“Vocês merecem saber o quão incoerentes e incompletos são estes planos”. Foram estas as palavras do senador democrata Chris Murphy, do Connecticut, depois de ter sido informado pela administração dos planos militares dos Estados Unidos para o Irão, num briefing confidencial. O desabafo, feito numa publicação nas redes sociais esta quarta-feira de manhã, é mais um num coro de acusações dos opositores políticos de Donald Trump à falta de transparência de que acusam o Presidente em relação à estratégia que está a ser utilizada na guerra contra o Irão.
Porém, ao fim de quase duas semanas de ofensiva militar — e de críticas da oposição —, a narrativa da administração norte-americana parece estar finalmente a ser definida com mais clareza entre a Casa Branca e o Pentágono. Ao longo da segunda semana de guerra, vários membros da administração apontaram, pela primeira vez em sintonia, quatro objetivos a alcançar na guerra no Irão.
“O Presidente Trump e a administração deixaram claros os seus objetivos sobre a Operação Fúria Épica: destruir os mísseis balísticos do Irão e a capacidade da sua produção, demolir a sua Marinha, acabar com a sua capacidade de armar proxies e impedi-los de alguma vez obterem uma arma nuclear”, definiu a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, num comunicado durante o fim de semana. Esta semana, o secretário de Estado, Marco Rubio, reforçou o interesse norte-americano em cumprir os dois primeiros objetivos.
Ora, estes objetivos têm sido visíveis nos ataques norte-americanos (e israelitas) dos últimos dias, focados nas capacidades militares e na Marinha iraniana. Contudo, especialistas militares ouvidos pelo Observador sublinham a necessidade de distinguir a estratégia militar, observável no terreno, e a narrativa política, utilizada para justificar a necessidade de uma guerra perante os eleitores norte-americanos e a comunidade internacional.

A definição de objetivos militares claros facilita a justificação da operação perante a opinião pública, mas deixa sem resposta as questões, colocadas, por exemplo, pelo senador Chris Murphy, sobre os objetivos a longo prazo, como a destruição do programa nuclear, uma mudança de regime ou a estabilização da situação económica internacional, fragilizada pelo bloqueio no Estreito de Ormuz. E se os primeiros objetivos podem facilmente ser dados como cumpridos ou “bem-sucedidos”, essa classificação é mais difícil de fazer no que toca à visão a longo prazo dos Estados Unidos para o Irão.
As “boas notícias”: lançamento de mísseis e drones iranianos diminui mais de 80%
No início da guerra, as informações das secretas norte-americanas e israelitas estimavam que o arsenal de mísseis balísticos do Irão tivesse entre 2.500 e 3 mil mísseis. A sua eficácia — um míssil balístico descreve um arco na atmosfera que permite que não seja detetado — e a distância que alcançam — podem chegar a 2 mil quilómetros de distância, ou seja, lançados do Irão podem alcançar a península balcânica — fazem destes mísseis os trunfos do arsenal iraniano.
Estas características ajudam a explicar o interesse dos Estados Unidos e do Irão em definir a sua destruição como uma prioridade. Os mísseis balísticos são, nas palavras do Major-General Arnaut Moreira ao Observador, uma “ameaça iminente” sobre Israel e sobre as bases norte-americanas nos países do Golfo que deve ser eliminada. E é isso que tem acontecido. Esta terça-feira, num balanço feito perante o Congresso, oficiais norte-americanos relataram ter destruído cerca de 50% do seu arsenal de mísseis e lançadores. Os números avançados pelo Exército israelita na quarta-feira são ainda mais positivos: dizem ter destruído mais de 300 lançadores de mísseis ao longo de 12 dias de guerra, o que equivale a 60% do arsenal total.
O nível de destruição do arsenal refletiu-se no número de mísseis lançados pelo Irão contra Israel e os países do Golfo. “O ritmo de disparo dos mísseis iranianos diminuiu substancialmente desde os primeiros dias do conflito. Isso são obviamente boas notícias para a região”, avalia Raphael Cohen, analista militar no think tank norte-americano RAND, ao Observador. Segundo números avançados pelo Comando Central dos Estados Unidos, trata-se, mais concretamente, de uma diminuição de 90% na quantidade de mísseis disparados na comparação entre a primeira e a segunda semana de guerra.

