nosso país e especialmente as políticas que dizem respeito à juventude, ao desenvolvimento económico, à afirmação da sociedade e ainda às três grandes áreas que são a educação para todos, a saúde universal e a segurança social pública. Portanto, este António José Seguro não é o Tó Zé que nós conhecíamos na JS, não é o António Seguro que nós conhecíamos enquanto líder do PS.
Nem o Tó Zero, como era chamado maldosamente por alguns companheiros…
Bem, se lhe dissesse o que é que chamavam ao Sócrates quando ele era da JS ou o que chamavam ao António Costa quando ele era da JS, teríamos aqui muito pano para mangas. Felizmente ou infelizmente eu conheço a história da JS desde 1978 e também conheço a história do Partido Socialista desde 1981, por dentro, não por fora. Teria muito a dizer relativamente a cada um deles.
Mas essa evolução como político de António José Seguro, que se depreende das suas palavras, é sobre causas governativas e não do Presidente.
Não, porque não são só causas governativas. Elas estruturam o nosso Estado Social. E nós vivemos num tempo em que o ataque ao Estado Social é uma coisa muito relevante e tem muitos militantes na ação política. Aliás, a candidatura de Cotrim Figueiredo foi uma candidatura contra o Estado Social, mesmo que seja um lobo com pele de cordeiro. E, portanto, quando nós assistimos na União Europeia a um ataque à segurança social pública, como há muito tempo não víamos – temos que regressar a 2007 para encontrarmos a defesa tão acirrada da privatização da segurança social, para encontrarmos um foco tão grande, ainda por cima de uma comissária portuguesa, na privatização da segurança social. Ora, o que nós temos para fazer na segurança social a nível europeu é pôr os dados, coisa que nós fabricamos todos os dias e sobre a qual não recebemos nem um cêntimo, a pagarem as nossas pensões dentro de duas ou três décadas. Não é voltarmos à velha fórmula de termos as pensões na dependência de uns gurus quaisquer que depois, e de um momento para o outro, tudo se esfuma com os fundos a afundarem nas bolsas. Nós temos que ter alguém na Presidência da República que perceba bem os fundamentos do Estado Social e esse candidato era o António José Seguro e agora é o Presidente da República.
“Se José Luís Carneiro continuar nesta vidinha de pedir licença para existir, o PS não terá grande futuro”
Para não ir para uma deriva com liberais, caso cresçam e dê para ter uma maioria, ou até do Chega, que tem, nesse aspeto, um plano político muito mais indefinido, António José Seguro pode ajudar a colocar o PS como um parceiro privilegiado do PSD, como a ambiciona José Luís Carneiro?
O PS não tem que contar com o Presidente da República para nada nem o Presidente da República tem que fazer nada tendo em conta os interesses do PS. São dois campos bem diferentes e, aliás, na decorrência da candidatura que nós tivemos muita gente do PS com elevadas responsabilidades a fazer tudo para que o António José Seguro não fosse eleito. O Presidente da República atual não tem uma única dívida para com o PS, tem para com os socialistas.
Quer dizer alguns nomes?
Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Ferro Rodrigues, todas essas figuras são conhecidas, portanto, não estou a dizer nada que não tenha acontecido. Aliás, afirmaram um problema que nós hoje temos na vida política que é o do elitismo na ação política e também na vida diária, que faz deslocar um conjunto vastíssimo de pessoas da realidade. E é também isso que está a fazer com que o PS não tenha agregação a uma parte significativa do eleitorado. O eleitorado já não está para aturar determinadas figuras que ao longo dos últimos 30 anos estiveram no poder e agora se assumem como os donos da democracia. Isso acabou, é preciso que o PS perceba que essas pessoas ficaram na história. Não são um contributo positivo para uma transformação que o Partido Socialista tem que fazer para voltar a ser poder, ou pelo menos para tentar voltar a ser alternativa. Se a José Luís Carneiro continuar nesta vidinha, que é de pedir licença para existir, então o Partido Socialista não terá grande futuro. Ou ele, como líder do Partido Socialista, não terá grande futuro. E eu espero que o eleitorado perceba que a transformação enorme de que o PS precisa, não pode ser com esta atitude de menorização da figura do secretário-geral, de uma permanente dependência, sob o ponto de vista do pensamento e da ação, de pessoas que são o passado do Partido Socialista e que não representam rigorosamente nada na sociedade atual e na sociedade que pulsa e que é relevante hoje em Portugal.
Tem sido muito vocal há muitos anos e agora também sobre atual liderança do PS, sobre líderes que são rodeados “de dirigentes frágeis”. Quem é que devia lá estar e não está?
Os líderes fazem-se. Não sou partidário de que os líderes nascem já com aura de liderança. Não, os líderes fazem-se. Em primeiro lugar, qual é a condição central para um líder se fazer? A condição central é rodear-se daqueles que não lhe dizem amém. É claro que aqueles que dizem amém, são aqueles que enchem as salas para bater palmas. Fazem parte do cenário, são muito importantes para determinado momento, quando há fragilidade do líder, quando o líder se sente muito acossado. Mas aquilo que importa a um líder, é que ele se rodeie das pessoas que não lhe dizem amém e, principalmente, das pessoas que têm uma leitura de país. O que falta hoje no Partido Socialista, é pessoas que tenham uma leitura de país.
Quando esteve aqui na última vez na Vichyssoise fez uma crítica a Pedro Nuno Santos, logo depois de ele sair da liderança, por não ouvir nomes como Sérgio de Sousa Pinto, Francisco Assis ou Ana Catarina Mendes.Ora, estes três, por exemplo, fazem parte da direção de José Luís Carneiro.
Pois, mas o problema é que fazer parte da direção, não quer dizer que sejam ouvidos. Eu não faço parte da direção, portanto, aquilo que me parece, por aquilo que sei do PS, por aquilo que são as posições do secretário-geral do partido e das iniciativas do PS, não há um dedo sequer de Sérgio de Sousa Pinto ou de Francisco Assis. Não vejo. E portanto, alguma coisa estará mal, não é?
São essas figuras que fazem falta ter uma voz mais presente, junto do líder do PS?
São essas e outras novas. Ou seja, o que faz falta ao PS é que haja pessoas que estejam nas universidades, que estejam nas empresas, que estejam nos serviços públicos, que tenham uma visão do país, ou pelo menos de uma parte do país, e que não dependam da política. Mesmo estando na política, que não dependam dela. Que sejam independentes, que estejam aqui, mas que a sua voz não esteja dependente do lugar. E isso é o que faz falta.
Porquê que não quis fazer parte da equipa de José Luís Carneiro? Não podia ajudar neste processo de recuperação do Partido Socialista?
Não, eu não podia fazer parte da equipa de José Luís Carneiro, como sabe, eu saí dos órgãos nacionais em 2024, quando entrou Pedro Nuno Santos. Porque entendi que ao fim de 40 anos fazia sentido não estar nos órgãos nacionais do PS. Porque se indico a pessoas que estão há muitos anos nos cargos dirigentes, eu também tenho que ter o mesmo critério. Não posso dizer aos outros que estão aqui há muito tempo e que têm uma visão desfocada do país, e depois, ao mesmo tempo, achar que sou essencial nessa nova luta. Nós temos que ter um espelho em casa e poder dizer “olha, também estás aqui há muito tempo, portanto aquilo que é a receita que estás a dar aos outros também tens que aplicar a ti”. E foi isso que eu fiz.
“José Luís Carneiro ainda não começou a contar como líder”
Acho assim, mas defendeu uma escolha sem pressas depois da demissão de Pedro Nuno Santos. Ainda assim a escolha foi feita de forma rápida. José Luís Carneiro tem resultado como líder?
José Luís Carneiro ainda não começou a contar como líder. Os dias como líder do José Luís Carneiro ainda não começaram a contar. Foi eleito numa situação de urgência, depois vieram as eleições autárquicas, depois vieram as eleições presidenciais, e portanto, só agora com o Congresso…
Mas em eleições também se vê como é que um líder se comporta, não é?
O José Luís Carneiro tem uma enorme vantagem quando confrontado com outros putativos líderes. É que o José Luís Carneiro passa o dia a trabalhar. É incansável, atende toda a gente, vai a todo lado. E isso é uma enorme vantagem para um líder do Partido Socialista. É a primeira grande vantagem. Só houve no Partido Socialista três líderes com esta disponibilidade para o partido: Mário Soares, António Guterres e José Luís Carneiro.
António José Seguro era mais cigarra?
António José Seguro fez isso na JS, mas já não fez isso no PS. Ele foi tão acossado durante aqueles anos da troika que não teve sequer tempo para ir fazer no PS aquilo que fez na JS.
Mas então ainda está à espera que José Luís Carneiro dê provas como líder?
Ainda estou à espera que José Luís Carneiro faça duas coisas essenciais. Em primeiro lugar, que tenha uma equipa e que tenha um programa. E em segundo lugar, que deixe de ser uma espécie de segunda linha. Ou seja, um líder nunca se pode afirmar tendo um comportamento de segunda linha.
O que é um comportamento de segunda linha neste caso?
O comportamento de segunda linha é estar sempre nos consensos. Um líder não se afirma nos consensos. A forma como ele convocou agora o Congresso é uma forma estranha. Depois na Comissão Nacional, quando ele levou o regulamento do Congresso e a redução do número de delegados, em que mais de um terço dos concelhos não têm delegados e o outro terço tem um delegado. Fazer um Congresso que é um congressozinho demonstra medo. Um líder tem que ser líder com confronto, ninguém é líder sem confronto. Ninguém. No Partido Socialista, nenhum líder que se tenha afirmado, foi líder sem confronto. Portanto, o João Luís Carneiro tem que fazer o confronto. Ou faz agora, ou então pode nunca surgir.
Tem de comprar guerras mesmo no partido?
Tem de comprar guerras, porque a gente tem de saber o que é que ele pensa. Os portugueses têm de saber o que os dirigentes pensam. Ou seja, não é através da moção, que ainda por cima é uma moção requentada. Tem, apesar de tudo, duas vantagens: abre com o tema da corrupção interna e fecha com a corrupção no país. Isso já é um sinal positivo. Porque o tema da corrupção é um dos temas que está agarrado à cara do Partido Socialista e que danificou muita a sua imagem. E alguém que quer tratar, ou pelo menos tenta identificar um caminho para se atalhar a este fenómeno, já faz alguma coisinha. Mas não chega. Para se afirmar, José Luís Carneiro não conseguee através de uma espécie de transformação do Largo do Rato numa secçãozinha. O Rato não é uma secção. O Rato é São Bento, residência oficial do primeiro-ministro alternativa. Portanto, o Rato é o centro do Governo alternativo.
Também disse que José Luís Carneiro foi apressado a lançar o Congresso na noite das presidenciais, à boleia do Resultado do Seguro. Acha que Carneiro vive com receio de ver alguém tomar-lhe a liderança? E isso justifica-se?
Os sinais dizem isso. Mas às vezes temos que ter cuidados. Como dizia Jorge Coelho “podes não estar a ver bem o filme”. Ou seja, pode não estar a ver bem o filme, apesar dos sinais estarem lá todos. Eu não faço parte dos órgãos, não vou às reuniões dos órgãos, assisto, como os restantes portugueses, ao que se vai passando, tenho uma análise crítica do que o PS está a fazer, conheço a história do partido por dentro e ao dia, desde 1980. Portanto, vou olhando e vou dizendo: é líder de direito do Partido Socialista, mas de facto ainda não é, porque efetivamente, um líder só se afirma com um confronto. Precisa ter um confronto. As pessoas lá fora precisam de saber que no Partido Socialista, o líder não é cooptado, não resulta de uma passagem administrativa. Tem de ir a jogo e estar em confronto, permanente, com ideias e com pessoas. E isso não está a acontecer.
Por isso, não tem um passe direto para as próximas legislativas? Ou José Luís Carneiro tem o direito de ser o candidato do PS nas próximas legislativas, independentemente de quando elas acontecerem?
Bem, todos os líderes são candidatos às legislativas seguintes…
Mas não é um direito adquirido.
Nunca. Nos partidos democráticos, isso não existe. Ferro Rodrigues, em 2004, tinha o caminho aberto para ser candidato às legislativas. Aconteceu o que aconteceu e ele demitiu-se. Portanto, não foi às legislativas seguintes e a coisa acabou. Quem está no lugar é sempre candidato, mas o problema não está aí. O problema é que podemos ser candidatos para não termos resultados nenhuns. Ou para aprofundarmos a nossa desgraça. Ou para transformarmos o Partido Socialista não na terceira força, mas ainda numa coisa residual. Porque ninguém antecipava que o PS fosse terceira força parlamentar como é hoje. Nunca. O Partido Socialista vive um problema existencial.
Se José Luís Carneiro não mudar, o PS pode ser o novo PASOK?
Não. Não é possível porque o Partido Socialista nunca foi um partido como o PASOK. O PASOK sempre foi um partido socialista diferente do Partido Socialista português, porque Mário Soares não quis que fosse um partido marcadamente ideológico. Mário Soares construiu um partido muito português onde cabiam desde socialistas autogestionários até sociais liberais. Quem entender o que é o Partido Socialista, ou seja, o Partido Socialista de Mário Soares e que depois teve muitas levas de poder tendo sempre toda esta gente dentro, sabe que o PS, se continuar a ter esta gente toda, terá sempre um papel muito relevante na sociedade. Agora, o que aconteceu com a geringonça foi que o Partido Socialista perdeu uma parte desta gente. Deixou de ser relevante para uma parte dos sociais-democratas e para uma parte dos sociais liberais. E isso é que é preciso recuperar. Quem não entender isto não entende nada. E questões que lhe dizem respeito, por exemplo, à carga tributária, ou questões da imigração, da forma como nós a tratamos, ou questões que dizem respeito à liberdade da pessoa humana, à forma como nós encontramos na escola pública uma certa visão ideológica de repulsa e de limitação e, ao mesmo tempo, de repúdio pela diversidade. A forma como nós introduzimos na escola uma espécie de linha ideológica que temos todos que seguir criou graves problemas ao Partido Socialista. As agendas minoritárias criaram grandes problemas ao PS e isso levou a que muita gente votava sistematicamente no partido deixasse de votar. E alguns deles nunca mais votarão.
“O Partido Socialista não tem nenhuma condição de ir para eleições nos próximos anos”
Há pouco falámos do novo Presidente da República. O novo Presidente da República retirou o peso da dissolução de um chumbo do Orçamento de Estado e isso muda alguma coisa para um partido como o Partido Socialista? Tem mais hipóteses agora de votar contra o Orçamento de Estado ou mais margem para isso?
O Partido Socialista só tem que saber aproveitar essa circunstância para ter uma atitude adulta. Já todos sabíamos que ia permitir que os Orçamentos de Estado passassem até 2028, porque as circunstâncias obrigariam sob o ponto de vista tático, a que o fizesse. O Partido Socialista não tem nenhuma condição de ir para eleições nos próximos três anos. Esta posição do Presidente da República tem a vantagem de dizer ao Partido Socialista “façam lá os negócios que entenderem, arranjem as razões que quiserem, as justificações para dar aos portugueses, mas não se metam nessas coisas de provocar eleições, porque nós precisamos que esta legislatura vá até o fim”. E, portanto, o Partido Socialista tem aqui uma responsabilidade que é encontrar as justificações, as razões e as negociações necessárias para aprovar ou para permitir que os Orçamentos passem até ao final da legislatura.
É cedo para um Presidente da República avaliar um governo? Ainda antes da primeira reunião com o primeiro-ministro, António José Seguro disse que é preciso “menos palavras e mais atos”. É prematuro estar já a azedar a relação?
António José Seguro só concluiu aquilo que os governantes têm vindo a dizer. Os membros do governo que foram às Jornadas Parlamentares do PSD, todos eles disseram que é preciso fazer reformas. E aquilo que os portugueses esperam é que o governo governe. Nós temos este governo, há dois anos, a marcar passo. Nem nas coisas pequenas há decisões. Isto é que é o problema. É por isso que eu digo muitas vezes que o governo é genericamente incompetente. O primeiro-ministro foi conhecer a atividade governativa já na função de primeiro-ministro, ele nunca tinha estado num gabinete, nunca tinha sido secretário de Estado, nunca tinha sido ministro. E isso é um problema para o primeiro-ministro, porque ele não conhece as articulações necessárias para harmonizar as políticas transversais. E, depois, o Governo tem muito pouca massa crítica. Quando nós estamos a falar das questões agrícolas, também estamos a falar das questões de saúde. E ao mesmo tempo, porque estamos a falar das questões agrícolas, das questões de saúde, designadamente, das questões que digam respeito aos açúcares, que lhe digam respeito aos refrigerantes, ou como transportamos os animais, ou como relacionamos a proteção animal com a saúde humana, tudo isso são interconexões entre Ministérios. O que este Governo nos diz é que cada ministro trata dos seus Ministérios sem uma visão de conjunto. Governar não é ser chefe de secretaria de cada Ministério. Governar é ter uma perspetiva das políticas transversais que levam à integração das políticas sectoriais num determinado desígnio .
Se o seu cenário atual é este de que fala de “um Governo incompetente” e se o PS também, como diz, não tem condições para ser poder tão cedo, então não há alternativa?
Nós temos uma situação de inexistência de alternativa. O problema do país é que nós estamos com um governo mau, com uma política má, com uma alternativa democrática má. E isso é dramático. Porque se nós tivéssemos condições de estruturar uma política democrática melhor, se tivéssemos condições de ter o Partido Socialista com novos quadros e novos protagonistas, é claro que o Governo também se sentiria na necessidade de ir mais rápido e ir buscar outras pessoas para ocupar determinados ministérios que estão a falhar.
Mas não estamos a considerar outro elemento na equação, que é o Chega, que tem vindo sempre a crescer em eleições.
Quando eu falo nesse partido ou no seu líder, nunca dizendo os seus respetivos nomes para que os algoritmos não multipliquem a mensagem, aquilo que eu digo é que nós temos que estruturar, temos que purificar a democracia para que essas excrescências não progridam. Ora, neste momento nós não estamos a fazer nada para contrariar esse caminho.
Mas, no contexto atual, o PS está condenado a ter de segurar este governo, sob pena de voltar a cair em eleições antecipadas e correrem novamente mal?
O Partido Socialista é um partido responsável. E, portanto, como fez o PSD no governo do primeiro governo de Guterres, os partidos centrais do sistema devem avaliar se o país está em condições de andar sistematicamente em eleições. E aquilo que eu acho é que os dirigentes do Partido Socialista, os seus militantes, os seus presidentes de câmara, acham que o Partido Socialista não está em condições de não viabilizar os orçamentos. Sabe uma coisa? Essa história de que viabilizar o orçamento é uma derrota para um partido, é só uma coisa da cabeça dos deputados e daqueles que andam à volta do líder. Porque o que os portugueses querem e esperam é que os partidos estejam à altura das circunstâncias. Não querem saber nada dessas coisas das vitórias e das derrotas temporárias, do dia a dia, que passado pouco tempo já ninguém se lembra. Isto são coisas para a bolha, para a rapaziada do Palácio de São Bento. Não interessa mais nada a ninguém.
“Passos Coelho tem perspetiva de federação das direitas”
Mas olhando agora para a direita, este reaparecimento de Pedro Passos Coelho nesta altura é um problema para Luís Montenegro e dá mais hipóteses ao PS?
Não. O Pedro Passos Coelho sempre teve a ideia de fazer uma convergência das direitas. Passos Coelho tem uma perspetiva da federação das direitas como elas existiram no tempo de Cavaco Silva. Ou seja: à direita não há mais nada. E, portanto, ele quer continuar o caminho da federação das direitas, porque, para ele, o posicionamento do Chega, do seu líder, integram-se no espaço das maiorias absolutas e Cavaco Silva. Porque sempre existiram aqueles militantes com aquela forma de ver o país. Estavam era dentro do PDS e do CDS e agora não estão. Portanto, essa é que é a alteração. Ou seja: estavam nas primeiras AD’s ainda muito salazarista e muito marcelista, depois estavam nas maiores absolutas do Cavaco Silva e depois começaram a ficar fora e a não irem votar. Quando se cansaram do PSD e do PS, que se alternavam do poder sem que houvesse um caminho para o País, e com casos e casinhos e uma má governação eles foram todos para quem abriu a porta. E é preciso ter em conta essa realidade, estancá-la.
