Num momento em que a competitividade empresarial se redefine à luz de riscos climáticos, disrupção tecnológica, novas exigências regulatórias e maior escrutínio dos investidores, torna-se cada vez mais claro que a sustentabilidade deixou de poder ser tratada como uma agenda paralela. É neste contexto que a CATÓLICA-LISBON tem vindo a aprofundar, com evidência empírica, a forma como as empresas portuguesas estão a integrar a sustentabilidade na sua estratégia, tema que estará também em destaque no evento de 20 de março. O retrato hoje disponível é inequívoco: a sustentabilidade está a migrar do plano declarativo para o núcleo da decisão empresarial, ainda que com diferentes ritmos de maturidade.
Os dados do Observatório dos ODS nas Empresas Portuguesas mostram precisamente essa evolução. Ao longo dos últimos quatro anos, as grandes empresas portuguesas passaram de uma lógica de alinhamento sobretudo conceptual para níveis mais concretos de implementação, maturidade e coerência entre discurso e prática. O desalinhamento antes visível entre a importância atribuída à sustentabilidade e a sua incorporação efetiva foi progressivamente reduzido e, em alguns casos, eliminado. Também no reporting e na medição de desempenho observa-se maior estruturação. Nas PME, a evolução existe, mas continua mais parcial e desigual: cresce o reconhecimento da sustentabilidade como oportunidade de negócio e fator de diferenciação, embora persistam limitações de recursos, conhecimento técnico e capacidade de operacionalização. Ainda assim, a direção é clara: a sustentabilidade consolida-se como eixo estratégico, e não apenas como linguagem institucional.
Esta evolução não é apenas normativa ou reputacional, é competitiva. Os relatórios internacionais analisados reforçam que as empresas que integram a sustentabilidade no core da estratégia tendem a posicionar-se melhor em mercados mais voláteis e exigentes. No estudo global da Morgan Stanley, 88% das empresas inquiridas consideram a sustentabilidade uma oportunidade de criação de valor, e 65% afirmam estar a cumprir ou a superar as expectativas na execução da sua estratégia nesta matéria. Já a PwC mostra que os investidores estão a deixar para trás uma visão de “checklist” e a olhar para a sustentabilidade como sinal de eficiência operacional, resiliência e capacidade de adaptação.
Não por acaso, 84% dos investidores defendem que as empresas devem manter ou aumentar o investimento em adaptação climática, e muitos afirmam que premiam organizações que melhoram a gestão energética, reforçam a resiliência das cadeias de abastecimento e usam dados de sustentabilidade para melhorar desempenho. Em termos simples, a sustentabilidade bem integrada aumenta a capacidade de antecipar risco, proteger fluxos financeiros, inovar e responder mais depressa a mudanças de contexto.
É também por isso que a sustentabilidade pode reforçar a competitividade no mercado. Hoje, competir não é apenas aumentar volume de negócio, é conseguir operar com menor vulnerabilidade, maior previsibilidade e mais confiança perante investidores, clientes, reguladores e talento. O relatório da PwC é particularmente elucidativo ao mostrar que variáveis não financeiras estão cada vez mais presentes nos modelos de avaliação dos investidores: 51% referem vantagem competitiva, 44% tendências setoriais, 40% inovação e I&D e 31% agilidade do modelo de negócio como elementos que incorporam nas suas análises de valor. Empresas que integram sustentabilidade na estratégia conseguem, em regra, melhorar eficiência no uso de recursos, reduzir exposição a custos futuros, reforçar reputação credível, preparar-se melhor para exigências regulatórias e captar oportunidades em novos mercados e segmentos. A sustentabilidade, quando tratada com seriedade estratégica, não reduz a competitividade; redefine-a em bases mais robustas.
A objeção mais frequente continua a ser a do custo. É verdade que a transição exige investimento inicial, transformação de processos, capacitação interna e, por vezes, revisão do próprio modelo de negócio. O próprio relatório da Morgan Stanley mostra que os custos continuam a ser a principal barreira sentida por muitas empresas. Mas o mesmo estudo desmonta a ideia de que esse investimento é financeiramente cego, evidenciando que mais de 80% das empresas afirmam conseguir medir o retorno do investimento em capex, opex e I&D relacionados com sustentabilidade. Mais ainda, um quarto das empresas identifica o aumento da rentabilidade como a principal oportunidade de criação de valor da sustentabilidade nos próximos cinco anos, e outras associam esta agenda a crescimento de receitas, menor custo de capital, maior visibilidade sobre cash flows e melhor capacidade de geração de caixa. Investir em eficiência, resiliência, inovação de produto, redução de desperdício, adaptação climática e robustez da cadeia de valor, pode pressionar custos no curto prazo, mas tende a fortalecer margens, reduzir perdas, melhorar acesso a financiamento e proteger valor no médio e no longo prazo.
O ponto central, portanto, já não é saber se a sustentabilidade “importa”, mas se as empresas a estão a incorporar com profundidade estratégica suficiente para transformar essa agenda em vantagem competitiva e desempenho económico. O Observatório mostra que Portugal está a avançar, embora ainda de forma assimétrica, sobretudo entre grandes empresas e PME. Os relatórios internacionais mostram que os mercados já estão a valorizar quem faz essa integração de forma séria, mensurável e ligada ao negócio. O desafio agora é acelerar, sair da sustentabilidade como camada adicional de comunicação e tratá-la como arquitetura de decisão, investimento e criação de valor. É precisamente para esse debate, assente em evidência e não em retórica, que vale a pena acompanhar o trabalho da CATÓLICA-LISBON e participar no encontro de 20 de março, onde estes resultados serão discutidos com a profundidade que o tema exige.