Uma diminuição semelhante foi observada no ritmo de disparos de drones, que baixou 83%, detalharam as autoridades norte-americanas. A seguir aos mísseis balísticos, os drones são as armas mais eficazes do arsenal iraniano, pela sua eficácia e pela facilidade e preço baixo de produção em massa. São estes drones iranianos, os Shahed, que têm sido utilizados pela Rússia na guerra contra a Ucrânia.
Estes números são positivos em si mesmos, mas, além disso, também facilitam a defesa norte-americana de ataques futuros: quanto menos mísseis ou drones são lançados, mais fácil é intercetá-los, notam os especialistas. Apesar do foco das autoridades na destruição dos lançadores, o sucesso da operação norte-americana também é explicado pelo facto de os ataques terem visado todas as etapas da cadeia de produção — das zonas industriais de produção, às infraestruturas de armazenamento, até às estruturas de lançamento — o que impede o Irão de simplesmente substituir os equipamentos à medida que vão sendo destruídos.
O Irão “aprendeu a lição” e arrasta os Estados Unidos para uma guerra assimétrica e de atrito
Quando em junho do ano passado, Israel e Irão acordaram um cessar-fogo e puseram fim à Guerra dos 12 Dias, um balanço do conflito permitiu perceber que o Irão tinha lançado cerca de 400 mísseis, dos quais 200 logo na primeira vaga de resposta contra Israel. Depois disso, os ataques foram-se tornando cada vez mais pequenos, por vezes com menos de uma dezena de mísseis.
Passados oito meses, os especialistas em estratégia militar argumentam que o Irão retirou lições desse conflito que está a aplicar agora. Vali Nasr, professor especializado no Irão na Johns Hopkins University, declarou ao New York Times estar “surpreendido com o quão rapidamente as lições foram implementadas“. Desta vez, em vez de ter respondido em força, com um ataque concentrado contra Israel — improvável de ser bem-sucedido dado o sistema de defesa anti-aéreo israelita —, o Irão iniciou uma campanha mais extensa, mais agressiva e mais alargada.
Esta nova estratégia foi claramente explicada por Mahdi Mohammadi, conselheiro do presidente do Parlamento iraniano. “O nosso plano é estender a guerra no seu alcance e no tempo. É o maior golpe que podemos dar a Trump e não temos outra escolha”, declarou numa publicação nas suas redes sociais. Ou seja, com a guerra de junho, o Irão compreendeu duas realidades: em primeiro lugar, que não tinha arsenal suficiente para atacar Israel (ou os Estados Unidos) num confronto tradicional e que devia enveredar por uma guerra assimétrica; em segundo lugar, que a forma mais fácil de confrontar os Estados Unidos era obrigá-los a envolver-se numa guerra de atrito — precisamente o que o Washington procurava evitar, dada a oposição interna às “guerras eternas” no Médio Oriente.
O Major-General Arnaut Moreira argumenta que a diminuição no número de lançamentos por parte do Irão é, em parte, explicada por esta mudança de estratégia. “O Irão não quer arriscar ter todos os lançadores operacionais, interessa-lhe gerir o número de lançadores e isso implica uma diminuição do ritmo de lançamento dos seus drones e mísseis”, expõe.
Neste cenário, a guerra torna-se num confronto de resistência. Contudo, a guerra não é uma realidade puramente militar e é necessário considerar as variáveis económicas e políticas do conflito. Na vertente económica, os professores Arash Reisinezhad e Arsham Reisinezhad, num artigo de análise na revista Foreign Policy, destacam o preço da guerra, notando que lançar um drone pode custar ao Irão 20 mil dólares, enquanto destruir esse mesmo drone com recurso a mísseis intercetores pode custar aos Estados Unidos 500 mil dólares.
Neste aspeto a guerra pode custar mais a Washington e isso já se tornou claro logo na primeira semana, que custou ao Pentágono 6 mil milhões de dólares, avançaram oficiais militares norte-americanos ao Congresso. Na mesma reunião os oficiais deixaram claro que a destruição dos mísseis iranianos também permite avançar para uma forma de confronto mais barata, através do lançamento de bombas de gravidade por aviões.

Já na vertente política, ambos os países enfrentam pressões internas para pôr fim à guerra, mas essas pressões manifestam-se de formas diferentes nos Estados Unidos (uma democracia ocidental com eleições a poucos meses) e o Irão (um regime teocrático que recorre à forma militar para reprimir a oposição). Além disso, enquanto Teerão já está isolado internacionalmente e pouco tem a perder nesse palco, uma guerra pode custar a reputação e a posição global de Washington entre os seus aliados.
“Os mísseis e os ataques aéreos podem dominar as manchetes, mas uma luta muito mais consequencial pode estar a desenrolar-se nos mercados de energia, na logística marítima, nos sistemas financeiros, nas arenas políticas domésticas em vários países”, escrevem os professores Reisinezhad na Foreign Policy. “Nestes conflitos, a arma decisiva raramente é o sistema militar mais avançado. É a capacidade de resistir”, rematam.
A Marinha iraniana: ameaça iminente à economia global, não às forças norte-americanas
Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, um submarino norte-americano disparou um torpedo contra um navio inimigo, destruindo-o, em vez de o capturar. “É mais divertido fazê-lo assim”, declarou Donald Trump sobre o incidente esta quarta-feira, adiantando que esta justificação lhe foi dada por um general norte-americano que não identificou.
Seja ou não “mais divertido”, a verdade é que os ataques norte-americanos, a par com as capacidades militares e em linha com os objetivos definidos, têm visado fortemente a Marinha iraniana. No mesmo comício, o Presidente norte-americano adiantou que na última semana as forças norte-americanas “já deram cabo” de 58 navios — os números do Exército norte-americano no mesmo dia dão conta de 60 navios destruídos. Em qualquer um dos casos, isto representa mais de metade da Marinha tradicional do Irão, que conta com cerca de uma centena de navios.
À Marinha oficial, junta-se ainda a Marinha da Guarda Revolucionária, cujo funcionamento é mais opaco, mas que conta com algumas centenas de barcos mais pequenos e mais rápidos aos quais se somam baterias de mísseis na costa. Porém, mesmo somadas, as capacidades navais do Irão ficam aquém das capacidades navais dos Estados Unidos, que, apenas na região, têm estacionadas duas dezenas de navios, incluindo dois porta aviões. E estes 20 navios representam apenas 41% da capacidade naval pronta a atuar na região, segundo uma análise do CSIS.
Consideradas as disparidades, a Marinha iraniana não representa o mesmo perigo direto para as forças norte-americanas que as capacidades de mísseis balísticos, o que faz surgir a questão: por que motivo foi a sua destruição selecionada como prioridade estratégica de Washington? A resposta, para os especialistas ouvidos pelo Observador, está na guerra assimétrica e de atrito que o Irão está a impor aos Estados Unidos.
“Acho que a mudança para visar as capacidades navais iranianas é em parte uma resposta à tentativa de o Irão fechar o Estreito de Ormuz e assediar o fornecimento de energia global”, sintetiza Raphael Cohen. A ação da Marinha iraniana no estreito de Ormuz nem precisa de ser ofensiva, ressalva por sua vez Arnaut Moreira. A mera presença militar do Irão no estreito funciona como “dissuasora” para as grandes empresas petrolíferas e para as empresas de seguros, que não arriscam ver os seus navios atacados durante a passagem — como, aliás, já aconteceu.
Tendo em conta que 20% do petróleo à escala mundial passa pelo Estreito de Ormuz, o seu bloqueio já se fez sentir nos mercados e no aumento do preço do petróleo. Raphael Cohen vê este bloqueio como uma estratégia ponderada no âmbito de uma guerra assimétrica, que também é visível nos ataques às infraestruturas petrolíferas nos países do Golfo. O objetivo? “Visar as reservas de energia global, com base na suposição que esta pressão económica vai forçar os Estados Unidos e Israel a pôr fim à guerra”. Ou seja, insistir nos custos económicos da guerra.

Perante esta conjuntura, a Marinha iraniana torna-se efetivamente numa ameaça iminente aos Estados Unidos que é preciso eliminar de forma prioritária; não porque ameaça o seu poder militar, mas porque ameaça o seu poder económico (e, em geral, a economia global). Portanto, enquanto eliminar mísseis balísticos e drones permite aos Estados Unidos continuar a suportar o custo militar da guerra, eliminar a Marinha iraniana permite suportar o custo económico da guerra.
Objetivos dos EUA a longo prazo podem só ser concretizados com uma mudança de regime
A segunda semana de guerra pode ter clarificado dois dos objetivos definidos pelos Estados Unidos. Mas o desenrolar do conflito não dá sinais de abrandar e tanto Teerão como Washington recusaram, por agora, sentar-se novamente à mesa das negociações. Assim, a guerra continua e várias questões ficam por responder.
Dado o momento atual, a questão que mais se impõe tem a ver com a capacidade de resistência de cada lado: quanto tempo pode durar? Os especialistas ouvidos pelo Observador evitam fazer previsões, dada a quantidade de variáveis que é preciso considerar, mas no modelo atual, ambos os lados parecem ter capacidade para prolongar o conflito durante vários meses. John Philips, antigo instrutor militar, fez à Al Jazeera uma estimativa ainda mais ambiciosa: o Irão pode suportar este modelo de guerra assimétrico “durante anos”. Já Raphael Cohen duvida que a estratégia iraniana funcione, dado o preço político demasiado elevado. “A longo prazo, a estratégia iraniana vai alienar os seus vizinhos, incluindo países que eram anteriormente neutrais se não mesmo amigáveis com o regime iraniano”, pondera.

Ao teste de resistência, soma-se o foco dos Estados Unidos nos dois outros objetivos: a destruição do programa nuclear e o apoio aos proxies. Os analistas militares apontam, com confiança, que será difícil fazer o programa nuclear ou o “eixo da resistência” regressar à estaca zero com uma ofensiva aérea. Isto porque as capacidades se encontram, em grande parte, protegidas em infraestruturas subterrâneas e em zonas montanhosas que os ataques aéreos não destroem com total eficácia, mesmo que danifiquem entradas ou sistemas mais sensíveis. O cenário mais provável — e mais positivo para Washington — é que as operações israelo-americanas consigam atrasar o programa em muitos meses, estima Arnaut Moreira.
Foi este precisamente o resultado dos ataques de junho do ano passado, na sequência dos quais Donald Trump declarou repetidamente que o programa nuclear tinha sido “obliterado”. Oito meses depois, volta a declarar que o quer destruir. O Major-General Arnaut Moreira destaca neste ponto a relação entre os objetivos militares e a narrativa política. “Os Estados Unidos querem fazer um reset maior? Se mudarem o regime, o programa pode morrer, não é?”, sugere. Apesar de uma mudança de regime não estar na lista oficial de objetivos, responsáveis norte-americanos continuam, efetivamente, a não pôr de lado esta possibilidade.
Contudo, mesmo uma mudança de regime pode não ser suficiente para cumprir os objetivos mais extremos dos Estados Unidos no Irão. É possível — até provável — que se o regime dos aiatolas cair, surja no seu lugar um regime ainda mais radical e mais oposto a Washington. Alguns especialistas argumentam esse cenário é ainda mais perigoso, porque pode acentuar a vontade de Teerão de conseguir uma arma nuclear e um acelerar da recuperação do programa parcialmente destruído por duas guerras.
“O mundo pode vir a descobrir que um Irão ferido, sem rumo e vingativo é muito mais difícil de monitorizar e de estabelecer contactos do que aquele que se sentou à mesa das negociações em Genebra há apenas algumas semanas”, alerta Rupal Mehta, professora de ciência política na Universidade Nebraska-Lincoln, num artigo publicado pela London School of Economics.