Pedro Passos Coelho podem voltar a uni-los e a trazê-los para o PSD?
Exato. É essa a ideia. Ou seja, a ideia para a sua escolha, na minha perspetiva, é que a melhor coisa para a democracia portuguesa é voltar a integrá-los neste arco de governação. Montenegro diz é que há a existência de três blocos. É uma falsidade. Não há três blocos. Há dois blocos: o de direita e o da esquerda. Estão circunstancialmente divididos. Esta coisa do tripé é uma falsidade. O Partido Socialista foi muitas vezes o centro, o Partido Socialista nunca foi exclusivamente o Partido Socialista. O centro também foi de Durão Barroso, de Pedro Passos Coelho em circunstâncias especiais. Portanto, o centro não é por si um pé, como agora o PSD quer fazer acreditar. O PSD está a cometer um erro, que é: a direita está com o partido mais à direita do plenário e também está com a Iniciativa Liberal, nós somos o centro e a esquerda é tudo aquilo que vai para além da esquerda do PS. Isso é mentira.
Não passa no teste do algodão. Não tem fundamento histórico. Não é realidade da nossa democracia. Portanto, é uma estratégia errada por parte de Montenegro e que a prazo lhe vai trazer dissabores.
Se a reforma laboral não passar no Parlamento, Montenegro fica ferido de morte e a ameaça Passos ganha fôlego?
Se não passar no Parlamento, Montenegro faz aquilo que já devia ter feito, que é mandar a ministra embora, que é incompetente e incapaz de fazer qualquer fator de serviço. Nós só temos um problema com a legislação laboral porque a ministra não sabe ser ministra, não sabe o que é a concertação social e ela própria foi mais longe do que [as confederações patronais] tinham pedido. Portanto, isto não é um governo que defende os patrões. Este é um governo de lunáticos no que diz respeito às relações laborais e, portanto, vai ter que fazer uma substituição da ministra e pôr lá alguém que saiba verdadeiramente o que são as relações laborais e perceba qual é o papel do Trabalho nas empresas no século XXI.
Carne ou Peixe. “Como Luís Montenegro nem carne nem peixe, vamos continuar a marchar sem sentido”
Passamos agora à fase do Carne ou Peixe em que tem que escolher uma de duas opções. Preferia escolher os cartazes da candidatura Duarte Cordeiro de 2029 ou José Luís Carneiro de 2029?
Eu já fui diretor de uma campanha eleitoral e demiti-me por causa de uns cartazes. Portanto, não vou fazer nenhuma escolha por um razão simples: estou incapaz para esse serviço.
E como adversário do PS nessas eleições, preferia encontrar Luís Montenegro ou Passos Coelho?
Era melhor que fosse Pedro Passos Coelho, porque esse, pelo menos, tem uma ideia para o país, mesmo que discorde completamente dela e, pelo menos, colocaria a direita toda a marchar à frente dele. E isso abriria novas portas para o Partido Socialista. Como Luís Montenegro nem carne nem peixe, vamos continuar a marchar sem sentido.
Preferia almoçar com Miguel Prata Roque ou Vítor Escária?
Eu estou numa fase em que, praticamente, não almoço. Se eles tomarem chá, eu, talvez, ponderasse.
Com o qual dos dois é que tomava chá?
Se eles tomassem… Ou seja, acho que eles não tomam, portanto, não vou escolher.
Para terminar, preferia ser ministro de um futuro governo por Bruno Gonçalves ou Miguel Costa Matos?
O único ministério que eu aceito é ser ministro da Ordem Terceira de São Francisco, que é uma ordem secular que tem como atividade apoiar pessoas de terceira idade em situação de fragilidade.
E qual aconselharia?
Já vou ser muito velho para ser conselheiro de quem quer quer que seja.