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Mário Zambujal: entre a Gulbenkian e um jardim em Nespereira

Zambujal morreu, aos 90 anos, e continuará a estar numa qualquer criança que tente assaltar museus, com um livro nas mãos, deitada numa rede, totalmente inocente — crónica de Ana Bárbara Pedrosa.

Ana Bárbara Pedrosa
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Não sei se saberia bem o que era uma crónica, mas sabia o que era um malandro. Comecei a ler Zambujal na infância: era eu, a biblioteca municipal de Vizela e aquele cheiro a papel velho misturado com papel novo e madeira com óleo de cedro em cima. Durante aqueles anos, eu tinha o sonho de ler tudo o que existia, e saindo da literatura infanto-juvenil tinha um mundo novo à espera. Algures entre isto, cheguei a Zambujal, atraída por uma ideia de desconhecido: o nome sabia-me a estrangeiro, e isto há-de ter sido pela altura em que li o primeiro Veríssimo e o primeiro Mia Couto.

Fui pela Crónica dos Bons Malandros. O nome é um encanto, encantada fiquei. Em vez do crime perfeito, trapalhada em cima de trapalhada. Um grupo de criminosos de trazer por casa – uns malandrecos, vá – em busca de um golpe de génio e a realidade a cair-lhes em cima. Era tudo tão absurdo, tão escorreito, tão sem nome, que passava a ter o condão de vida a sério, no que tanto diferia da perfeição cirúrgica, dos toques de mestre dos grandes romances policiais, onde nada falhava, tudo era conclusão.

Li-o na cama de rede da Florbela, melhor amiga da minha mãe, em cuja casa passava as tardes. O Tiago e a Sofia, os filhos, chamavam-me para a piscina e eu dizia: “Espera aí”. E ficava ali a balançar enquanto a Quadrilha do Renato balançava comigo. Naquele jardim em Nespereira, dei por mim a querer meter as mãos na Gulbenkian, que nem devia saber se era real, mas que importava? O grupo planeava o crime final, o roubo que lhe daria uma vida descansada – uma vida que, às margens dos percursos incólumes, lhes permitiria viver sem estarem às margens da lei. Havia um quê de romantismo, de justiça, até, para quem não soubera o que era ter tranquilidade. O crime pareceu-lhes forma de haver paz. E, em paz, a balançar na rede, ri-me com eles e com a tolice e com a forma como a esperança não basta para se chegar a algum lado.

https://observador.pt/2026/03/12/morreu-mario-zambujal-o-bom-malandro-escritor-e-romancista-tinha-90-anos/

Anos mais tarde, vi Casa de Papel. Tem semelhanças, claro: uns maladrinhos, uns piores, outros melhores, juntos num assalto dos grandes. Mas ali há uma cabeça de génio por trás, o que significa que a cabeça vai à frente: o Professor planeia tudo e na cogitação do assalto estão todas as hipóteses de reacção. O plano sai, por isso, calibrado. E as falhas têm previsão de solução. Crónica dos Bons Malandros não tem esse lado de génio científico, de surpresa, de solução à vista. Tudo é trapalhada. À falta de uma cabeça quase clínica, uma cabeça com sabor de ChatGTP, temos gente normal com uma ambição desmedida e uma evidente falta de talento para a trapaça.

Ora, tudo isto tem graça, e tem-na também dentro do género policial. Em vez de peças que se encaixam num puzzle, eu, habituada ao estilo rígido de Agatha Christie, alimentando o sonho de um dia, quem sabe, desvendar um crime antes de Mrs. Marple ou Hercule Poirot, dava com uma coisa que me sabia mais a vida, menos a literatura; mais a verdade, menos a artifício literário; mais a dia-a-dia, menos a arquitectura artística. E gostava disto: perante um grande plano de um crime, tínhamos as falhas como parte da vida, parte do chão, parte de sermos gente. A graça de tudo isto era sublinhada pelo narrador, e ei-lo ali a conversar a partir da página, e a leitura a parecer mais do que recepção.

Nisto, o Tiago continuava, “Anda para a água”, e a Florbela dizia-me “Vem lanchar”, mas como podia eu largar um assalto, ainda para mais nesta parte, ou naquela, em que tudo dava para o torto? Leitor armado em ladrão não abandona os companheiros. E como podia dizer à Sofia que não podia ir falar com ela sobre uma coisa qualquer, se já estava no meio de uma conversa que nunca podia ser a três? A piscina estaria ali no outro dia, mas Zambujal dizia-me pela primeira: “Anda ver isto comigo, olha o que escrevi aqui para ti.”

Naquele Verão, eu andava a ler tanta Agatha Christie que devia acreditar que todos os crimes tinham de ser perfeitos. Não confirmo nem desminto se planeei cometer algum, nem se cheguei a delinear páginas de uma tropelia ou outra. E não é que eu não adorasse as mãos cirúrgicas da mestre do policial. Adorava-as — e como. Mas também adorava a forma grandiosa que a literatura tem de nos pôr no sítio, de nos meter ao bolso, de nos dizer que, aspirações à parte, somos todos grão da mesma mó. O sonho existe por ser humano, o falhanço também – e que pode haver de mais ridículo do que uma pessoa?

Aqueles eram heróis a sério – em fuga da formalidade, confundiam-se, trocavam-se, exageravam, acreditavam com tal esperança de viver, que a conclusão era o desastre. E eu, que nunca matara uma mosca, dava por mim lado a lado com aqueles malandros bons em busca de uma luz que ardesse no futuro, imbuída do optimismo ingénuo, e fogo-fátuo, que Zambujal me dava. Pelo meio, as páginas corriam-me à frente, numa leveza sem pretensão, num domínio elegante do ritmo, da ironia. Zambujal fazia-me rir sem que eu percebesse bem porquê, sem que parecesse querer arrancar-me a reacção.

Lá fechei o livro, fui lanchar, fui para a piscina. E não há dia em que chegue à Gulbenkian sem me lembrar da relva aparada da Florbela, das tostas mistas que fazia em Agosto, da nossa pele a arder ao sol. Nem de que o riso é mais belo se voltado para dentro. E não há dia em que chegue àquele jardim de Nespereira e não veja o centro de Lisboa e um grupo de malandros em busca de vida enquanto crianças chamam leitores para com elas jogarem à bola. Zambujal morreu, aos 90 anos, e continuará a estar numa qualquer criança que se ponha pela primeira vez a tentar assaltar museus, com um livro nas mãos, deitada numa rede, totalmente inocente.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia